EMPURRANDO E ANDANDO

Deus é brasileiro! Aí jaz o corolário que encerra o grande equívoco da Nação. Ora, se Deus é brasileiro, o nosso sucesso (individual ou coletivo), o nosso futuro radiante de paz e prosperidade é destino manifesto. Não precisa nem levantar da cama, pois, mais dia menos dia, o milagre vai acontecer. E só esperar mais um pouquinho.

Então? Para que fazer força? Para que estudar, aprender ou trabalhar?

Ai, que preguiça… – já dizia Macunaíma, este, sim, o nosso grande Patriarca, fundador da brasilidade.

Que povo do mundo iria tolerar uma Dilma presidenta? Um cafajeste como o Lula (quase) ministro de Estado? Um Renan Calheiros presidente do Senado ou um Eduardo Cunha presidente do Congresso?

Mas por que somos assim? Como conseguimos viver nesta pasmaceira? Embotados no raciocínio, amarelos de sezão e barriga inchada de verminose, burrice e miséria.

Assim somos porque somos assim. Um povo inseguro. Um povo inseguro porque não existem instituições fortes. Um poder Executivo, um Legislativo e um Judiciário que atuem a serviço da coletividade.

Os poderes da República são clientelistas, nepotistas e patrimonialistas. O aparelho de Estado não é um bem público, mas propriedade privada, capitania hereditária.

O poder Judiciário, uma casta à parte, é venal e discricionário. Quem tem dinheiro tem a Lei.

Por isso tudo, só o dinheiro salva. Para ser considerado cidadão, o indivíduo tem que ter dinheiro. O dinheiro que traz saúde, educação, moradia, segurança e o que mais puder comprar. É por isso que eu digo que no Brasil existe preconceito, sim. Só que muito mais contundente do que o preconceito racial é o preconceito social.

Aliás, abre parênteses. Com essa política de cotas, quem for branco e pobre no Brasil é que está mesmo ferrado. Fecha parênteses.

O fato é que quanto menos dinheiro você tem, menos você existe neste país. Daí vem a insegurança, que, em maior ou menor grau, atinge a todos – eu disse todos os brasileiros.

É preciso ter dinheiro para existir enquanto um “ser social”.

No Brasil vale a Lei de Murici. Cada um trata de si. Em sequência do raciocínio, o importante é acumular renda. Não importa como, só importa quanto. Isso explica, pelo menos em parte, a corrupção que devasta a sociedade corroendo os nossos valores.

Que fique bem claro: isso não absolve um milímetro aqueles que se valem das negociatas para acumular seu cabedal. Muito pelo contrario.

Nenhum retrato é mais eloquente dessa afirmação do que, no carnaval carioca, a convivência em camarotes da Sapucaí, em perfeita harmonia e alegria, de bicheiros, empresários, traficantes, artistas, juízes, autoridades e, se bobear, até mesmo o cardeal arcebispo.

Eis aí nós, o povo brasileiro, esperto, malandro e inzoneiro, mas, no fundo e no raso, inseguro, medroso e ignorante.

O brasileiro sonha com o Estado Pai (ou Mãe) que garanta casa, comida e roupa lavada e estabilidade no emprego. Produtividade? Avaliação de desempenho?? Nem pensar! Isso é coisa de fascista. A parada é: direitos adquiridos, isonomias, biênios, quinquênios e licenças-prêmio. Todo mundo quer arrumar uma “bolsa”. Ser for pobre, qualquer “bolsa família” serve. A classe média sonha passar num concurso público parar arrumar uma sinecura, um cartório. Se for empresário, uma polpuda Bolsa BNDES já está de bom tamanho.

E o resto vai se empurrando com a barriga.

Ah! A procrastinação! O verdadeiro esporte nacional. O medo de encarar os problemas! O adiamento para se tomar decisões, escolhas que importam em sacrifícios são adiadas sine die. Sine die.

E assim chegamos onde estamos e de onde nunca saímos. No final tudo acaba dando certo; se ainda não deu certo, é porque ainda não é o final. O famoso jeitinho.

Afinal, Quod Erat Demonstrandum, Deus é brasileiro.

E tenho dito.

3 Comentários

  1. Jean   •  

    Muito foda o texto! Mas como mudar isto?

  2. Maurício Braga   •  

    Também gostei muito.

    Marcelo, precisamos de um governo de concertação com forças políticas moderadas para fazer avançar uma agenda de reformas.

    O PT e sua horda contam com o desgaste de um governo Temer para voltar em 2019 ou até inviabilizá-lo antes disso. Vamos pedir novas eleições presidenciais para o fim do ano. Precisamos de um governo com amplo respaldo popular para conseguir vencer as imensas dificuldades. Estou me referindo às dificuldades deixadas pelo PT e as que estão enraizadas e fazem parte da cultura do brasileiro.

  3. tania genial   •  

    EXCELENTE, CLARO, LIMPO……

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *