Escuta, Zé, não é bem assim…

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José Padilha é um tipo raro no Brasil. Consegue ser cineasta e intelectual ao mesmo tempo. Sou admirador dos seus escritos e da sua obra audiovisual. Domingo, 16 de outubro, Padilha escreveu um artigo chamado Ceticismo. (Clique aqui para ler)

No texto, Zé Padilha afirma que é “cético acerca das ciências sociais. Simplesmente não acredito que seja possível a formulação de uma estrutura teórica (marxista, keynesiana, hayekiana, ou seja lá qual for a sua preferência pessoal) capaz de explicar, mesmo que de forma rudimentar, os processos econômicos, quiçá os processos sociais em geral”.

E continua:

Além disso, as ciências sociais não dispõem de modelos teóricos que incorporem, ao mesmo tempo, variáveis políticas, econômicas, tecnológicas, geográficas, climáticas e culturais. E é óbvio que qualquer dessas variáveis pode alterar drasticamente a evolução de uma sociedade. Os processos sociais são, pura e simplesmente, complexos demais para serem modelados.

Raciocínios estes que eu, modestamente, discordo. Já se foi o tempo em que os cientistas sociais resumiam suas atividades a dar aulas e escrever livros. Hoje, as Ciências Sociais, graças aos avanços tecnológicos, têm à sua disposição um enorme arsenal de técnicas de análises quantitativas e um imenso banco de dados (via Big Data), que permitem diagnóstico, criação, implantação, gerenciamento e avaliação de políticas públicas tanto em termos micro, pontual, como em termos macro.

Na Economia, novas fronteiras de estudo vêm sendo abertas, propondo métodos originais para avaliação dos processos sociais, haja vista os trabalhos do Daniel Kahneman (psicólogo e Prêmio Nobel de Economia), Robert e Edward Skidelsky, Dan Ariely e André Lara Resende, só para citar alguns.

O problema, no meu entender, é a “ideologização” cotidiana e rasteira das Ciências Sociais, fato que o mesmo José Padilha reconhece em outro trecho do seu interessante artigo:

Os nossos formadores de opinião, quase todos socialistas ou neoliberais convictos, travam um debate estúpido a partir de posições ideológicas dicotômicas que, acreditam eles, explicam o Brasil e o mundo. Como se a esquerda e a direita radicais exaurissem todas as possíveis formulações teóricas das ciências sociais.

E ainda este trecho final com o qual concordo mais ainda:

Do ponto de vista socrático, de quem busca conhecer a própria ignorância, o debate político no Brasil se transformou em um festival inacreditável de besteiras gritadas em tom grandiloquente. O Brasil não precisa de neoliberais ou de socialistas simplórios, polarizados e convictos; o Brasil precisa de uma liderança racional e honesta.

E Zé Padilha e eu temos dito.

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ao todo.

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