COREIA DO NORTE, COREIA DA MORTE

É típico das ditaduras a hereditariedade no exercício do poder. Fidel Castro transferiu o poder ao seu irmão Raul, “Papa Doc” Duvalier, do Haiti, para o seu filho “Baby Doc”. Lenin, como não tinha filhos, ungiu Joseph Stalin seu sucessor, e por aí vai.

Na Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo, a transferência do mando por laços de sangue já alcança a terceira geração. Do fundador, Kim Il-sung, passando pelo filho Kim Jong-il e, agora, o neto Kim Jong-un, vão se revezando na condução da ditadura mais repressora, violenta, belicista e atrasada do mundo. Em pleno século 21.

Kim Jong-un já assumiu o poder mandando bala. Literalmente. Fuzilou o chefe das forças armadas com um tiro de morteiro. Isso mesmo, um tiro de morteiro, à queima-roupa. Em seguida, mandou matar a ex-namorada, e, semana passada, passou pelas armas seu tio, o General Jang Son-thaek, o segundo homem mais poderoso do país. Son-thaek foi preso no meio de uma reunião do partido, com direito a transmissão ao vivo pela TV. É assim que as coisas funcionam no estalinismo. E ainda tem gente no Brasil que aprecia este tipo de regime. Em pleno século 21.

Àqueles que quiserem ter uma ideia de como funciona a violência de estado em regimes de esquerda, recomendo a leitura de Stálin – A Corte do Czar Vermelho, de Simon Sebag Montefiore. O livro começa com o suicídio da primeira mulher do ditador. É de ler num fôlego só, mas tem que ter estômago.

Estive na Coreia do Norte em 2010, gravando um episódio da série Pacato Cidadão, que fiz para o Fantástico. Para conferir, é só clicar:

http://www.youtube.com/watch?v=fstcO3OB7bI

Entrei na Coreia disfarçado de turista. Quatro vezes por ano as autoridades da Coreia do Norte admitem turistas, que só podem viajar em grupo e através de duas agências inglesas autorizadas. Do aeroporto de Beijing  parte a única ligação aérea dos norte-coreanos com o resto do mundo. A grande maioria dos passageiros são homens de negócios chineses, funcionários do governo e nós, um alegre grupo de turistas, aliás, os únicos felizes com a ideia de viajar para Pyogyang, a capital do país.

Éramos umas vinte pessoas, a maioria ingleses, mas também australianos, franceses, americanos e eu, o brasileiro. Embarcamos num antiquado Tupolev, avião russo da década de 60, bem apropriado, pois ali, na verdade, começava uma viagem no tempo. Em duas horas e meia de viagem se anda uns cinquenta anos para trás. Logo que desembarcamos no aeroporto Kim Il-sun (na Coreia do Norte qualquer coisa que não se chama Kim Il-sun é porque se chama Kim Jon-il, seu filho), os nossos celulares são confiscados e só serão devolvidos quando deixarmos o país. Passamos então por uma revista rigorosa, foi um custo explicar para o guardinha que tipo de objeto era o meu Kindle. Ele simplesmente não conseguia acreditar que ali dentro poderiam caber até 2.500 livros. A conselho dos agentes de viagem, levávamos uns presentes para as autoridades locais: garrafas de uísque, cigarros e latarias. Ainda no aeroporto fomos apresentados aos nossos guias: um casal de meia idade, um motorista e um câmera man que filmaria toda nossa estadia. Só a mulher falava inglês, muito bem, por sinal.

Em seguida, embarcamos num micro-ônibus anos 50 e fomos para o hotel. Nas ruas, pouquíssimos automóveis. Às vezes passavam coletivos superlotados. Fazia frio de rachar e o silêncio dominava a paisagem. A cor da Coreia do Norte é cinza como o inverno.

Nosso hotel é o único 5 estrelas de Pyoyang. Desconfio se existe um outro hotel de qualquer categoria na cidade. Como tudo na Coreia do Norte, é estatal. Tem trinta andares, mas só  três são ocupados, tem uns dez elevadores, mas só dois funcionam.

