A cidade e o Serra

Serra não é simpático? E daí, se é competente? A eleição de SP é nacional. Não se pode fortalecer o PT, que se alia ao que há de pior por seu projeto caudilhesco.

O Brasil é um país complicado. Por um lado, a democracia dá um salto de qualidade, impulsionada pela ação do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão. Do outro lado, assistimos nestas eleições de 2012, mais uma vez, articulações de forças intestinas na direção do atraso, do patrimonialismo autoritário e obscurantista.
A cidade de São Paulo é a principal arena deste MMA político brasileiro. Queira ou não queira, o segundo turno paulistano, como sempre, alcança dimensão nacional. São Paulo não é só a nossa maior metrópole, mas também, por sua multiplicidade, uma síntese do Brasil. Além da gestão da cidade, o que esta em jogo são dois projetos políticos distintos e antípodas.
Coerente com o perfil autoritário do ex-presidente Lula, o candidato Fernando Haddad, enfiado goela a dentro do PT, dá continuidade ao projeto lulista
Esse lulismo traz dentro de si tudo aquilo que a civilização brasileira quer transformar em página virada. O projeto caudilhesco de Lula usa o aparelhamento do Estado, a demagogia populista e não contempla uma transformação virtuosa da sociedade brasileira.
Fernando Haddad é mais uma peça desse projeto. Projeto que tem como único arcabouço “ideológico” o poder pelo poder, a qualquer preço, e com as alianças com aquilo de pior que existe na política brasileira. E a lista é grande: são Malufes, Sarneys, Barbalhos, Calheiros, Collors e Valdemares Costa Neto. Está nos autos.
O mensalão foi um atentado à democracia brasileira. Uma traição explícita à Constituição, pedra fundamental do Estado de Direito que, no ato de posse, o presidente jura manter, proteger e cumprir.
Mas palavra de honra não me parece que seja coisa para se levar em conta no lulismo. Para Lula e os seus áulicos, a democracia é um valor burguês, uma figura de retórica a ser utilizada segundo a conveniência do momento.
O povo de São Paulo, guardião intransigente da Constituição brasileira, honrando o movimento constitucionalista de 1932, tem o dever de derrotar esse projeto político.
José Serra pode não ser um candidato simpático. Muito pelo contrário. O ex-governador de São Paulo Mário Covas também não era. Mas, como o saudoso Covas, Serra já provou mais de uma vez retidão e competência na gestão da coisa pública, e isso é o mais importante. O eleito, afinal, não vai ganhar um programa de humor, mas uma prefeitura para administrar.
A única lembrança que Haddad deixou do seu período à frente do Ministério da Educação, por outro lado, foi a sua desastrosa gestão do Enem, com fraudes e erros de organização que prejudicaram milhões de alunos em um momento crucial das suas vidas.
Desnecessário dizer que, se votasse em São Paulo, votaria no Serra. Subtraindo seus defeitos e somando as suas virtudes, José Serra é a melhor alternativa.
Inclusive acredito que o compromisso que o candidato tucano propõe aos paulistanos não será interrompido por uma eventual candidatura à presidência, como tanto se comenta. Serra sabe que o seu sonho com o Planalto já passou e que a oposição brasileira, em nível nacional, pede novos protagonistas.
Caramba! Nunca escrevi tão sério! Deve ser a influência do Serra…

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, 22 de outubro de 2012.

8 Comentários

  1. Ivan   •  

    Com todo o respeito, mas se você gosta do Serra, que leve ele para o Rio. Ele, além de ser um grande mentiroso, nos deixou como herança um dos prefeitos mais mal avaliados da história de São Paulo (sorte do Kassab que o Pitta existiu) e entregou 30 das 31 subprefeituras para os militares — a ditadura não tinha acabado?. Além disso, é notoriamente um elitista. São Paulo é uma cidade chata, sem alma, nada pode, tudo é suprimido pelos governos municipais e estaduais.

    O mensalão foi uma vergonha, é verdade. Mas os culpados estão sendo punidos. O PT se juntou com nomes sujos de nossa política. É verdade. Mas o PSDB do Serra tem como aliado, há anos, o DEM, partido formado pelos filhos da ditadura que os tucanos ajudaram a combater.

    O PT, ao menos, preza pela justiça social e tem planos de governo que aceleram o fim da desigualdade. Ou nada mudou no Brasil nos últimos 10 anos? E não me venham com esse papo de que mudou por inércia, como reflexo da economia pujante dos emergentes e da América Latina.

    E digo mais: o PSDB de hoje é tão incompetente que nem oposição sabe fazer. Não se renovou. Logo estará moribundo (se é que já não está).

    • Sergio   •  

      Prezado Ivan, o que acelerou a desigualdade foi a continuidade dos projetos sociais da administração Fernando Henrique, se vc procurar bem verá que o criador do Bolsa Familia não foi o PT e tampouco o Sr. Lula

      • Ivan   •  

        Sergio, até o ACM se dizia o “pai” do Bolsa Família por que criou o Fundo de Combate à Pobreza. Eu não citei programa A e nem B e muito menos estou admitindo que o Bolsa Família foi criado pelo FHC (até porque têm muito tucano que diz que o Bolsa Família nada mais é do que um grande programa oficial de compra de votos — então vocês começaram a “comprar votos” primeiro?).

        O que eu digo é que nos últimos dez anos a vida do brasileiro mudou. 35 milhões de pessoas passaram a integrar a classe média, o equivalente a 53% da população. Em 2002, apenas 38% de nós estava na classe média. Isso não é reflexo de um plano isolado. É reflexo de todo um plano de governo.

        Respeito o FHC. Mas eu prefiro acreditar em um projeto encabeçado por um patriota socialista e não por um filho da burguesia que disse, uma vez, que os países do terceiro mundo seriam, para sempre, dependentes das nações de primeiro mundo. Prefiro acreditar em um projeto que renova as suas bases e não no de um partido que afastou de sí toda uma nova safra de intelectuais. A derrota do Serra significará o seu fim político. Aqui em São Paulo, com força (e nem tanto) restará apenas o Geraldo. Fora do Estado, vocês tem o Aécio, que parece estar mais preocupado com a sua vida social. O PSDB não traz nada de novo para o Brasil. Se bobear, perderá espaço para o PSB.

        São anos de soberania tucana em São Paulo. Já deu — ao menos na capital. A população está mostrando que não quer mais.

    • carollcmg   •  

      Que isso, cara, não manda o Serra aqui pro Rio não! hahahahaha

    • Carlos   •  

      O Kassab foi eleito justamente porque era um dos prefeitos mais bem avaliados do país. Depois do primeiro mandato (quando o Serra renunciou), o Kassab era um dos mais bem avaliados.
      Se o PT preza pelo social? Piada! Só se for para dar mais grana para os empresários via BNDES.

  2. Maria Cristina Pereira Nunes Fialho   •  

    Marcelo, te admiro. Vc devia escrever mais e usar o twitter. Como o lapena. É uma pena que não o faça…

  3. Hilvania (@Hilvania)   •  

    É isso aí Marcelo…Não podemos dar de bandeja a cidade de São Paulo, tida como xeque-mate para esse partido comuna. Serra já

  4. Roberto Brügger da Costa   •  

    Marcelo, é na simplicidade da escrita que vemos o carater de uma pessoa bem informada. A nossa história digo povo Brasileiro não deve ser esquecida. Parabéns pela a matéria escrita por você. Hoje estou mas orgulhoso de ser Brasileiro.

    Att,
    Brügger

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