DESFAÇATEZ ILIMITADA – DORA KRAMER

dora-kramer“Desfaçatez ilimitada”, por Dora Kramer

O Estado de São Paulo

Reza a história política dos últimos 12 anos que Luiz Inácio da Silva é o mais competente dos personagens que habitaram e transitaram pelo cenário do poder nesse período.
Trata-se de uma avaliação que leva em conta resultados como parâmetro. Se nessa régua forem colocados quesitos relativos a limites éticos Lula ocuparia o pódio na categoria dos políticos ardilosos. São qualidades diferentes e, portanto, implicam condições competitivas distintas.
O habilidoso dotado de princípios sempre estará em desvantagem diante do esperto cujos objetivos não conhecem regras nem observam valores. São aqueles que se pautam pelo dístico segundo o qual os fins justificam os meios. Atuam à margem, atropelam e em geral chegam na frente.
Transposto para o ambiente eleitoral, o conceito de “fim” é a vitória não importa quais sejam os métodos. Vale tudo. A mentira, a manipulação, a traição, a destruição de reputações à qual agora se chama pelo sofisma de “desconstrução de imagem”.
Nesse quesito o PT não tem limite. Já mostrou isso em diversas ocasiões. Na maioria, senão da totalidade delas, foi bem-sucedido do ponto de vista que interessa ao partido: o resultado imediato. Mostra-se surpreso agora com o tamanho do desgaste acumulado. Mas chega uma hora que as pessoas cansam de tanta insolência, menosprezo a regras e valores.
Decorre também daí – da economia e dos fracassos do governo – o cenário de dificuldade eleitoral para os petistas. Na economia e na administração promete “mudar mais”. Já no terreno da derrubada dos obstáculos ao alcance do objetivo principal aplica os métodos de sempre.
Desta vez com um grau de desfaçatez e falta de compromisso com a verossimilhança que dá a medida do medo que assola a tropa de vir a ser desalojada do aparelho de Estado.
A alternância de poder não lhes parece algo palatável. Só isso explica o nível da ofensiva contra a candidata do PSB, Marina Silva, desde que seu nome se firmou nas pesquisas como ameaça mais que real à reeleição de Dilma Rousseff.
O ataque começou em campo legítimo, na exploração das contradições do discurso e das posições defendidas por Marina Silva. Enveredou por comparações esdrúxulas, aludindo à dificuldades que ela poderia enfrentar por falta de apoio no Congresso e daí ter o mandato interrompido como Jânio Quadros e Fernando Collor. Uma distorção, mas só um pouco ridículo.
Em seguida entrou no campo das invencionices dizendo que a adversária venderia a Petrobrás, acabaria com o Banco do Brasil, suspenderia benefícios sociais e por aí afora. Nesta semana a coisa se agravou e chegou ao ponto da afronta pessoal. A uma bobagem de Marina sobre “bolsa banqueiro”, a presidente Dilma respondeu com uma ofensa: “Eu não tenho banqueiro me sustentando”. Em que sentido, quis dizer a presidente?
Deixou o entendimento de maneira desrespeitosa ao juízo do freguês. O ex-presidente Lula, o capitão do contra-ataque, divulgara que respeita Marina e por isso não bateria nela. Ardiloso, assiste em silêncio à pancadaria para a remoção do obstáculo.

