TERRORISMO, ATENTADO E HISTERIA

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Uma das piores sequelas provocada por um atentado terrorista é a histeria. A histeria só leva ao pânico e o pânico leva a decisões e conclusões quase sempre equivocadas. Na verdade, disseminar a histeria e o pânico é o principal objetivo de qualquer atentado terrorista que se preza.

Vamos examinar rapidamente a tragédia de Nice no último 14 de julho.

Três possibilidades se apresentam e todas são, até agora, igualmente prováveis. A primeira é a de ter sido mesmo um ataque terrorista. A segunda é de ter sido um ato isolado provocado por um psicopata em crise e que, portanto, não pode ser responsabilizado por seus atos. Uma terceira hipótese seria um pacato cidadão, recém-abandonado pela mulher, suspenso no emprego por dormir ao volante e, portanto, deprimido. Em surto, o sujeito resolve promover uma tragédia talvez para diminuir a imensidão de sua tragédia pessoal e chamar a atenção para a sua pessoa. Ou seja, caímos no Buraco Negro dos mistérios incontroláveis, insondáveis e incompreensíveis da alma humana. Essa terceira possibilidade é justamente aquela que menos desejamos por ser justamente a mais aterradora.

Acontece que o indivíduo tem nome muçulmano e é franco-argelino. Pronto, a imprensa toda se encarrega de espalhar a histeria. Chega a ser patético os canais de notícias, em busca de audiência, ficarem horas e horas noticiando a mesma coisa ao mesmo tempo que especulam sobre o fato sem nenhuma evidência concreta.

Na verdade existe um desejo subjacente de que seja realmente um atentado terrorista uma vez que assim, voilá!,  fica tudo esclarecido e justificado. Mas não é, as armas no caminhão eram de plástico e o prototerrorista, pelo menos até agora, não tem nenhuma ligação com grupos radicais ou similares.

Quem ganha com isso? Os grupos terroristas, que no mínimo creditaram na sua conta mais um atentado e, melhor de tudo, grátis.

Vamos parar com esta histeria?

E tenho dito.

 

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BABÁS, MUCAMAS E MANIFESTAÇÕES

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Eu acho ridículo essas pessoas que vestem com uniformes brancos e imaculados suas babás e empregadas, que levam seus filhos para encontros sociais, passear na rua, frequentar clubes, enfim, qualquer lugar. Afinal, são são essas as oportunidades que temos para ficar próximos de nossos rebentos, nos relacionar com eles, pegá-los no colo, trocar a fralda, enfim, conviver com eles. Depois eles crescem e voam!

É triste ver uma mãe e/ou um pai caminhando na praia e o filho atrás, num carrinho, empurrado por uma babá. A sensação que me passa é que naquela família falta muita coisa. Principalmente afeto.

Mas isso é apenas uma impressão, de repente não é bem assim.

Não vejo nenhum problema em ser empregada(o) doméstica(o). Trata-se de uma forma digna de ganhar a vida, principalmente em sociedades como a nossa, em que pessoas de baixa renda quase não têm acesso à educação e, portando, são escassas as oportunidades de vencer na vida. Infelizmente, é assim no Brasil e não mudou nos últimos 13 anos.

Trabalhar como empregada(o) doméstica(o) é uma alternativa para pessoas pobres, independente de cor da pele.

A relação que temos com nossos empregados domésticos é muito peculiar. Alguns trabalham para uma mesma família por gerações, viram praticamente membros do clã, objetos de afeto, cuidados e respeito, além de terem os seus direitos empregatícios rigorosamente cumpridos: carteira assinada, férias, décimo terceiro, aposentadoria, etc.  No outro extremo, temos doméstica(o)s que são tratadas quase como objetos, descartáveis e sem que os patrões cumpram o que determina a CLT.

Quanto aos uniformes, me parece que depende do que ficar combinado no contrato de trabalho. A mim causa estranheza esses uniformes de “mucama”. O fato é que isso mostra de forma bem clara (com bastante trocadilho, fazendo o favor) a questão do preconceito no Brasil. Preconceito que não é só de natureza racial, é social também. E este é mais um assunto que a sociedade brasileira se recusa a enfrentar com a devida seriedade. Seriedade no bom sentido, que fique claro, sem demagogia e pieguice.

O casal da foto deve ter lá os seus motivos de ir à passeata e levar os filhos aos cuidados da babá uniformizada. A meu juízo, trata-se de um problema deles. Querer usar esta imagem para afirmar que as manifestações do dia 13 de março foram de uma “elite opressora” contra uma maioria oprimida é uma generalização babaca e oportunismo de quinta categoria. Por um simples motivo: a maioria, rica, pobre, classe média, estava toda na passeata. E protestando.

