NO CAMINHO DO FILÓSOFO

1-Templo-Kinkakuji-Kyoto-Japao

Uma experiência curiosa da viagem para o Japão é que, subitamente, se volta a ser analfabeto. De pai e mãe. Como é deplorável a situação de não poder ler, não compreender as placas, olhar os jornais, os livros e não se ter a menor ideia do que se trata. Quem pode, hoje em dia, conseguir alguma coisa sem esse pressuposto básico da educação? Só o Lula.

Agora estou em Kioto. Parece que estou em Salvador, na Bahia. Não pela quantidade de afrodescendentes retintos andando pelas ruas, nem tampouco pelas baianas vendendo acarajé que, aqui em Kioto, são bem raras. Mas em compensação, a quantidade de templos religiosos se equivale à da capital da Bahia. A única diferença é que, em vez de católicos, são xintoístas.

Resolvi visitar o Templo Ginkakuji, que fica meio afastado do centro da cidade. Para tanto, teria que tomar um ônibus, um coletivo público. Imaginei que pegar um ônibus no Japão seria uma quimera, uma tarefa impossível. Ledo e ivo engano. Pegar um ônibus na Terra do Sol Nascente é muito fácil. Para começar que o buzun passa no ponto na hora e minutos exatos indicados na placa.  Quando o coletivo chega e abre a porta, um mecanismo pneumático faz com que o bicho arreie e dê uma leve cambada na direção da calçada, tudo para facilitar o embarque. Dentro do veículo, um sistema de áudio e vídeo anuncia as estações do caminho, além de dar algumas informações adicionais do trajeto. Em japonês e inglês. Sem dúvida nenhuma o Japão está mais do que preparado para a Copa de 2014.

Já na periferia de Kioto, verifiquei que chegara na estação mais perto do Templo e saltei fora do coletivo. Paga-se na saída, numa maquininha ao lado do motorista. A maquininha cobra e faz o troco. Não tem trocador, muito menos fiscal. Ninguém salta sem pagar. O motorista, que não dirige o ônibus como se fosse um kart, cumprimenta educado cada passageiro e agradece. Parece que eu estou no Rio de Janeiro!

O ônibus parte e, de repente, me vejo em Parada de Lucas de Kioto, sem saber para que lado caminhar. Não havia viva alma. Aliás, havia, distante uns cinquenta metros, um humilde jardineiro que podava uma cerca viva. Era a minha única alternativa, o que fazer? Embiquei na direção do moço tentando juntar todo o meu conhecimento do idioma japonês acumulado em 41 anos de judô:

– Dozo! Shimassen! Ginkakuji?  – indaguei aflito.

O jardineiro largou o tesourão, enxugou o suor da testa, olhou na minha cara e perguntou:

– Do you speak english ?

O jardineiro não só falava inglês perfeito como entabulou uma conversa querendo saber o que um brasileiro fazia por ali. Me explicou a direção a seguir, inclusive me dando a dica de pegar o Caminho do Filósofo, uma linda alameda, paralela a um canal que desemboca na rua do Templo. Um simples jardineiro!

A Educação no Japão é um negócio muito sério. O grande salto se deu na era Meiji (1868-1912), quando “a elite japonesa” se deu conta que Educação era uma questão nacional, pois a riqueza e o poder da Nação seriam prejudicados se as pessoas comuns fossem iletradas. Isto está escrito num edito de 1872 que vale até hoje. Deu no que deu. Só pode ter sido uma ideia do José Sarney.

Tenho dito.

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ao todo.

2 Comentários

  1. Gilberto   •  

    Prezado. Eh para se sentir pior que analfabeto. Afinal de contas, o analfabeto nao le nem escreve mas fala.

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