No hotel, além das chaves nos quartos, recebemos instruções. A programação turística, organizada pelo governo, deveria ser seguida à risca. Quem não quisesse ou não pudesse acompanhar, teria  que ficar no hotel, dentro do quarto, que seria devidamente vigiado por um militar. Não se pode sair do hotel sem o guia, não se pode dirigir a palavra a ninguém que não sejam os guias. No hotel poderíamos encontrar tudo o que precisássemos. Havia três restaurantes à nossa disposição: O número 1, o número 2 e o número 3. Tinha loja de presentes, cabeleireiro, farmácia, uma boate e até uma “casa de massagem” para os solteiros. Eles deixam bem claro que as “massagistas” eram de Macau, ex-colônia portuguesa na China.

Os quartos são de uma pobreza franciscana, mas o hotel é 5 estrelas. O que mais impressiona é a escuridão da noite de Pyoyang. A Coreia do Norte tem graves problemas de energia, ainda mais no inverno, e economizar é mandatório. Ligo a televisão e morro de rir. Existem dois canais, claro, ambos da EBN da Coreia do Norte. Só passam propaganda política com elogios aos poderosos do partido. É lavagem cerebral direto, num volume de som incrivelmente alto acompanhado por marchas militares. Assisto um documentário sobre os avanços tecnológicos da Coreia do Norte.  A mensagem é que a Coreia do Norte é o melhor lugar para se viver e que todos as outras nações do planeta  invejam as condições de vida e o progresso norte-coreano.

Vamos jantar, os guias já escolheram para nós o restaurante número 1, inclusive o cardápio e as bebidas. Por incrível que pareça, a cerveja estatal não é ruim, mas a comida é quase intragável, os alimentos são de péssima qualidade. E isso deve ser o que eles têm de melhor para oferecer e, assim, impressionar os turistas. Não tenho nenhuma frescura com comida, mas o arroz tinha gosto de naftalina. Os ingleses, ótimos companheiros de viagem, acham tudo muito engraçado e sacaneiam o regime norte-coreano o tempo todo.

Nos outros dias fomos submetidos a uma intensa maratona de visitas a monumentos gigantescos, museus enormes sem calefação, tumbas de heróis do partido. Sempre uma variação sobre o mesmo tema, além, é claro, da permanente doutrinação ideológica. No terceiro dia viajamos até a fronteira com a Coreia do Sul, o último bastião da Guerra Fria. Da fronteira, aos gritos, tentei uma aproximação entre os dois países irmãos, em guerra até hoje. Foi em vão. Na parada do ônibus não havia banheiro. Fazer xixi durante uma  viagem deve ser considerada uma atitude pequeno burguesa.

Num dos dias, nos levaram, pela manhã, a uma enorme praça para apreciar uma multidão de crianças brincando. O problema é que elas não tinham com o que brincar. Um dos ingleses tinha levado um frisbee (até aquele momento não tinha a menor ideia do que o inglês pretendia com aquele  disco de plástico), e aí foi a festa. Mas, súbito, soam apitos, as crianças, disciplinadas, se organizaram em filas e foram embora. Aquela demonstração havia sido organizada exclusivamente para nós, os turistas. Participamos também de um baile público onde jovens dançavam ao som de músicas folclóricas, com letras de exaltação à recente automação de algumas unidades fabris. Juro.

Uma moça foi autorizada pelos guias a bailar comigo, mas só um pouquinho. Nenhum dos casais falam com os outros, muito menos entre si. Terminado o baile, as moças tiraram suas roupas típicas e foram embora. Era como se tivessem terminado o expediente numa repartição pública.

Mas o ponto alto da viagem foi a visita à múmia de Kim Il-sum, o fundador da Coreia do Norte. Como todos sabem, é um costume das ditaduras socialistas mumificar os seus líderes e exibi-los para visitação pública. Mas só depois que eles morrem. Meu objetivo é completar o Big Five: vi a múmia do Ho Chi Min, no Vietnã, Mao Tse Tung, em Beijing e Kim Il-sun, em Pyoyang. Agora só falta o Lenin em Moscou e o Fidel Castro em Havana. Eu chego lá.

