BENZETACIL

marcelo destaque 2

Desde cedo aprendi que viver é “tomar na bunda”. Calma, eu posso explicar tudo. Lá pelos cinco anos de idade fui acometido de uma insidiosa moléstia chamada Reumatismo Infeccioso, maiores informações em http://drauziovarella.com.br/letras/f/febre-reumatica/. Obrigado, Dr.Drauzio. Nos acessos febris e dolorosos da doença, ficava de cama, em repouso, e a minha única distração era a leitura. Sim, eu já lia ou, em alguns casos, só via as figuras. Lembro que a minha febre só baixava quando a minha irmã mais velha vinha ao meu leito falar barbaridades engraçadas. Isso  comprova o efeito terapêutico do humor.

Mas vamos ao tratamento. Naquele tempo, início dos anos sessenta, a febre reumatoide era tratada com injeções de uma penicilina chamada Benzetacil. Você não tem ideia de como dói. Aliás, se você já tomou Benzetacil sabe do que eu estou falando. Quem já teve gonorreia (http://drauziovarella.com.br/letras/g/gonorreia-4/ – mais uma vez, obrigado, Dr. Drauzio), já tomou Benzetacil. Se você ainda não teve gonorreia, então pergunte à sua mãe. Procure saber, procure saber…

Mas voltando à Benzetacil, só para vocês terem uma ideia da coisa, vejam: http://www.youtube.com/watch?v=Un6CuDFPLzY. Agora imaginem isto numa criança indefesa de cinco anos. A Benzetacil vem numa caixa com duas ampolas. Numa vem o medicamento em pó, na outra vem um diluente. Você tira o diluente com a seringa e injeta o líquido na ampola do medicamento. Aí você sacode aquela ampola como se estivesse preparando um Toddy. Aquilo vira um mingau que volta para a seringa. Na verdade, está mais para cimento. É por isso que a “Benza” tem que ser aplicada bem rápido, senão endurece e entope a agulha que, aliás, tem que ser bem grossa. Benzetacil só se toma na bunda.

A dor é cavalar, eu tinha que voltar para casa no colo da minha mãe. Assim que chegávamos em casa, ela botava uma compressa no lugar da picada e, mesmo assim, eu ficava uns dois dias puxando da perna. Isso se dava a cada quinze ou vinte dias e durou anos a fio. A frequência que eu tomava a “marvada” variava com os resultados do exame de sangue, que eu fazia mensalmente. Eu vivia sendo furado. Por alguma questão que ainda eu não entendi, inventei um jogo perverso comigo mesmo. Eu não tomava conhecimento de quando viria a próxima injeção. O que determinava que aquele seria o dia fatídico era que, em vez da babá, era a minha mãe quem vinha me buscar na escola. Quando começava a perceber que já fazia tempo que tinha tomado a “última”, passava a viver um pequeno tormento todos os dias. Quando já estava perto da hora de tocar a sineta, pedia pra “fessora” para apontar o lápis ou ir na “casinha”. Era só um pretexto para  dar um espiada no portão do educandário e verificar quem havia ido me buscar. Se fosse a Tereza Lachman Kripovust (minha querida babá e segunda mãe), uma enorme sensação de alívio, redenção e alegria inundava a minha alma. Mas se fosse a D. Rosi, minha mãe de verdade, o meu destino já estava selado.

Aí começava a danação. Caminhávamos em silêncio resignado. Não trocávamos palavra. Mas sentia na mão da mãe a solidariedade no sofrimento do filho. Chegávamos na farmácia e, se tinha fila de espera,  prolongava-se o martírio. A mãe já trazia de casa o meu personal kit benzetacil (seringa e agulhas), devida e cuidadosamente esterilizados. Naquele tempo não havia seringas e agulhas descartáveis. Eram minutos que pareciam horas. Minha mãe sentava na cadeira e eu observava o “moço” da farmácia preparar a injeção. Não esqueço aquele cheiro de éter e a parede de azulejos brancos. Então, quando via o farmacêutico embeber o chumaço de algodão no álcool, sabia que a hora fatal havia chegado. Sempre em silêncio, deitava no colo da mãe e abaixava a calça. Mamãe me segurava firme ao mesmo tempo que me acariciava. Prosseguia a execução.  Passa-se o algodão úmido na região a ser perfurada. Ali, naquela hora, toda minha vida passava em segundos na minha cabeça. Em seguida, vinha a picada. A Benzetacil vinha penetrando quente e densa no músculo, uma dor paralisante repercutia pela perna. E o resto eram dor, trevas e silêncio.

Até hoje fico comovido ao lembrar como meus pais “sentiam” a minha dor. Incansáveis, pesquisavam aplicadores de injeção pela cidade. Achavam que um exímio profissional, expedito e com “mãos de fada” pudesse abreviar o meu sofrer. Depois da “dolorosa”, sempre ofereciam um presentinho. Uma revistinha, um pedaço de pizza, um doce, um brinquedo. Foi aí que eu ganhei o meu primeiro carrinho matchbox, uma mercedez cupê vinho que guardo até hoje, item fundamental da minha famosa coleção. Lá pelos treze anos de idade, vim para o Rio de Janeiro. Fui ao Instituto de Puericultura da então Universidade do Brasil, atual UFRJ. Procurava o Dr. Luiz Carlos Siqueira. Ele utilizava no tratamento da febre reumática uma espécie de vacina subcutânea, indolor, que vinha refrigerada do Japão. Meu pai conseguiu que a Varig, a nossa Varig, trouxesse as ampolas sem cobrar o frete.

