FOME NOTURNA

– Demorou! Onde você foi?

– Fui ali comer uma coisinha.

– Te procurei na cozinha e não te achei.

– Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

– Cheiro de perfume barato… Gervásio, isso é perfume de mulher.

– É, sim.

– É sim??? Você foi encontrar outra mulher?

– Encontrar não1 Comer…

– O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e…

– …Comi.

– …Tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

– Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

– Aí você sai na maior cara dura e…

– Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

– Como você é grosso!

– Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

– Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

– Você pode se levantar, tô cansadão.

– Que nojo! Nem um banho.

– Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

– Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

– Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

– Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

– Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

– Nem eu, nem meu advogado.

– Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

– Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!” que você não entendeu? Some! Evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Jurava inocência e achou exagerada a reação da namorada. “Vai entender essa mulher… Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

 

 

 

 

O VÍCIO

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Quando Mariana se casou com Gervásio todo mundo avisou. Gervásio tinha fama de galinha e não sossegava em poleiro nenhum. Dava em cima de tudo que é mulher que passava na sua frente, prometia amor eterno a três namoradas ao mesmo tempo, uma ao vivo, outra pelo celular e outra via mensagem no orkut. Mas jurava que no dia que encontrasse a parceira da sua vida ia pendurar a camisinha.

Mariana é uma mulher de personalidade. Olhou para Gervásio e se encantou. As amigas se desesperaram.

– Deixa de bobagem. – ela rebatia. – Vocês implicam com o Gervásio só por causa daquele bigode. Na minha gestão ele vai ter que raspar e vai perder aquela cara de cafajeste.

– Sei não, Mariana. Você não tem medo de ele começar a pegar as suas amigas?

– Qual delas?

– Eu, por exemplo. Quer dizer não é que vá dar mole pra ele, é só uma maneira de falar sem ficar citando nomes…

– Ainda confio mais nele do que em você, Valeska. Afinal, é mais fácil ele raspar o bigode do que você trocar esse seu nome que é quase uma condenação.

Mariana enfrentou a opinião pública e se casou com Gervásio. Antes, liberou o futuro marido para armar a despedida de solteiro como quisesse, com direito a baile funk com jogadores de futebol e cachorras à vontade. Ainda deixou no bolso dele o telefone da Valeska.

O casamento se consumou e Gervásio mudou mesmo. Raspou o bigode, leiloou entre os amigos o celular, cuja agenda de contatos era mais cobiçada que ações do Google. E sossegou.

O maior problema para Gervásio não era deixar de pular a cerca e sim perder a fama de garanhão da qual sempre se orgulhou. Até que um dia teve uma ideia. Conversou com Mariana e ela topou. À noite se arrumaram e foram a um restaurante. Mariana entrou sozinha e pediu uma mesa. Gersávio deu um tempo, quinze minutos depois  chegou e se dirigiu ao bar. Chamou o garçom e pediu-lhe que entregasse um bilhete à moça solitária, junto com um drink. O garçom trocou um olhar cúmplice ao se dirigir à mesa.

– O senhor do balcão está lhe oferecendo um proseccozinho, madame.

Mariana agradeceu e abriu o bilhete. Ele tentou se afastar, mas foi puxado pela manga do paletó. No mesmo papel, Mariana escreveu o número do seu celular e devolveu ao garçom.

Gervásio mudou-se para a mesa de Mariana. Os dois jantaram, depois saíram juntos. Discretamente, ele escorregou uma gorjeta para o garçom e quase pediu “Espalha!”.

Passaram a repetir a trama com frequência. Gervásio foi readquirindo a autoestima que andava em baixa. Aos poucos foi elaborando a brincadeira. Chegava, contava vantagens ao barman, fazia apostas de que pegaria aquela dona e, ao invés de bilhetes carinhosos e galantes, passou a escrever algo tipo: “Quero te comer todinha, sua cachorra”.

Mariana deu um fim na brincadeira quando Gervásio foi fundo no personagem do marido que trai a mulher com a amante. Como de hábito, foram a um restaurante e ele passou-lhe uma cantada. Mais tarde levou-a para um motel, encheu a cara e caiu broxa na cama, depois de passar horas falando mal da própria esposa.

FOME

 –       Demorou! Onde você foi?

–       Fui ali comer uma coisinha.

–       Te procurei na cozinha e não te achei.

