AZUL É A COR MAIS DURA

Alvarenga completou seus 60 anos dando inveja a seus amigos. Separou-se da mãe de seus três filhos já encaminhados, mudou-se para um pequeno e charmoso apê no posto 6 e reduziu a marcha da rotina. Largou o mercado publicitário, foi à luta de seu sonho, transformar o hobby de escritor em ganha pão. Não precisava mais ganhar, bastava empatar ou perder de pouco. A mudança de ares resultou em bons dividendos no departamento eroto-sexual. Passou a atacar moças mais novas, obtendo sucesso na pescaria noturna.

Um dia, porém, abusou do álcool e o motor afogou. E não houve chupeta que desse jeito. Alvarenga ficou arrasado. Terá sido um ponto fora da curva? Ou o início de um novo e tenebroso tempo? Já tinha falhado algumas vezes com a patroa e avaliou que era normal. Muitos anos de um papai-mamãe burocrático, normal que o desinteresse viesse à tona. Mas e agora? A moça era uma gata, não conseguia entender o que se passou. Pensou em procurar uma terapeuta, melhor, um terapeuta – não queria confessar a fraqueza à uma mulher, seria a segunda a saber, se é que a fama já não estava se disseminando por aí. Pelo menos até onde pôde rastrear, ainda não tinha virado assunto no Facebook.  A moça foi compreensível discreta, merecia receber flores.

–       Deixa de frescura, Alvarenga. Isso acontece com qualquer um. – rebateu Duda, seu amigo e confidente. – Você não precisa passar por isso hoje em dia. Toma um viagra e ponto.

–       Sei não, Duda, não gosto de tomar remédio nem pra dor de cabeça.

–       Esse é diferente, é pra deixar a cabeça dolorida. E ardida. Experimenta.

Alvarenga seguiu o conselho. Comprou uma cartela e guardou na carteira, colada com uma camisinha. Quando surgiu uma oportunidade, engoliu a azulzinha com água da pia do banheiro do restaurante e voltou pra mesa disposto a pedir sobremesa, licor, cafezinho, tudo que fizesse o tempo passar. De vez em quando se apalpava pra ver se já tinha dado resultado. Imaginava que, passados 30 minutos, uma ereção explodiria e teria de pedir emprestado ao garçom o iPad com a carta de vinhos pra disfarçar. Devolveria ao chegar no carro. Não foi preciso.

Na hora H, deu tudo certo. O problema se transferiu para o próximo encontro.

Alvarenga não sabia se estava em forma novamente. Arriscar ou se prevenir? Tomando a pílula jamais teria certeza de que estava curado, de que foi um episódio isolado. Se voltasse a recorrer à Pfizer, o êxito estaria garantido. E a dúvida permaneceria.

A presa era valiosa demais, não podia correr riscos. Ao chegar à farmácia, o balconista foi logo pegando uma cartela.

–       O que você está querendo insinuar? – irritou-se. – Tá me chamando de broxa compulsivo? Vim aqui comprar uma aspirina!

–       Desculpe, é que eu pensei…

–       Você não está aqui pra pensar! Não precisa pegar nada, já tô de saída.

Tirou uma reta indignado até a calçada. Cem metros adiante, entrou em outra farmácia e comprou seu Viagra em paz.