Pontaria: Mais uma flecha certeira do Fernando Gabeira

fernando-gabeira-3

Fernando Gabeira: Abençoado por Deus e roubado com naturalidade

- O Estado de S. Paulo
Tá lá o corpo estendido no chão. Acabou uma época imprensada entre a crise econômica e uma profunda desconfiança da política. Não quero dizer com isso que o atual governo federal, com sua gigantesca capacidade, milhões de reais e a máquina do Estado, perderá a eleição. Não o subestimo. Quando digo que acabou uma época quero dizer que algo dentro de nós se está rompendo mais decisivamente, com as denúncias sobre o assalto à Petrobrás.
De um ponto de vista externo, você continua respeitando as leis e as decisões majoritárias. Mas internamente sabe que vive uma cisão. A contrapartida do respeito à maioria é negada quando o bloco do governo se transforma num grupo de assaltantes dos cofres públicos.
Uma fantástica máquina publicitária vai jogar fumaça nos nossos olhos. Intelectuais amigos vão dizer que sempre houve corrupção. Não se trata de um esquema de dominação. Ele tem seus métodos para confundir e argumentar.
O elenco escolhido pelo diretor da Petrobrás para encenar o grande assalto na política não chega a surpreender-me. O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara, Henrique Alves, são atores experimentados. A diferença agora é que decidiram racionalizar. Renan e Alves viveram inúmeros escândalos separadamente. Agora estão juntos na mesma peça. Quem escreve sobre escândalos deve ser grato a eles. Com a presença num mesmo caso, Renan e Alves nos economizam um parágrafo. Partimos daí: os presidentes do Senado e da Câmara brasileira são acusados de assaltar a Petrobrás.
Deixamos para trás um Congresso em ruínas e vamos analisar o governo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi acusado, o tesoureiro do PT também foi denunciado. As declarações deixam claro que Lula levou o diretor para o posto e elogiava seu trabalho na Petrobrás.
Em termos íntimos, não há governo nem Congresso para respeitar. Ambos já mudaram de qualidade. Os que se defendem afirmando que sempre houve corrupção não percebem a fragilidade do argumento. É como se estivessem diante do incêndio do Rio e alguém sussurrasse: “O Nero, lembra-se? O Nero também incendiou Roma”.
Grande parte dos analistas se interessa pela repercussão do escândalo na corrida presidencial. Meu foco é outro: a repercussão na sensação de ser brasileiro. Quem talvez conheça melhor essa sensação são as pessoas que vivem em favelas, dominadas pelo tráfico ou pela milícia.
Existem diferenças entre as favelas e o Brasil que as envolve. Diante de escândalos políticos somos livres para protestar, o que não é possível nos becos e vielas. E contamos com a Justiça. No caso do mensalão, o processo foi conduzido por um juiz obstinado e com dor nas costas, pouco tolerante a artifícios jurídicos. Neste caso da Petrobrás há indícios de que o juiz Sérgio Moro, competente em analisar crimes de lavagem de dinheiro, pretende avançar nas investigações. E avançar por um território que não é virgem, mas extremamente inexplorado: o universo das empreiteiras que subornam os políticos.
Lembro-me, no Parlamento, dos esforços do velho Pedro Simon para que se investigassem também as empreiteiras nos escândalos de suborno. Falar disso no Congresso é falar de corda em casa de enforcado. Ele não conseguiu. Mas Simon queria mostrar também que os políticos não se corrompem sozinhos. Desgastados, polarizam tanto a rejeição que poucos se interessam por quem deu dinheiro e com que objetivo.
Leio nos jornais que as empreiteiras fizeram um pool de excelentes advogados e, pela primeira vez na história, vão se defender de forma coordenada. Vão passar por um momento crucial. Ainda no Congresso, apresentei projeto regulando suas atividades no exterior. A presunção era de que mesmo no exterior o suborno era ilegal para uma empresa brasileira. Alguns países já adotam essa política.
Sinceramente, não sei se o caso das empreiteiras é apenas de bons advogados. Em muitos lugares do mundo, algumas empresas assumem seus erros e se comprometem com um novo tipo de relação com as leis. Isso no Brasil seria uma decisão audaciosa. Sem o suborno, devem pensar, não há chance de ter contratos com o governo.
Se, como no mensalão, a justiça for aplicada com severidade, também as empreiteiras serão punidas. Mais uma razão para pensar numa mudança de comportamento para a qual o País já está maduro. Todo esse processo de corrupção pode ser combatido, parcialmente, a partir de nova cultura empresarial. Os outros caminhos são transparência, Polícia Federal, Justiça, liberdade de imprensa e internet.
Quando afirmo que uma época acabou, repito, não excluo a vitória eleitoral das forças que assaltam a Petrobrás. Mas, neste caso, o governo sobreviverá como um fósforo frio. Maduro, na Venezuela, vê Chávez transfigurado em passarinho. Esse truque não vale aqui, pois Lula está vivo. E no meio da confusão.
Não creio que o Congresso será melhor nem que a oposição, que não soube combinar a crítica econômica com a rejeição moral, possa realizar algo radicalmente novo. O próprio Supremo não é mais o mesmo. Modestamente, podemos esperar apenas alguma melhoras e elas vão depender de como o povo interpretará o saque à Petrobrás. Na minha idade já não me posso enganar: Senado, Câmara, governo, tudo continua sendo formalmente o que é; no juízo pessoal, são um sistema que nos assalta.
O PT, via Gilberto Carvalho, acha que a corrupção é incontrolável e propõe financiamento público de campanha. Bela manobra, como se o dinheiro da Petrobrás não fosse público. Os adversários têm tudo para desconfiar da tese. Ficariam proibidos de arrecadar com empresas, enquanto dinheiro a rodo é canalizado das estatais para o PT, que se enrola na Bandeira Nacional e grita: “O petróleo é nosso!”.
Na medida em que tudo fique mais claro, talvez possamos até economizar palavras, como Renan e Alves nos economizaram um parágrafo participando do mesmo escândalo. Poderíamos usar a frase do mendigo em Esperando Godot, ao ser questionado sobre quem o espancou: os mesmos de sempre.
*Fernando Gabeira é jornalista