E tenho dito.

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ALTERNATIVO É POP – MARCELO MADUREIRA

Na segunda parte da entrevista, Marcelo Madureira conta como descobriu sua paixão por livros e Monty Python.

Sobre o programa: O Programa Alternativo é POP vem com a proposta de mostrar o conceito sobre “Cultura Alternativa” das ruas e no mundo corporativo, entre mídia alternativa, música, teatro, cinema, galerias, restaurantes entre outros. Buscamos fazer um programa que aborde todos esses temas de uma forma natural e dinâmica.

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Maratona da Un1dade

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Dias 29, 30 e 31 do mês passado foi ao ar minha entrevista pra União dos Defensores Apartidários da Democracia, a UN1DADE. As meninas vieram ao meu escritório aqui na Casseta e batemos um papo muito divertido sobre o cenário político atual, meu papel no humor brasileiro e muitas outras coisas que você só vai saber se parar pra ler ou ouvir.

Pra ler a primeira parte, CLIQUE AQUI.

Pra ler a segunda parte, CLIQUE AQUI.

E pra ler a terceira parte, CLIQUE AQUI.

Agora se você quiser ouvir tudo na íntegra, CLIQUE AQUI.

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DOENÇAS CARDÍACAS – CORDIAIS SAUDAÇÕES

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Como dizia o velho Moreira da Silva, o KID Moringueira: “Para se topar com uma encrenca basta andar distraído…”.
Pois, então, fazia o meu check-up anual, de rotina. A lista interminável de exames parece mais uma gincana escolar. Aliás, outra boa analogia com os tempos de colégio é a espera pelos resultados. À medida que se vai envelhecendo, aguardar o resultado de um exame de sangue contém a mesma ansiedade da espera pelas notas das provas bimestrais. Você estudou, fez boa prova, mas, lá no fundo, bem lá no fundo, existe aquela possibilidade de um resultado não muito agradável, um acidente de percurso. “Quem procura o que não perdeu, quando encontra não reconhece…” – essa é do Mestre Marçal, outro sambista do passado.
Eis que chega o dia da angiotomografia de coronárias. Trata-se de um exame muito simples: injeta-se um contraste na veia do paciente que, por sua vez é submetido ao scan do tomógrafo e…, voilá!, o seu “relógio”, ao vivo e a cores, pulsando e, o mais importante, uma visão geral das suas coronárias. As coronárias são as artérias responsáveis pela irrigação dos ventrículos, principalmente o esquerdo, que faz o bombeamento do sangue arterial (rico em oxigênio) para todos os recantos de sua anatomia. Um entupimento na coronária e… pimba!, tens um enfarto do miocárdio. Sem irrigação, uma parte do coração necrosa, apodrece e deixa de funcionar. Dependendo da extensão do estrago, a sua “bomba hidráulica” “deu ruim”, para por completo e lá se vai mais um para a Terra dos Pés Juntos. É isso mesmo, meus amigos: quem tem Fé vai ao encontro do Criador; para os ateus, como eu, é PT: perda total. Acabado o exame, me visto e o médico, meu xará, me chama na sala dos controles. Num monitor, imagens ainda pulsantes do meu coração.
– Está vendo aqui, seu Madureira? Temos uma obstrução importante na artéria descendente anterior…
Ou, como saiu no laudo: “artéria descendente anterior com placa extensa nos terços proximal e médio associada a lesões de grau moderado a importante envolvendo o primeiro ramo diagonal que apresenta lesão obstrutiva significativa em sua origem.”  A casa caiu. Enquanto isso o médico tentava me tranquilizar:
– Olha, não é caso de ponte de safena, mas você vai ter que ver isso…. Talvez seja o caso de colocar um stent.
Saí do laboratório em transe. Já me via a caminho do Nada Ignoto, mas antes liguei para o meu clínico, que, por sua vez, já havia recebido os exames. É assim a minha medicina: eu tenho um clínico que coordena as minhas decisões. O meu clínico me encaminhou para um cardiologista, que, depois de demorado exame, recomendou:
– O próximo passo é fazer uma cintilografia miocárdica de repouso e esforço. Só assim poderemos avaliar com segurança a extensão da lesão.
A cintilografia miocárdica é um pouco mais complicada. Desta vez injetam no paciente isótopos radioativos, que possibilitam uma avaliação mais acurada do tamanho do entupimento e suas consequências para o funcionamento do músculo cardíaco. Vejam bem, esses exames não são para serem feitos toda hora e somente com estrita indicação médica. Você aí, seu hipocondríaco, nem vá pensando em fazer esses exames por sua conta, envolvem risco e exposição a radiação.
E lá fui eu, mais uma vez, me submeter aos sofisticados equipamentos da medicina contemporânea. A diferença é que desta vez você é avaliado também depois de correr numa esteira por uns quinze minutos.
Resumo da ópera: para o azar de vocês, a minha obstrução não é tão grave assim. Posso fazer um tratamento clinico. Medicação, dieta, exercícios e (acreditem) menos estresse. Menos estresse? Vivendo no Brasil? Com o Lula, a Dilma, o Renan? Só me mudando para a Finlândia.

