VOZ DA COMUNIDADE: OUÇA ESSE GRITO!

A Voz da Comunidade é um jornal comunitário feito por estudantes que  ganhou expressão nacional em 2010, durante a retomada do Complexo do Alemão pela polícia das mãos da bandidagem.

O twitter @vozdacomunidade, direto do olho do furacão, alimentava noticiários impressos, do rádio e da tevê, relatando exatamente o que se passava ali dentro naquele momento crucial.

O trabalho foi recompensado com a montagem de uma redação na sede do Afro Reggae na Grota, onde puderam expandir seu trabalho.

Esta redação sofreu um incêndio criminoso e agora seus integrantes lutam para reerguer seu local de trabalho. Você pode ajudá-los!

VIAGEM AO PLANETA ZECA PAGODINHO

Solidariedade não é moda nem novidade na vida dessa figura que, além de grande sambista, sempre estendeu sua mão amiga, tanto pra dar uma força aos amigos quanto pra pegar uma cerveja geladinha.Este texto foi escrito em 2009, muito antes de toda a tragédia de Xerém. Achei oportuno mostrar pra vocês.

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 O tempo chuvoso me deu vontade de visitar o Zeca Pagodinho. Minha mulher liberou, desde que eu não voltasse bêbado e inutilizado. E qual a graça de visitar o Zeca sem voltar pra casa bêbado e inutilizado? Preferi ficar na minha e dividir com vocês algumas passagens desta figuraça.

Conheci o Zeca na Vila Mimosa, um prostíbulo famoso no Rio. Antes que vocês tirem conclusões precipitadas, vou logo explicando. Queríamos fazer uma entrevista para a revista Casseta Popular com o sambista que estava começando a fazer sucesso. Ele marcou nosso encontro lá. Na época era o seu segundo lar . “Aqui todo mundo me conhece, ninguém fica me pedindo autógrafos”. Além disso, era um bom lugar para encontrar parceiros de samba, gente da malandragem que não quer ser encontrada. Zeca explicou que ir à Vila Mimosa não tem necessariamente a ver com sacanagem. É um ambiente familiar, segundo ele, que já levou até a sogra lá.

Mas é no seu sítio em Xerém que Zeca Pagodinho costuma receber os amigos. Circular com ele pelo bairro, dar um pulo na feira, jogar conversa fora na esquina é muito mais divertido que ir à Disney. Certa vez eu e Hubert chegamos ao sítio pra fazer uma matéria para o programa. É boêmio, mas acorda cedo. Fomos logo convidados a dar uma passada na banca de jornal.

No portão, uma fila de vizinhos. Vieram contando com a distribuição de cestas básicas que rola quando ele tá na área. É o Bolsa-Pagodinho, mais eficiente que qualquer projeto social do governo.

– Hoje não tem nada, não. Volta semana que vem que hoje eu tô com os cassetas.

Ele vai passando pela cidade cumprimentando todo mundo. Alguns aproveitam pra tentar descolar um qualquer. Zeca vai desfiando pequenas biografias pelo caminho.

– Aquele ali cortou o saco.

– Como assim, Zeca? – perguntamos espantados.

– Ele andava meio perdido. Foi à igreja e o pastor mandou ele cortar o sexo. Não teve dúvida: tirou o saco fora. Acho que ele não entendeu a mensagem.

Estamos quase chegando à feira e uma figura pedala distraidamente sua bicicleta. Acaba atropelando o carro de Zeca que vinha em baixa velocidade.Vemos duas pernas deslizando pelo pára-brisa. O carro sofre um pequeno arranhão, assim como o ciclista. Mais tarde ele aparece na casa do Zeca e recebe uma cesta básica como indenização.

– O cara atropela meu carro, me dá um preju e ainda ganha uma cesta básica!

Mais tarde,  o aroma do leitão que está no forno começa a perfumar o ambiente. Começam a chegar os compositores. Zeca reúne uma rapaziada da pesada, a nata do samba carioca está ali. Aparecem  Xande, do grupo Revelação, o maestro Rildo Hora, Paulão 7 Cordas, Nilze Carvalho, Barbeirinho do Jacarezinho, Luís Grande, Marquinho Diniz,  Alamir… Gente que criou sucessos como “Dona Esponja”, “Tá ruim mas tá bom”,”Exaustino”, “Vida da Gente” e uma pá de outras obras-primas que chegam às rádios na voz de Zeca Pagodinho.

Tava na época do vestibular do Zeca. Todo mundo fica ouriçado, tentando emplacar mais um samba no seu próximo cd. Ninguém tá ali pra fazer feio. “É como diz o ditado: Cachorro não mija em fogueira” – filosofa o homem.  Eu e Hubert saímos no lucro, ouvimos na fonte várias músicas sensacionais, algumas delas estão no seu último cd, “Uma Prova de Amor”.

Várias cervejas depois, o leitão não passava de uma carcaça totalmente destroçada. Perda Total.

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Anoiteceu, o quintal ficou às escuras, Mônica, sua mulher, apareceu:

– Ô Zeca, por que vocês estão aí nesse breu?

– É que lâmpada queimou.

– Então troca!

– Eu moro aqui, não trabalho aqui. – rebateu de improviso o bamba do partido alto.

Nunca mais esqueci essa frase. E de vez em quando uso aqui em casa. Sábias palavras!