Foi aí que eu fiquei bom. Quer dizer, bom eu nunca fiquei. Nenhum ser humano é bom. Nem totalmente mau. Leia a Hannah Arendt. Procure saber, procure saber…

E depois ainda me perguntam por que faço análise há 35 anos…

Nota: Soube que o Dr. Luiz Carlos Siqueira continua no Instituto de Puericultura da UFRJ exercendo a sua medicina. Ave! Ave! Evoé!

Tenho dito.

 

92
ao todo.

16 Comentários

  1. Elisa   •  

    Marcelo,
    Puxa, praticamente pude sentir a dor da injeção ao ler sua boa descrição da preparação da seringa, da dolorosa aplicação e da angústia das horas que a precediam.
    Imagino que não deve ter sido muito fácil para você reviver estas sensações da infância, ainda que longínqua, colocando-as no papel, digo, no blog.

  2. Sonia   •  

    E eu achava que havia sofrido a mais terrível das torturas quando criança: tomar óleo de fígado de bacalhau…

    • Marcelo Madureira   •     Author

      Queridos Sonia e Trigg where are you both now ?
      Love

  3. Renato   •  

    Grande Marcelo! E nem sabia que tínhamos isto em comum. No meu caso não era algo tão grave, mas eram crises de sinusite, tratadas com a mesma Benzetacyl. O mesmo caminho até a farmácia, o temor da agulha entupir, e o presentinho no final… Grande abraço!

  4. Andressa   •  

    Tomei uma hoje 33 anos. .. q ruim deve ter sido pra vc em ta doido

  5. Natália   •  

    Tomei minha primeira e “última” benzeta aos 36 anos…. só de lembrar sinto a dor. Sinceramente, depois da trevosa, a amigdalite me pareceu o menor dos males que pode acometer um ser humano, mais o pior foi a sensação de que estava paraplégica depois de ter a maligna introduzida em meu pequeno e magro glúteo. Deus é mais! Que venha a amigdalite, sai de retro benzetacil!!

  6. Carla   •  

    Lendo seu depoimento, identifiquei-me totalmente, pois também tive febre reumatoide, descoberta a partir dos 6 anos de idade. Tomei injeção de benzetacil, no início semanalmente, e depois, mensalmente. A dor era horrível, ficava uma semana com dor, e os sábados eram os piores dias, pois era dia de ir na farmácia tomar injeção. Felizmente essa tortura acabou aos 10 anos de idade.

  7. marcia   •  

    Chorei…pois sou mae de um menino de 8 anos, que toma a um ano e vai ate os 18….nao é nada facil…choro as vezes escondida , mas na hora H fico forte pois sei que é praticamente obrigatorio esse tratamento. Vou tentar encontrar esse medico.Nada é mais triste do que ver seu filho passar por isso e nao podermos fazer nada…

  8. ruandês   •  

    Existem casos e casos, particularmente quando tomo benzetacil no mesmo dia a dor some e se ficar um pouco foi so na hora de deitar, porem sempre que pego gripe e fico com dor de garganta eu sempre peço para o medico passar benzetacil para a dor passar rápido. Pra mim nunca foi ( so quando era criancinha ) tão ruim assim tomar uma benzetacil de leve. Hehe

  9. tafmg2015   •  

    É Marcelo. É triste, mas minha filhinha com menos de 3 anos teve que tomar várias destas (Benzetacil). Excelente blog, parabéns…Eu e minha esposa, passamos um período bem estressante com as 2 cirurgias de nossa filhinha com menos de 3 anos. Várias amigdalites e várias injeções e Benzetacil…Uma adenoidectomia com 2 anos e meio e uma amigdalotomia 5 meses depois. Acho importante passarmos nossa experiencia a outras pessoas que possam estar passando pelo mesmo. Nossa experiência, inclusive com alguns videos, está no endereço:
    http://www.amigdalaseadenoides.blogspot.com.br/ ou
    https://adenoideseamigdalas.wordpress.com/

  10. Fabio   •  

    Tá explicado porque hoje em dia é reaça. Infância difícil. Tá perdoado.

  11. Alexandre   •  

    Marcelo Madureira, grande humorista e pessoa humana. Legal, esse relato das suas desventuras com o benzetacil. Cheguei a ele porque estou encarando uma dieta de 15 doses disso, para acabar com a mesma coisa que lhe acometeu: febre reumática. Aí, fiquei passeando pela rede virtual e acabei lendo sobre sua própria experiência, quando criança, com o Streptoccocus. A diferença, com relação a mim, é que tenho 55 anos. O Streptoccocus deve ter invadido o meu organismo lá na adolescência, ainda, achou um nicho onde se acomodou e ficou lá, tipo petista, mamando no meu líquido sinovial. Só agora (2016) o exame de sangue acusou a presença dessa coisa na minha coluna, depois de eu haver sofrido o diabo com dores lombares, por uns dez longos anos. Depois de quatro doses de benzetacil o foco da dor desapareceu. Vamos ver se depois de terminada a série de vacinas eu realmente terei me livrado daquela praga. Quanto ao seu próprio relato, quem o lê fica tão impressionado com o seu sofrimento, com o benzetacil (o que é natural), que poderá achar que febre reumática é um troço benigno. Olha, eu lhe digo: não é. É uma … (não acho a palavra.)

  12. Alex   •  

    Eu chorei de rir , porque toda vez que fui tomar Benzetacil sentia o mesmo medo haha.

  13. Pj   •  

    Hoje em dia tem a preparação de bezetacil com xilocaina, que é justamente para amenizar a dor, mas tem que ser prescrita pelo médico. Eu embora não tenha tomado a bezetacil desse jeito não senti tanta dor, mas fiquei muito nervoso e tomei duas doses no mesmo dia. PS minha banda ficou dolorida no local da aplicação, mas fazer compressa duas água morna ajudar.

  14. Lucas   •  

    A bezentacil cura gonorréia?

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