–       Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

–       Cheiro de perfume barato…Gervásio, isso é perfume de mulher.

–       É, sim.

–       É sim?? Você foi encontrar outra mulher?

–       Encontrar não, comer.

–       O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e …

–       …comeu

–       …tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

–       Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

–       Aí você sai na maior cara dura e…

–       Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

–       Como você é grosso!

–       Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

–       Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

–       Você pode se levantar, tô cansadão.

–       Que nojo! Nem um banho.

–       Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

–       Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

–       Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

–       Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

–       Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

–       Nem eu, nem meu advogado.

–       Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

–       Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!”que você não entendeu? Some, evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Achou exagerada a reação da namorada. “Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

A CONSULTORIA

Alex é um fotógrafo de vinte e poucos anos. Foi trabalhar num jornal e conheceu Ataíde, um repórter cinquentão. Alex é solteiro, nas horas vagas, vai pras baladas da Lapa pra tentar arrumar uma mulher que dê condição e outras coisitas mais. Ataíde é um sujeito casado e fiel à sua patroa. Defende ardorosamente sua monogamia, não tanto por convicção mas, segundo ele, por falta de circunstâncias perfeitas em que não corresse o menor risco de esmerdalhar sua vidinha tão acertada.

Alex não entende Ataíde. Não entra na cabeça dele o sujeito ficar amarrado a uma única mulher quando a vida oferece uma grande variedade de opções.

– É sério isso mesmo? – pergunta Alex, intrigado.

– Já te disse que sim, mas acho que você não acreditou. – respondeu Ataíde.

– Não acreditei mesmo. Por que isso? É promessa?

– É amor, rapaz. Sabe o que é isso?

– Menor ideia.

– Amor à vida tranquila, só nós dois, sem amantes ou advogados pra tumultuar a relação.

– Há quanto tempo você só transa com a sua mulher?

– Desde que a gente casou, há 28 anos.

– Toda a minha existência mais três anos de franquia! É muito tempo! Já lhe ocorreu uma coisa?

– O quê?

– E se vocês estiverem fazendo errado?

– Como assim?

– Se vocês estiverem transando de forma errada?

– Que isso, rapaz? Não tem como errar, tá no instinto.

– Sei, mas vocês estão isolados, não trocam experiências, vivem como os cubanos no bloqueio comercial, sem saber o que se passa no resto do planeta.

– Também não é assim. Tem internet lá em casa, posso acompanhar tudinho.

– E você acha que alguém faz daquele jeito deles? Alguém aguenta tanto tempo naquele ritmo frenético? Aquilo é pura ficção, Ataíde. E eles usam dublês contorcionistas pra certas posições.

– Olha, Alex, tá funcionando muito bem, tamos muito bem entrosados. Em time que tá ganhando não se mexe.

– Mas vocês não tão ganhando, tão, no máximo, empatando.

– Afinal, Alex, o que você quer propor?

– Minha ideia é uma consultoria. Você faz um video e me mostra. Aí eu dou umas dicas pra incrementar a parada, passo as novidades do mercado, novas táticas e coisa e tal…Tudo no maior sigilo, tua mulher nem precisa saber, fica entre nós.

– Consultoria? Bom, lá em casa nós não temos segredos. Vou conversar com a Gracinha, depois te falo. Mas ó, nada desse papo de fio-terra, entendeu?

– Fechado.

*    *   *

Em casa, Ataíde apresentou a proposta.

– Então, Gracinha, o que você acha?

– Tá maluco, Ataíde? Não vê que esse sujeito quer se aproveitar da gente?

– Como assim? O que um sujeito que cada dia tem uma mulher diferente na cama ia sair ganhando assistindo dois velhos fazendo sexo?

– Por isso não, que tem tarado pra tudo. Mas eu acho que o caso não é esse.

– É o quê, então?

– O seu amigo vive trocando de parceira. Nunca repete mulher, sabe por quê? Ele é ruim de jogo, Ataíde! Por isso as mulheres não voltam, aí ele tem que arrumar outra. Esse cara tá querendo saber qual é o nosso segredo. O que a gente faz que dá tão certo. E eu não vou dar esse gostinho pra ele.

– Sabe que não tinha pensado nisso?

– Pois é, mas eu pensei. Agora vamos lá pra dentro que amanhã eu tenho que acordar cedo.

– Tô indo, Gracinha, tô indo.