Maracutaias Profundas

A presidente Dilma Rousseff, ex-ministra das Minas e Energia e ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobras, diz que não sabia de nada sobre as maracutaias na estatal. Como é que ela não sabia de nada? E se ela não sabia, é porque não tem a menor competência para exercer nem o cargo de ministra das Minas e Energia, tampouco o de presidente do Conselho, e muito menos o de presidente do Brasil.

 

Marcelo Madureira e Guilherme Fiuza debatem no Fórum Liberdade e Democracia em BH

@@@@Forum

 

Artigo do economista Rodrigo Constantino, publicado em seu blog na Veja.

 

Fórum Liberdade e Democracia: discutindo o país que queremos

Minha chegada a Belo Horizonte começou com fortes emoções: o avião teve de arremeter por conta de uma rajada de vento no momento exato do pouso. Em tempos de desastre como o de Eduardo Campos, confesso que precisei afrouxar a gravata e respirar fundo. Mas era só o começo e ainda haveria outras emoções consideráveis, mas bem melhores, como a de receber o Prêmio Liberdade pelos colegas do Instituto de Formação de Líderes (IFL).

O V Fórum Liberdade e Democracia, que o IFL organizou nesta segunda em Belo Horizonte, foi um bálsamo para aqueles que, como eu, estimam o bom debate, civilizado e calcado em argumentos. O Brasil carece de iniciativas como esta, que valorizem a troca de opiniões em ambiente livre, com espaço para uma mensagem liberal que raramente ganha as páginas dos jornais ou os eventos universitários. No fórum, os liberais não se sentem alienígenas falando outra língua dentro do próprio país, e não há espaço para rótulos vazios, slogans e palavras de ordem que impedem qualquer diálogo mais sério.

O discurso de abertura da presidente do IFL, Tatiana Mattar, enfatizou a importância da liberdade individual e da democracia para a prosperidade do país, alegando que o eterno “país do futuro” nunca muda de patamar por desrespeitar tais pilares. Convocou cada um a participar de forma mais ativa na construção desse futuro, pois não podemos simplesmente esperar que as coisas melhorem do nada. Assumiu, assim, o papel de elite que lidera, o que tanto falta no Brasil.

William Ling foi o empresário premiado, e fez uma excelente palestra de agradecimento. Mostrou como é possível cuidar dos interesses da empresa e ao mesmo tempo agir para mudar e fortalecer as instituições democráticas. Movido por uma espécie de imperativo categórico kantiano, por uma indignação em relação ao abuso e exploração das massas ignorantes pelos governantes, o empresário esclarecido tem a obrigação moral de lutar por um entorno melhor, deixar de lado a visão míope, os interesses de curtíssimo prazo, para criar os pilares de uma nação livre. Como seus pais fugiram da China quando Mao fez sua revolução sangrenta, Ling sabe bem o que é viver sob um regime opressor. Cabe ao empresário se esforçar para impedir tal destino em nosso país.

O primeiro painel falou sobre política econômica e contou com dois ex-presidentes do Banco Central: Gustavo Loyola e Gustavo Franco. Defenderam a autonomia da entidade, tão abandonada hoje, lembrando que não basta apenas isso, mas sim ter uma visão abrangente da função dos bancos na economia. O atual governo os usou para criar moeda e crédito sem lastro, fomentando a volta da inflação.

Franco destacou que temos uma grande incerteza em relação a qual política econômica seria a adotada por um eventual segundo mandato de Dilma, agora que Mantega está “demitido” pela presidente em campanha. Disse não ser fácil compreender Dilma. Acha que existe um claro risco de o país seguir na rota venezuelana ou argentina, o que seria catastrófico. A Argentina tem uma inflação anual acima de 40%, enquanto o governo divulga um índice oficial perto de 10%, e na Venezuela já passou de 60%. Acha que o Brasil não está tão longe assim disso, pois estamos flertando com 10% ao ano e abandonamos a meta de inflação, adotando em seu lugar uma banda que acaba sempre no teto.