Antes da visitação à múmia propriamente dita, tivemos que cumprir o ritual de depositar flores e prestar reverência à enorme estátua do grande líder no centro da cidade.  Só então fomos conduzidos ao mausoléu. Enfrentamos uma fila interminável, o lugar da tumba de Il-sun é gigantesco, e se percorrem intermináveis corredores e escadas rolantes até se entrar na câmara ardente. Não sem antes sermos submetidos a uma limpeza corporal com jatos de ar comprimido para tirar os germes e assim não contaminar  a múmia sagrada. Juro de novo. Em volta do caixão, onde Kim Il-sun dorme seu sono eterno, vários coreanos do norte caíam em pranto convulsivo, como se o Kim tivesse acabado de morrer naquele instante.

À noite, para sair do baixo astral, resolvi sacudir o esqueleto na boate do hotel. Não tinha ninguém. Fiquei dançando sozinho. Vendo aquela cena lamentável, os guias resolveram  levar o nosso grupo a um boliche. Para que pudéssemos jogar à vontade, segundo eles, o gigantesco boliche foi evacuado dos cidadãos locais, que abandonaram o local na mesma hora sem reclamar.

A sequência de eventos não acabava. Depois da visita entediante a uma exposição de flores, assistimos a uma demonstração de patinação no gelo, aliás, de ótima qualidade. No intervalo tentei me comunicar com alguns locais que estavam em volta, mas eles me ignoravam, era como se eu fosse um fantasma. Fugiam de mim apavorados. Tentei comprar um picolé, mas só consegui a guloseima depois que dei o dinheiro para a guia que, por sua vez, comprou do vendedor. Pode-se escolher picolé de qualquer sabor, desde que seja morango.

Nossos guias incluíram ainda uma vista ao metrô da capital, cujas estações servem de abrigo atômico. Nunca tinha visto escadas rolantes tão compridas. É claro que na Coreia do Norte não tem livraria, muito menos jornal. O que eles chamam de jornal são umas folhas de papel impressas que são penduradas nuns quadros de avisos e, é claro, que só tem propaganda do governo.

Um aspecto pitoresco de Pyoyang é que não existem semáforos. O trânsito é orientado por guardas, muito bonitinhas, que executam um delicada coreografia orientando um tráfego quase inexistente. Por último, visitamos um enorme bunker, a umas duas horas da capital, onde a família Kim guarda os presentes que recebe dos quatro cantos do mundo. Numa vitrine exibiam uma bola de futebol autografada pelo Pelé. Evidentemente o bunker também é mais um imenso abrigo atômico.

Terminada a nossa visita, fomos embarcados num trem com destino a Beijing. A viagem durou cerca de 36 horas, cruzamos praticamente todo o país, pobre e devastado. Depois que cruzamos a fronteira devolveram os nossos celulares, assim que liguei o aparelho recebi a notícia que seria avô do meu primeiro neto.

E tenho dito.

NOTA: se você quer saber mais sobre a Coreia do Norte, sugiro a leitura de Nada a invejar: vidas comuns na Coréia do Norte.
Barbara Demick
Cia das Letra
Tem na Livraria da Travessa

3 Comentários

  1. Hora!   •  

    Parabéns pelo texto. O sarcasmo pra abordar um local onde as informações chegam apenas por vias ideológicas, deixou o texto leve, interessante e ficará salvo entre minhas leituras preferidas.

  2. Elisa   •  

    Marcelo, que bom que você viaja muito e pode nos contar, de forma primorosa, o que acontece em outras partes do mundo. Em tempo: também gostei muito da sua série de posts sobre o Japão.

  3. Luisa Santo   •  

    Texto excelente. A tentativa de transformar todos em formigas não acaba aí.

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