Melancolia

Sentados na sala de espera do Santos Dumont, aguardamos. Eu e a minha melancolia.

Tenho andado jururu ultimamente. Os últimos cinquenta anos, para ser mais exato. Ficar melancólico hoje em dia é quase proibido, as pessoas só “saem da depressão” no Castelo de  Caras. É a ditadura da felicidade. Tem que ser feliz, mesmo  que não se queira. Ou não se possa. O primeiro equívoco está aí. Hoje confunde-se depressão, um estado patológico, com melancolia. Melancolia é um estado natural, passageiro e normal do ser humano.

Um sentimento estranho de Pra quê? Para onde? Por quê? Qual é, afinal, o sentido da vida? A sensação de que o tempo está passando. Em seguida vem o sabor amargo do não pertencimento e então… ficamos tristes.

Não se sabe ao certo as razões desta tristeza, quer dizer, no fundo se sabe, mas se a gente for lá no fundo investigar, tem medo de não voltar. Bobagem, sempre se volta. Afinal, se todos os dias fossem felizes, como é que se ia saber que, ao final de determinados dias, concluímos que, aquela, foi uma jornada feliz?

É claro que dezembro e o calor úmido do Rio de Janeiro também ajudam a minha melancolia. Detesto dezembro. Um mês que só tem três semanas, em que somos constrangidos a assumir um clima pseudofestivo de paz e harmonia entre os homens. E entre as  mulheres também, claro. E ainda existem as “festa da firma”, as confraternizações de Amigo Secreto (no Rio é Amigo Oculto), onde trocamos presentes e hipocrisias, e as intermináveis ceias em família.

Quando trabalhava no centro da cidade, na época de ocaso do ano, ficava no serviço até mais tarde. O telefone não tocava, e tinha menos gente enchendo o saco. No dia trinta e um, só meio expediente, era o último a sair do escritório caminhando distraído pelas ruas vazias, pisando o chão coberto de papel picado. Nos bares lotados as pessoas enchiam  a cara.

A vida é um átimo, um súbito intervalo, da eternidade que é a nossa inexistência. Não  fosse este breve espasmo, seríamos eternos em nossa não existência. Por isso mesmo concluo que a vida que temos, boa ou ruim, é o bem mais   precioso. Só o fato de se existir, mesmo que numa miserável aldeia subsaariana, é uma sorte danada, um feliz acaso da natureza.

Portanto, deve-se viver com a avareza de um usurário, com a sede de um náufrago e a curiosidade de uma criança. Sempre. Afinal, vida e mãe só tem uma. E a melancolia faz parte da vida.

Mas, nos tempos que correm, a melancolia é feia, gorda, velha, pobre e banguela. Desconfio até que a melancolia é de direita. É coisa de veado.

Ah! Uma última coisa, já ia me esquecendo: Deus não  existe.

E tenho dito.

PS: se você quer saber mais sobre MELANCOLIA  , não deixe de ler  “Saturno nos Trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil”, de Moacyr Scliar, Cia das Letras, 2003.

Tem na Livraria da Travessa.

18 Comentários

  1. Carlos Lopes   •  

    Só para alertar que no 4º parágrafo está escrito húmido ao invés de úmido.

    • Marcelo Madureira   •     Author

      É que eu praticamente só leio em inglês…desculpa , já foi consertado.

  2. Clara   •  

    Brain Storm quântico versus baixa de glicose

  3. Cristina Fialho   •  

    Já lhe disse que gosto dos seus posts. E esse não foge à regra. Muito ao contrário! Você conseguiu me surpreender novamente. Mas eu tenho uma curiosidade: por que terminar todos eles com “E tenho dito”? Se for uma tentativa de proteger seu texto e/ou você fazendo graça, confesso que para mim ela não funciona. Você escreve bem e ponto.

  4. Elisa   •  

    Marcelo, gostei muito do texto. Tenho algumas razões para estar triste no momento, mas acho que podem ser pretextos para uma melancolia maior, sem explicações concretas.

    • Marcelo Madureira   •     Author

      Elisa, vai passar, vai passar…

      • Elisa   •  

        Obrigada, Marcelo. E também dezembro vai passar. Um abraço afetuoso, Elisa

  5. Regis Criciúma   •  

    Certa vez me disseram uma frase que me marcou: “O homem tem um vazio dentro de si do tamanho de Deus! Enquanto ele for preenchido com vícios e maledicências, nada fará sentido.” E assim somos! se vc nao acredita no deus católico, acredite no deus criador de toda a natureza e de tudo que é belo. A fé é o que nos move!

  6. Adalberto   •  

    Marcelo, texto maravilhoso !!! Parabéns !!
    E tenho dito !

  7. Cesar Santa Ritta   •  

    Confesso que não conhecia seu lado poético e maduro (sem trocadalho ). Parabéns ganhou um tremendo fã e admirador. O Sergio Cortela que se cuide.

  8. Sancho Panza   •  

    “A Náusea” de Sartre não responde essa inquietação mas nos ajuda a perceber o quanto estamos certos em sentir essa melancolia. E não… Ela não passa. Apenas nos acostumamos a ela.

  9. Odete   •  

    É por isso que todo dia quando acordo, agradeço ao Wellbutrin, a venlafaxina e tantos outros amiguinhos que nos acompanham nessa jornada…

  10. Enoli Lara   •  

    Inspirado Marcelo Madureira, mentes brilhantes e celebradas como a sua, num país com 14 milhões de analfabetos e governados pelo flagelo da ignorância, melancolia é para poucos, pelo menos nos blinda e nos deixa imunizados ,quanto a exposição de outras fraquezas,que acometem os pusilânimes e venais. Sua fã ad infinitum! Bjs Enoli Lara

  11. Edith Sarmento Dutra   •  

    Deus não existe. Existem “deuses”…Papai Noel é um deles. Velho, obeso e com cara de bêbado chato. mas, Marcelo, vc espera o que do Humano? Algo criado por um deus cansado de criar tanta coisa (muitas inúteis, como diz a Emilia do Lobato) e criar o homem depois da mosca…façameumfavor….nunca ensinei minhas filhas a acreditar em Papai Noel, em santos, em deus, em pecado. Não ficaram loucas por causa disso. talvez por outras coisas…Algo havia criado esse mundo. E a minha resposta era: “não sei o que e nem quem foi. Quando vcs crescerem estudem pra saber, se quiserem”. Não quiseram saber e estão muito bem obrigada.até logo.

  12. Cínthia   •  

    Meu dezembro começou em outubro, junto com meu inferno astral, mas sei que em janeiro ele acaba.:-)

  13. Antunes   •  

    Marcelo, esse seu post me pegou de jeito.

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