Pela Porta dos Fundos!

Hoje à noite,  na Travessa do Leblon, vai ter a “vernissage” do livro do Porta dos Fundos. Eu vou lá. Vou pagar o meu tributo a essa garotada (alguns não tão garoto(a)s assim…) que está arrebentando de fazer sucesso na Internet. Já comprei o livro, muito bem editado, por sinal.  É  um ótimo manual prático para  quem quer se iniciar nas artes da redação de humor. Ponto para o PdF (Porta dos Fundos, de agora em diante), estão na moda total! Gosto do material  deles, principalmente porque se vê que é um trabalho de equipe, onde o conjunto opera pela qualidade do produto final.  Não tive ainda o prazer de conhecer a todos pessoalmente. Gosto muito do Porchat (o qual conheço, inclusive, biblicamente), um imenso talento com quem já tive a oportunidade de fazer algumas “paradas”. Gostaria de conviver mais com ele, sinto que temos uma boa sintonia humorística. Também admiro muito o diretor, Ian SBF (ou será THC ?), que quase foi trabalhar com a gente no Casseta & Planeta, e só não foi por “pequenas burocracias” da TV Globo. Que pena! Mas no final deu tudo certo. Pro Ian, é claro. SBF trouxe para o humor audiovisual uma sofisticação sutil na direção, um minimalismo, uma economia e precisão na edição que dá gosto de ver. Os enquadramentos, a luz, os figurinos, os diálogos… Tudo no PdF conspira pela qualidade, e isso com recursos pra lá de modestos. É como eu sempre digo: o que vale é o talento.

Nada deste sucesso é essencialmente novo. Quando nós aparecemos, no final do século passado, causamos o mesmo furor, admiração e espanto. Com uma diferença: tanto a TV Pirata, quanto o Casseta & Planeta eram exibidos em horário nobre, em rede  nacional e pela maior emissora de televisão do Brasil. O Chico Anysio, na época, caiu de pau na gente, ironizando que a empregada dele não entendia as nossas piadas “inteligentes”. Errou longe. Todas as semanas, dezenas de milhões de telespectadores  “curtiam” os nossos programas, do Oiapoque ao Chuí. Com o tempo, fizemos as pazes. Afinal, quem éramos nós para ameaçar a obra do Chico Anysio?

Hoje o PdF fica, sabiamente, restrito à plataforma internet. Por quê? Constato espantado que, hoje, na TV Globo, não tem espaço para o PdF, e nem teria para o TV Pirata ou o Casseta & Planeta original.  Não porque a TV Globo seja malvada, retrógrada, manipuladora e outras bobagens paranoicas que bobos e ingênuos  repetem em passeatas. O que se constata é que a sociedade brasileira andou para trás, principalmente nos últimos dez anos.  Uma onda “moralista” tomou conta da nossa sociedade, vivemos num período de muita hipocrisia, onde as aparências,  a falsa defesa de valores discutíveis,  se sobrepõem ao avanço da  “massa crítica da massa” .

Me refiro aos anunciantes e publicitários. São eles que, em última forma, definem o conteúdo (e a forma) das mídias em geral e da televisão, em particular, “interpretando” os sentimentos e valores da população de uma forma bastante peculiar. E o que é pior, através do “espelho retrovisor” que são as pesquisas de opinião. A TV Globo e as outras emissoras nada mais fazem do seguir a lógica do que lhes apresenta o Mercado, e assim, maximizar os seus resultados e financiar as suas produções. Nada mais honesto, coerente e perfeito para uma empresa que pretende continuar a ser bem sucedida.

Aqui, cabe uma digressão.

E nós, os artistas, o que fazemos? Qual o nosso papel? O papel do artista é incomodar. Tirar o cidadão do seu estado natural. E esse “incômodo” não precisa ter, necessariamente, um caráter negativo. Apreciar uma obra de arte pode levar o cidadão a uma sensação de prazer estético que tira ele do sério. O papel do humorista em particular é, em primeiro lugar,  fazer rir, e isso não é pouco. Nem fácil. Depois, se possível, levar o indivíduo a encarar e refletir sobre os absurdos da vida e do mundo em que vivemos. Isso, no seu conjunto e ao longo do tempo, ajuda a levar a sociedade adiante, enfrentar velhos preconceitos e ignorâncias e, eventualmente, se reposicionar perante os mesmos. Esse é o papel das Artes na vivência coletiva. E é isso que está faltando hoje no Brasil. As artes não incomodam ninguém. Mesmo porque ao Mercado não  interessa  que as pessoas se “incomodem”. Mas isso vai mudar.

