É CARNAVAL EM BRASÍLIA

Atravesso o carnaval em Brasília. Meus sogros e cunhados moram aqui há muitos anos, pode-se dizer que são pioneiros da capital federal. Escondido em algum lugar do Lago Sul, cercado de livros, filmes e crianças, escuto ao longe os ecos da folia de Momo. Trancado no escritório, os sambas-enredos que vêm da televisão na sala perturbam a minha leitura. E pior, assim, ao longe, se parecem todos rigorosamente iguais.

Domingo de manhã, acordo cedo e pego o carro do sogro emprestado. Circulo por uma cidade deserta. Deserta e morta. Ou será moribunda? Passando em frente do Palácio do Planalto o meu sentimento é de melancolia e solidão. Dois Dragões da Independência fingem tomar conta de uma casa arrombada. O Palácio do Itamaraty, decadente, mostra o seu espelho d’água seco, parece uma teta cansada. O Congresso Nacional, com seus anexos, cresce feito uma favela. O Senado Federal, cujo orçamento é maior que o de muitas das grandes cidades brasileiras, é uma excrescência. Tem nutricionistas, engenheiros, gráficos, ascensoristas e uma milícia própria cujo salário inicial é de 18 mil reais.

Brasília não existe. Brasília é uma abstração. E visto daqui, do Planalto Central, o Brasil também é uma outra abstração. Brasília e o Brasil vivem uma contradição. Um não representa o outro.

Concluo que a construção de Brasília foi um imenso equívoco. Da construção de Brasília vieram as empreiteiras, o corporativismo dos funcionários públicos sem vocação, os gastos públicos descontrolados, as mordomias, a inflação, o patrimonialismo sem fronteiras. Não é à toa que Brasília tem a maior renda per capita do país.

Brasília me lembra também o caso Ana Lídia. Em setembro de 1973, uma menina de dez anos foi sequestrada, torturada, estuprada e morta. O caso nunca foi solucionado. Entre os principais suspeitos estavam Alfredo Buzaid Jr., o Buzaidinho, filho do então ministro da Justiça, Eduardo Ribeiro Rezende, filho do então líder da Arena (partido da situação), o senador Eurico Resende e, last but not least, Fernando Collor de Mello, à época com 24 anos. Collor de Mello é ex-presidente impichado e atual senador da República.

Brasília é a capital federal da impunidade.

E tenho dito.

4 Comentários

  1. wellington   •  

    cidade moribunda e cheia de rato.

  2. Aaron Spelzer   •  

    ‘É sempre carnaval em Brasília’
    Afinal, Dilma et caterva faz o povo brasileiro de palhaço o ano todo.

  3. Carlos Ibere Pozza   •  

    Os culpados do PT estar no poder há tanto tempo, são os laboratórios que fabricam laxantes. Qualquer resquício de cérebro, escoou pelo ralo da privada.

  4. Ernesto Barros   •  

    Se você faz parte daquele enorme contingente de eleitores que preferiu passear no dia da eleição, já deve ter percebido que o passeio custou muito caro. Vejamos: aumento de impostos, aumento na conta de luz, aumento da gasolina, diminuição de direitos trabalhistas, recessão. Tudo isso só para começar, pois Dilma, coração de pedra, ainda tem 46 meses pela frente para infernizar sua vida, caso consiga escapar do impeachment (Deus não permita). Conselho de amigo: da próxima vez, vote!

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