O Estupro e o “Estrupo”

O Brasil está chocado com o hediondo caso de estupro coletivo numa favela do Rio de Janeiro. Não é para menos e o fato terrível merece um exame detalhado. Demorei para escrever, pois fiquei um bocado de tempo pensando sobre este assunto.

Na minha opinião, este caso de violência é mais um sintoma, entre outros tantos, de uma sociedade doente.

Em primeiro lugar, infelizmente, estupros devem ocorrer aos milhares, no país todo. A diferença é que desta vez todo mundo viu nas redes sociais.

Por acaso, estou gravando um seriado. A locação é num hospital público semidesativado. É deprimente ver aquelas pobres pessoas, os pacientes, naquele lugar imundo e decadente, abandonadas e sem esperança. Está lá, no bairro de Cascadura, no Rio de Janeiro; não é no interior do Ceará.

A sociedade brasileira finge que não vê.

Mas voltando ao estupro.

Nós, brasileiros, temos um enorme problema em lidar com as “coisas do sexo”. Mais uma herança de nossos ancestrais ibéricos e católicos, em radical oposição à sexualidade liberal dos silvícolas nativos. Talvez seja essa enorme diferença a origem de nossas contradições. No carnaval, a nudez e a permissividade chegam aos seus extremos, mas, se uma mulher resolve tirar o sutiã na praia, pode até ser agredida pelos circundantes. Nos países nórdicos, ficar pelado pegando um sol de verão no parque ou fazendo uma sauna com os vizinhos é comportamento natural e livre de quaisquer segundas intenções. Homens, mulheres e crianças.

Aqui no Brasil também observo uma certa “forçada de barra” com relação ao despertar da sexualidade nas crianças. A psicanálise mostra com clareza que a criança vive internamente um poderoso processo de construção da sua sexualidade. Não convém aos adultos interferir nesse processo natural.

Mas por aqui a criança, ainda nas fraldas, é objeto da fantasia dos pais, estimulada a namorar, ainda que de forma platônica, os amiguinhos da pracinha. Pode parecer uma bobagem, mas não é. A coisa começa por aí e segue adiante. Me lembro quando minha filha tinha uns seis anos de idade e, numa festinha infantil, o animador propôs um concurso entre as crianças para ver quem era a mais hábil na coreografia da dança da “boquinha da garrafa”!!! Carla Perez e É o Tchan, lembram?

Não foi por acaso que num antigo episódio de “Os Simpsons”, em que a família faz uma viagem ao Brasil, a Maggie fica chocada ao ver na TV um programa infantil com a apresentadora e dançarinas rebolando seminuas, enquanto o Homer e o Bart assistem mesmerizados. Lembro que, à época, a sociedade brasileira repudiou o episódio por essa e outras observações agudas sobre o nosso comportamento peculiar. Quanta hipocrisia!

Não é à toa que nas favelas meninas pobres, aos treze anos, já são mães de família, mesmo porque a nossa sociedade moralista e ambígua repudia a educação sexual nas escolas públicas. Isso para não falar da pressão da Igreja em coibir a distribuição gratuita de anticoncepcionais pela rede pública de hospitais. Mesmo sendo o Brasil um país laico! Desnecessário lembrar que o aborto continua criminalizado com o apoio de parcela importante da população que ao mesmo tempo se sujeita a práticas abortivas clandestinas.

Vai entender o brasileiro…

Vejam bem: não sou a favor do aborto. Sou favorável à descriminalização do aborto. Abortar ou não é questão de foro íntimo.

Observo também o conteúdo agressivo e pornográfico das letras do funk. Não vai aí nenhuma crítica, é só uma constatação. Escutem um “Proibidão” qualquer e vejam se não tenho razão. É mais um sintoma de nossa “pobre juventude pobre”. O Funk é o nosso Punk.

Percebo que vivemos uma cultura da transgressão que vai de jogar papel no chão, fazer fila dupla na porta da escola, seguidos pelo estupro coletivo até o roubo de bilhões de dinheiro público. A transgressão é generalizada e, pior, tolerada. Para justificar, vem a argumentação conformista: “ora, mas todo mundo faz…” ou “sempre foi assim” até “todos os políticos são corruptos… “.

Não é, não. Ou, pelo menos, não é para ser assim. E se for, tem que deixar de ser. Já!

O primeiro passo para a gente se curar de uma enfermidade é nos reconhecermos doentes.

A Economia tem se ocupado de estudar a psicologia do comportamento dos agentes econômicos. Venho lendo alguma coisa sobre o assunto. O livro Rápido e Devagar – duas formas de pensar, do professor Daniel Kahneman, é uma boa introdução ao tema. Por seus estudos, Kahneman, que é psicólogo, ganhou o Nobel de Economia!

Um dos ramos desse vasto campo de estudo pesquisa o que leva uma pessoa a delinquir. Sobre isso, recomendo fortemente a leitura do texto “Corrupção e Capital Cívico” do André Lara Resende, que em resumo sugere: “… são os valores da comunidade que restringem, ou não, nossa propensão às práticas desonestas”. E mais: “A impressão de que a desonestidade impera ajuda a racionalização do comportamento desonesto. Se todos são, ninguém é”.

Em tempos de lulopetismo, o estupro começou pela língua portuguesa.

Eu sei, eu sei… Não deveria meter “coxinhas e petralhas” no assunto, mas, como sempre, meu sectarismo é sempre mais forte do que eu… Paciência…

O fato é que vivemos um momento da nossa história em que tudo desmorona ao redor. O PT, o PMDB, a economia, a saúde, a educação, a segurança, até a ciclovia…

Nos dias que correm, ninguém é capaz de adivinhar o que vai acontecer no Brasil nas próximas duas semanas. Quem disser que sabe é porque não está entendendo nada. O Brasil, terra do “faturo”, é um país sem Futuro.

E tenho dito.

1 comentário

  1. LUIS CLAUDIO AMARAL   •  

    Queria saber pq a JUSTIÇA não prendeu essa moça por porte ilegal de arma (exclusiva das forças armadas) e associação ao tráfico?
    Como ela é de menor deveria então ir para um centro de internação para menores infratores.
    O cantor Belo uma vez foi preso por ter tirado fotos com armas e associação ao tráfico tbm, e qual a diferença??

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