Loyola destacou a questão do ambiente aos negócios, bastante desfavorável atualmente. E concluiu que não existe oposição entre crescimento e desigualdade, pois a redução da distribuição da renda depende do crescimento, e citou como exemplo o Plano Real como o grande programa social do país.

O painel seguinte contou com Guilherme Fiuza e Marcelo Madureira. Fiuza começou afirmando que, para saber qual país queremos, é preciso saber o que está dando errado no presente. O evento que lhe chamou mais a atenção recentemente foram as manifestações que tomaram as ruas do país em 2013. Crítico do governo atual, Fiuza não poupa a opinião pública, cuja reação demonstra falta de senso crítico e foco. O povo brasileiro cai com muita facilidade na armadilha retórica do populismo, daqueles que Fiuza chama de “mercantilistas da bondade”.

As imposturas dos governantes passam impunes diante de um discurso falso, de um “humanismo” que mascara o oportunismo desses exploradores. Não foi apenas o povo que entrou nessa, mas sim gente da tal elite supostamente esclarecida, disposta a embarcar no teatro armado pelo PT. Os escândalos de desvio dos gastos públicos ocorriam nas barbas do brasileiro, que preferia protestar contra “tudo”, ou seja, nada. Ou seja, tivemos apenas uma “Primavera Burra”, incapaz de identificar um só alvo concreto em seus protestos. O caso de Rosemary, completamente ignorada pelos “rebeldes”, é talvez o mais contundente de todos. Fiuza concluiu afirmando que há razoável liberdade de expressão no país; o que falta é discernimento por parte do público, i.e., um bom uso dessa liberdade. Acusou o déficit de atenção crônica da população, pois nada mais falta para se dar conta de que existe um projeto parasitário de poder para sugar toda a máquina pública.

Marcelo Madureira começou afirmando que fora da democracia não existe salvação, e rejeitou os conceitos de esquerda ou direita, que julga obsoletos. Diz que falta uma utopia, que sem uma visão de qual mundo queremos à frente, acabamos com um ambiente em que vicejam os oportunistas de plantão. Confesso morrer de medo de utopias. Madureira aderiu à tese, que julgo equivocada, de que o capitalismo é bom para criar riqueza, não para distribuí-la. Não acho que devemos ter um foco obsessivo na distribuição em si da riqueza, pois ela não é estática, não é um jogo de soma zero. Mas o humorista também reconheceu que o aparelho de estado não tem condições de atender às demandas da sociedade, e que vive de forma parasitária do esforço da população. Falta aos seus gestores um projeto de país, pois só possuem mesmo um projeto de poder, sob o velho patrimonialismo que transforma a coisa pública em “coisa nossa”.

O resultado é a descrença, especialmente dos jovens, na política. É uma crise de caráter moral, de valores. Temos uma sociedade intolerante, algo que se agudizou nos últimos anos. O contraditório não é mais tratado de forma civilizada. O simplismo substitui uma visão de mundo mais complexa, que demanda estudo para um maior conhecimento dos problemas em pauta. Há uma exacerbação do individualismo. E a demagogia campeia, com um governo que celebra o aumento na quantidade de gente que precisa viver das esmolas do estado.

Madureira concluiu discordando de Fiuza em relação ao ambiente de liberdade de expressão, afirmando que muitas vezes existe até uma dificuldade de trabalho para quem ousa divergir do governo. Citou os ícones dos atuais governantes, Venezuela e Cuba, como exemplos dos riscos que corremos, não apenas na economia. A saída é fazer política. Até “não fazer política” é um ato político. Votar nulo é um ato político. As pessoas precisam participar mais, discutindo, conversando, trocando ideias, procurando compreender o outro lado, buscando alguma convergência. E após tanta seriedade, fechou dizendo que será o primeiro artista a pedir Bolsa Ditadura do governo Lula.

Infelizmente era chegada a hora de ir para o aeroporto, e perdi a palestra do Dr. Ives Gandra Martins. Já vi algumas vezes o renomado advogado em palestras, e leio sempre seus artigos. Portanto, tenho alguma ideia do que ele pensa, mas lamento não ter ficado até o final, pois suas ilustres contribuições sempre agregam algo de novo. Fica para a próxima.

O IFL está de parabéns pela organização do evento, e as centenas de pessoas presentes com certeza saíram com bastante material para reflexão. Afinal, qual Brasil queremos? Eis a provocação feita pelo IFL, e cuja resposta deve começar justamente pelo amplo debate de quais são nossos principais problemas e quais as alternativas postas na mesa para solucioná-los. O fórum cumpriu bem sua função.

Rodrigo Constantino

AS RAÍZES DO RACISMO: DRAUZIO VARELLA

racismo

Somos seres tribais que dividem o mundo em dois grupos: “o nosso” e o “deles”.

Esse é o início de um artigo sobre racismo publicado na revista Science, como parte de uma seção sobre conflitos humanos, leitura que recomendo a todos.

Tensões e suspeições intergrupais são responsáveis pela violência entre muçulmanos e hindus, católicos e protestantes, palestinos e judeus, brancos e negros, heterossexuais e homossexuais, corintianos e palmeirenses.

Num experimento clássico dos anos 1950, psicólogos americanos levaram para um acampamento, adolescentes que não se conheciam. Ao descer do ônibus, cada participante recebeu aleatoriamente uma camiseta de cor azul ou vermelha. A partir desse momento, azuis e vermelhos faziam refeições em horários diferentes, dormiam em alojamentos separados e formavam equipes adversárias em todas as brincadeiras e práticas esportivas.

A observação precisou ser interrompida antes da data prevista, por causa da violência na disputa de jogos e das brigas que irrompiam entre azuis e vermelhos.

Nos anos que se seguiram, diversas experiências semelhantes, organizadas com desconhecidos reunidos de forma arbitrária, demonstraram que consideramos os membros de nosso grupo mais espertos, justos, inteligentes e honestos do que os “outros”.

Parte desse pré-julgamento que fazemos “deles” é inconsciente. Você se assusta quando um adolescente negro se aproxima da janela do carro, antes de tomar consciência de que ele é jovem e tem pele escura, porque o preconceito contra homens negros tem raízes profundas.

Nos últimos 40 anos, surgiu vasta literatura científica para explicar por que razão somos tão tribais. Que fatores em nosso passado evolutivo condicionaram a necessidade de armar coligações que não encontram justificativa na civilização moderna? Por que tanta violência religiosa? Qual o sentido de corintianos se amarem e odiarem palmeirenses?

Seres humanos são capazes de colaborar uns com os outros numa escala desconhecida no reino animal, porque viver em grupo foi essencial à adaptação de nossa espécie. Agrupar-se foi a necessidade mais premente para escapar de predadores, obter alimentos e construir abrigos seguros para criar os filhos.

A própria complexidade do cérebro humano evoluiu, pelo menos em parte, em resposta às solicitações da vida comunitária.

Pertencer a um agrupamento social, no entanto, muitas vezes significou destruir outros. Quando grupos antagônicos competem por território e bens materiais, a habilidade para formar coalizões confere vantagens logísticas capazes de assegurar maior probabilidade de sobrevivência aos descendentes dos vencedores.

A contrapartida do altruísmo em relação aos “nossos” é a crueldade dirigida contra os “outros”.

Na violência intergrupal do passado remoto, estão fincadas as raízes dos preconceitos atuais. As interações negativas entre nossos antepassados deram origem aos comportamentos preconceituosos de hoje, porque no tempo deles o contato com outros povos era tormentoso e limitado.

Foi com as navegações e a descoberta das Américas que indivíduos de etnias diversificadas foram obrigados a conviver, embora de forma nem sempre pacífica. Estaria nesse estranhamento a origem das idiossincrasias contra negros e índios, por exemplo, povos fisicamente diferentes dos colonizadores brancos.

Preconceito racial não é questão restrita ao racismo, faz parte de um fenômeno muito mais abrangente que varia de uma cultura para outra e que se modifica com o passar do tempo. Em apenas uma geração o apartheid norte-americano foi combatido a ponto de um negro chegar à presidência do país.

O preconceito contra “eles” cai mais pesado sobre os homens, porque eram do sexo masculino os guerreiros que atacavam nossos ancestrais. Na literatura, essa constatação recebeu o nome de hipótese do guerreiro masculino.

A evolução moldou nosso medo de homens que pertencem a outros grupos. Para nos defendermos deles, criamos fronteiras que agrupam alguns e separam outros em obediência a critérios de cor da pele, religião, nacionalidade, convicções políticas, dialetos e até times de futebol.

Demarcada a linha divisória entre “nós” e “eles”, discriminamos os que estão do lado de lá. Às vezes com violência