PRA NÃO MORRER NA PRAIA!

No começo éramos uns três ou quatro. Na hora, apareceram 17. Dezessete malucos que resolveram nadar da Praia Vermelha até o Posto 6. Os táxis não estavam em greve, uma linha de ônibus faz esse trajeto. Podiam alugar um barco – e foi o que fizeram. Mas, ao contrário dos turistas habituais, esses dezessete não quiseram passear dentro do barco e sim perto dele, no mar, a nado.

É uma operação que exige cuidados para ser segura. Contratamos uma lancha, um guarda-vidas e ainda contamos com o apoio de um caiaque para atravessar os 6 quilômetros que separam a Urca do Posto 6. Demos sorte, num dia ensolarado, o mar estava calmo, águas em ótima temperatura, pouco movimento de embarcações. A nós cabia a disposição e foi o que levamos, além dos óculos de natação.

A brincadeira começa tranquila e favorável. Nadamos pela garganta entre o morro do Pão de Açúcar e a Pedra do Leme. As águas mornas, a mata virgem que desce o morro até o mar nos lembra Angra do Reis. Porém, contornar a Pedra e chegar à Princesinha do Mar não é tarefa simples. Uma correnteza forte tentava nos arrastar para a Baía de Guanabara. Era meter o braço ou cair sentado num daqueles sofás atolados no fundo da baía. Nosso sentido era outro.

IMG_9370

O Pão de Açúcar ficou pra trás. À medida que avançávamos a pedra descortinava a orla de Copa. O progresso nesse ponto é medido pelos prédios do Leme que conseguimos ver. Em breve deixamos de ver também a pedra do Leme. A parte mais difícil do percurso vai sendo vencida.

É fundamental nadar em alto mar acompanhado por gente que tem o ritmo próximo ao seu ou em pouco tempo você estará sozinho na imensidão azul. Os hotéis são as referências de progresso. Gosto de marcar o antigo Méridien, o Copa Palace, o Marriot – hotel com buraco na fachada, o Othon que nunca vi por dentro e, por fim, o Cassino Atlântico, onde apostamos todas as fichas que vamos chegar.

Uma travessia tão longa é um exercício de controle da ansiedade. A gente demora a pisar na areia e tomar uma água de coco. Em certos momentos você passa a pensar nos seus problemas nas D.R com a mulher, no dever de casa que o filho não fez, nas encrencas do trabalho. Mas logo tem que afastar os pensamentos para se concentrar nas braçadas alongadas e na orientação da navegação ou o ritmo cai e você pode passar todo seu domingo na água salgada.

À medida que vamos chegando ao destino, a ansiedade cresce, Nadar é legal, mas chegar é melhor. É quando lembro das viagens a Salvador de ônibus que fiz nos meus vinte e poucos anos (parece música do Fábio Júnior). Duravam trinta horas e a última hora, já na cidade baiana, parecia a mais longa de todas. Estava quase lá, mas parece que tinha alguém puxando a rodoviária para longe. Essa era a sensação que me dominou quando cheguei na altura do posto 5. Faltava menos de 15% de tudo que nadamos e parecia interminável.

Captura de Tela 2016-04-03 às 21.36.52

De repente, a surpresa. Vamos nos aproximando da orla, o fundo arenoso ressurge. E, confesso, nunca me senti tão feliz de nadar no meio de sacos plásticos, copinhos de mate, embalagens de margarina. É a prova mais concreta de que chegamos!

IMG_9368

TE AGARRA NAS CAGARRAS

Tinha quinze pra dezesseis anos quando soube o nome daquelas ilhas. Cheguei ali da Vila da Penha, os pés ainda sujos de barro, acompanhado de um amigo de colégio que morava na Tijuca. Isso mesmo, pra ir à praia em Ipanema pernoitava na casa desse meu amigo tijucano, pra ficar mais perto do mar. Nadava mal pacas, passei a infância fugindo das aulas de natação, das quais tinha um verdadeiro horror. A gente se sentava na areia e eu só entrava na água quando estava quase desidratando. Foi esse meu amigo quem me disse o nome daquelas ilhas, que eu pensava ser só uma. Ele sempre brincava, dizendo  “quando uma onda surgir atrás das Cagarras, pra onde você vai correr?” Ficava apavorado com essa hipótese e me imaginava correndo toda a avenida Brasil de volta pra casa.

Por conta dessa história, fazer uma travessia daquelas ilhas até a praia de Ipanema sempre teve contornos míticos. Não acreditava que alguém pudesse ter fôlego pra isso, muito menos que esse alguém pudesse ser eu. E não é que esse dia chegou?

Um bote nos leva até as ilhas, onde começará a aventura. À medida que o barco avançava mar adentro, eu me perguntava pra quê? Por quê? Eu tava bem na minha caminha, tava tranquilo  naquelas areias, o que ia fazer lá longe? Se estivesse num transatlântico afundando, tudo bem, faria todo sentido arriscar e sair nadando pra alcançar a praia. Mas e se você já está na areia? A resposta é a tal da superação. O ser humano, esse idiota que precisa se por à prova pra se convencer de que é capaz de desafiar sua força, seus limites, para alcançar seus objetivos.

