Um apreensivo domingo de sol

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Domingo passado fiz o que já faz parte de uma rotina de anos: aproveitei uma brecha para visitar meus pais na Vila da Penha. Dessa vez, porém, foi diferente. A véspera foi marcada por notícias de tiroteio intenso próximo à estação do BRT em Vicente de Carvalho, a uns 500 metros de onde eles moram, casa em que fui criado até meus vinte e poucos anos. Era um domingo de sol, céu azul, e eu nervoso, sem saber se teria uma tarde tranquila com minha família ou se estava indo para uma praça de guerra.

Costumo brincar dizendo que sou do tempo da Vila da Penha Raiz e não dessa Vila da Penha Nutella, com metrô pertinho, BRT na porta, shopping, cinema e outras mordomias. Quando era garoto, pra ir à praia em Ipanema, tinha que pernoitar na casa de um amigo na Tijuca, bairro que eu já considerava de frente pro mar por ter ônibus direto para a zona sul.

Hoje vejo que a situação de outra forma. Na verdade, eu morei na molezinha. Podia brincar na rua a qualquer hora do dia ou da noite, voltava de madrugada das festas sem deixar ninguém assustado em casa. Largava minha bike na porta da padaria sem tranca, podia lavar o carro do meu pai com a chave na ignição. Tudo bem, o cinema não era na esquina, mas ia e voltava sem medo. No sábado, o pessoal que saía de Vicente pra ir ao Rock in Rio teve que se jogar no chão da estação e rezar, mesmo que fosse ateu. A bala comeu solto.

Pensei duas vezes no itinerário a fazer para a visita. Nada de Linha Amarela, ia me jogar na avenida Pastor Martin Luther King, o olho do furacão. Evitei também passar da Vila Kosmos, como gosto de fazer pra rever a vizinhança.

Aquela Vila da Penha em que jogava bola, soltava pipa, brincava de pique-bandeira é que era nutella. A Vila da Penha atual exige nervos de aço. E colete à prova de balas. É triste constatar que, no bairro da minha infância, os moradores de hoje precisam ter o espírito de um Chuck Norris.

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ao todo.

CRAQUE OU CRACK?

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Um empresário de jogadores de futebol foi preso pela Polícia Federal como suspeito de chefiar o tráfico no porto de Santos. Tive acesso à gravação de uma conversa entre o empresário e um cartola de um grande clube brasileiro.

–       Eu queria comprar um craque.

–       Crack?

–       Isso mesmo. Você tem algum aí?

–       Tenho, claro!

–       É pra botar na linha.

–       Tô sabendo. Bota na linha, mete o canudo e manda pra dentro.

–       É brasileiro?

–       Tem brasileiro, mas eu recomendo o boliviano, é da melhor qualidade.

–       Onde ele tá agora?

–       Tá no porto.

–       No Porto? Então é bom mesmo!

–       É o que eu tô te dizendo. Não vou vender qualquer porcaria, tá ligado?

–       A galera tá cobrando, se eu não tomar uma providência, não vai sobrar pedra sobre pedra.

–       Ah, meu camarada, dos meus produtos nunca sobra uma pedra…Quantos quilos?

–       Ah sei lá, uns 70, 80 quilos, pode ser?

–       Claro que pode! Até uns 120 quilos eu garanto.

–       Peraí, 120 quilos é demais! É gordinho, tipo Walter?  Tudo bem, o importante é ser bom.

–       É do bom, sim. Já te falei que só trabalho com mercadoria de primeira.

–       Então tá fechado.

–       Só vai querer crack? E da purinha? E do preto?

–       Nossa torcida não é racista não. Se for goleador, pode ser preto, não tem problema.

–       Goleador? Como assim?

–       Goleador, artilheiro…tamos precisando de um centroavante!

–       Centroavante? Ih, rapaz, só agora é que eu entendi…

–       Afinal, tem ou não tem craque?

–       Disso aí que tu tá querendo, só tenho uns perna de pau aqui. Vai?

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ao todo.