Fim da digressão.

Voltando ao PdF, constato que eles se concentram mais no humor de costumes, que se adequa mais às demandas do público no momento. Coisa que, como já disse, incomoda menos. Mas isso não diminui um milímetro o mérito desta rapaziada (algu(ns) (mas) não tão rapazes (moças) assim), mesmo porque eles mostram uma maturidade empresarial muito superior à nossa, do C&P. Ao optarem, logo de saída, por atuar num nicho específico, garantem independência e qualidade, coisa que só agrega valor ao trabalho que eles fazem. Aplaudo de pé.

Só fica uma mágoa derradeira. Por que eles não reconhecem um cromossomo evidente do C&P no DNA do PdF? Os jornalistas e o público, mais jovens, eu até entendo. Não passavam de óvulos e espermatozoides quando nós aparecemos no pedaço. Mas o pessoal do PdF mamou muito na Casseta (e Planeta) do papai aqui.  Dá uma impressão que o humor no Brasil começou com eles. Isso parece discurso do Lula.

Mas hoje eu vou lá. Vou prestar minha homenagem aos rapazes e moças do Porta dos Fundos. Alguns não tão rapazes, algumas não tão moças.

E tenho dito.

E atenção! Hoje também não percam a grande vernissage do Alan Sieber, gaúcho passivo, cartunista, talento em estado xucro. Sieber, pela primeira vez, mostra suas telas, obra revolucionária e inquieta e de grande sentido estético! De fora para dentro. O que um cara não faz pra justificar que dá a bunda? Hoje, 8 de agosto, na rua Teixeira de Mello (ui !!!) 31, a partir das 19 horas. Fica em Ipanema, na Praça General Osório. Todos lá!!!!

11 Comentários

  1. César H.   •  

    Muito bom o texto, mais uma vez!

    Parabéns!

    (Só me incomoda um pouco esses espaçamentos nas vírgulas ou os “dois espaços” entre uma palavra e outra que às vezes surgem. ehehehe Mas tudo bem, minha mãe também faz dessas. Se precisar de ajuda, tamos aí)

    Abraços

  2. Elisa   •  

    Gostei muito. E muito bem escrito, como sempre.

  3. Sonia   •  

    Fico orgulhosa ao lembrar que fui a primeira a patrocinar a “Casseta”, com anúncios nos rodapés de alguns jornais quando gerente de Relações Públicas da Coca-Cola. Reconhecia o valor daquele humor renovador. Usava como argumento para alguns gerentes de Marketing e outras áreas que não concordavam comigo (tinha sempre que argumentar) que aquilo era novo, que os jovens estavam adorando e o jovem era o público alvo da Coca-Cola. Parabéns a vocês da Casseta/TV Pirata/Casseta Planeta.

  4. Cristiana Mariani   •  

    Eu acho óbvia a influencia do C&P no PdF e digo mais, o PdF é o novo C&P.
    Ótimo texto!

  5. Ester Jablonski   •  

    Marcelo falando sério também é bom demais… E quanto ao não reconhecimento cromossomial, esta é uma doença nacional, todos querem ser os primeiros, originais, únicos, parece que somos todos filhos de chocadeira! Mas o que importa mesmo é deixar a marca, e que as sigam os bons…Cada um sabe o que faz.

  6. Joao Pitella Junior   •  

    Belíssimo texto, Marcelo Mendes Pedreira! Eu sempre repito a história da “empregada do Chico Anysio” pro pessoal que não tem referências culturais suficientes pra entender a importância do C&P. Vocês vão ser os melhores, sempre. Abração!

  7. Marcio Barretto   •  

    …pois sabe que eu acho que o Marcelo falando sério é ainda melhor do que o “seu” Casseta…estou incorporando o hábito de passar todos os dias por aqui, e está valendo…

  8. Luis Fernando Reis   •  

    Sou do tempo em que se vendiam as camisetas do “casseta Shopping”, … que hoje o Panico “chupa” descaradamente a idéia. Macaco Também é Gente, … Tião presidente.,,,,, ê povinho Bunda ! Chega de Mato Queimado!…. Bons tempos

  9. CLAUDIO GARMATTER   •  

    Realmente Marcelo, pra quem conheceu desde criança esta “figura”, o PDF é uma espécie de “dejavu” do Casseta.

  10. Eduardo   •  

    Saudade da época em que o Casseta e Planeta corajosamente fazia chacota dos políticos sem-vergonha desse país, em rede aberta. Parabéns a todos vocês do C & P. Espero que um dia vocês voltem pra tocar na ferida desses safados que estão no poder. Vocês fazem falta.

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