Entendo, a travessia é uma metáfora da vida. Você sabe onde tudo começa e onde tudo vai dar, o que acontece entre um ponto e outro é um mistério, surpresas te aguardam e elas podem ser boas ou ruins. No final, acaba valendo a pena. Mas será isso mesmo? Pô, se é pra vivenciar essa filosofia barata, não seria mais fácil ler um livro de auto-ajuda? Não precisaria treinar nem acordar cedo.

O barco chega às Cagarras. A praia está bem longe, não se vê a areia. Impossível saber qual daquelas caixinhas de cimento é o Hotel Caesar Park, ponto da chegada. Os organizadores nos orientam. “Nadem mirando o Cristo!” Fico na dúvida se aquilo é uma dica de navegação ou um toque religioso. Mas logo vejo que o Corcovado fica alinhado com o ponto final da prova. É difícil acreditar que vou nadar tentando chegar ao Cristo Redentor! Mas é exatamente isso que começo a fazer. Oito boias demarcam o trajeto. É o que dizem, pois uma vez no mar, não vejo uma delas sequer. A sorte é que tenho um salva-vidas particular, um sujeito que nunca vi na vida em quem tenho que confiar cegamente.

A correnteza naquele trecho do oceano é bastante forte, de leste para oeste. Se nadar despreocupadamente posso atingir o litoral no Recreio dos Bandeirantes. Sou orientado pelo salva-vidas a mirar o Arpoador e acreditar nas aulas de Física: a resultante será uma linha reta. Então tá. Agora a questão é o ritmo. Nadar calmamente e chegar em terra três dias depois ou dar braçadas vigorosas e morrer em quinze minutos? Como estou de férias, opto pro chegar em três dias.

No decorrer da travessia vou adquirindo confiança e forçando a barra. Pra vencer a correnteza e não chegar na Barra. Em pouco tempo todas aquelas pessoas que começaram a prova ao meu lado desaparecem. Fico em dúvida se houve um afogamento coletivo ou se todo mundo já chegou em Ipanema e estão me esperando. Pelo menos o salva-vidas não me abandonou. Sem trocar uma palavra estamos cada vez mais íntimos. Sem nenhum contato físico, claro.

Quando menos espero, começo a ver os prédios. Dali a pouco, a areia da praia. Fico animado. Intensifico as braçadas. Me aproximo da chegada, ouço ao longe a música do evento. Imagino quantos moradores são acordados com aquela zoeira toda. Gente que paga uma fortuna de IPTU pra ser perturbada no domingo por um locutor animadão e uma música em altos decibéis. O desespero desse pessoal é o nosso alívio. Sonho com a hora em que vou tomar um caldo de uma onda que vai me jogar no pórtico de chegada. Não é preciso sonhar muito, a onda logo chega, me encaixota  e me despacha para a areia. Enfim, de volta ao ponto de onde nunca devia ter saído.

Com a respiração ofegante faço uma profunda reflexão. Que lição posso tirar dessa experiência? A resposta é só uma: agora estou pronto pra seguir a vida me achando, tirando com a cara de geral. Você já nadou das Cagarras até Ipanema? Não? Eu já!

O TUBARÃO HUMANO

Esse cara aí do meio é o nadador australiano Trent Grimsey, que conheci no posto 6, através do Luiz Lima. Trent veio disputar – e ganhar – o desafio Rei do Mar, uma prova que consiste em 5 voltas  de 850 metros no mar e 50 metros na areia. Veio defender o tridente que havia faturado no ano passado.

Mas não é só apenas isso. Sua camisa tem impresso 6:55. Não é a hora que ele acorda todo dia para nadar. É seu tempo na travessia do Canal da Mancha. O sujeito nadou 34 quilômetros em impressionantes seis horas e cinquenta e cinco minutos!

Fiquei atônito com os números. O cara manteve uma velocidade média de 4,92 km/h durante quase sete horas. Tenho dúvidas se conseguiria acompanhá-lo num jet ski. Tentei fazer um paralelo com meus números. Pelo resultado da última etapa deste ano do Rei e Rainha do Mar – categoria prego – fiz 3 quilômetros em 1 hora, meu recorde! Ou seja, mantive a média de 3 km/h. O que significariam 11horas e 18 minutos de natação, quase o dobro do tempo do Trent. Só que tem um detalhe: ele fez toda a prova de uma só vez, claro. Eu só manteria minha alta performance se nadasse três quilômetros por dia.

Portanto, precisaria de 11 dias e mais um pouquinho pra sair da Inglaterra e chegar à França. É… no meu caso, melhor economizar uma graninha e pagar uma passagem de avião.. E, olha, considerando o deslocamento, praia-aeroporto-praia mais o tempo de voo, acho que Trent Grimsey chegaria na frente…