E tenho dito.

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Colonoscopia – Uma aventura lá onde o sol não bate

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Se você teme o exame de próstata é porque nunca fez uma colonoscopia. E um dia você vai ter que fazer, portanto recomendo a leitura atenta deste artigo.

Meu pai teve câncer de cólon e esse tipo de neoplasia (neoplasia é sinônimo de câncer, seus “inguinorante”) possui um forte componente genético. Por outro lado, e com trocadilho, os tumores localizados nesse reduto remoto de nossa anatomia apresentam um desenvolvimento lento. Assim sendo, exames preventivos regulares evitam surpresas desagradáveis e tratamentos dolorosos. Quando descoberto a tempo, o tumor de cólon é fácil de tratar e com enorme probabilidade de sucesso.

É por isso que faço colonoscopia regularmente, umas duas vezes por semana mais ou menos. Quer dizer, na verdade, a colonoscopia é igual à Copa do Mundo: ocorre de quatro em quatro anos. E nada como uma boa colonoscopia atrás da outra. E sempre com trocadilho.

Mas o(a) leitor(a) deve estar pensando: afinal, do que se trata a tal da colonoscopia?

A colonoscopia é uma espécie de exame de próstata, só que, além de ser unissex, é muito mais radical. E para quem gosta de esportes radicais nada como uma colonoscopia que, na verdade, é uma espécie de bungee jump, só que de fora para dentro e de baixo para cima.

Para ter uma visão ampla e detalhada do seu colón – cólon é a última porção do intestino grosso, seus “inguinorante”, uma espécie de estação rodoviária dos cocôs – o endoscopista introduz o colonoscópio dentro do âmago do seu “eu” mais profundo. E, como porta de entrada para tal procedimento, nada melhor que a porta de saída de sua pessoa, ou seja: o pavilhão reto-furicular.

O aparelho de colonoscopia possui uma haste longa, delgada (nem tanto…), mas bastante flexível. Na ponta, ou cabeçote, dessa haste fica acoplada uma microcâmera que, através de fibra ótica, transmite direto para um monitor, ao vivo e a cores, cada detalhe do seu intestino cheio de curvas. Se você tiver grana suficiente, pode contratar a narração do Galvão Bueno e os comentários do Casagrande e do Arnaldo César Coelho: a regra é clara e o intestino é escuro.

Resumindo: a colonoscopia é uma espécie de Roto Rooter, ou Tatu Americano (isso mesmo, com trocadilho) com fins preventivos.

Na verdade a colonoscopia é um evento na vida de qualquer pessoa. A primeira colonoscopia você nunca esquece… E tal e qual o peru, o(a) colonoscopado(a) “morre de véspera”. Tudo começa com o famoso “preparo”, ou “preliminares”, como preferem alguns aficionados.

É necessária uma preparação adequada do duto intestinal, afinal ninguém vai mostrar uma das partes mais íntimas do seu organismo sem fazer uma boa faxina antes. Mesmo porque a matéria fecal é o objeto mais comum encontrado nesta área. Quer dizer, com exceção dos sodomitas, que gostam de praticar o trânsito intestinal na contramão.

Como ia dizendo, o bolo fecal impede o exame acurado da mucosa intestinal. Para tanto, além de observar de véspera uma dieta rigorosa baseada em macarrão “cabelinho de anjo” e ovo cozido, deve-se beber líquidos, muitos líquidos. Líquidos em abundância e com trocadilho. Mas nada de álcool, nem aspirina, que é para evitar sangramentos durante o procedimento.

Isto posto, com mais trocadilho ainda, ainda de véspera, cai bem a ingestão de dois comprimidos de laxante, que é para dar início aos trabalhos.

Na manhã seguinte, bem cedinho, sigo para o hospital. Pelo menos assim manda o protocolo do meu colonoscopista, por sinal o melhor do Rio de Janeiro. Um médico experiente, carinhoso e muito respeitador.

Logo que se dá entrada (isso mesmo, mais trocadilho) no nosocômio, a enfermeira já manda tirar a roupa. Toda. Em seguida, manda vestir aquele ridículo avental hospitalar, aquele em que a sua bunda fica de fora. Isso é para mostrar quem é que manda ali no pedaço e que você não passa de um ser insignificante no meio do Universo.

Com você envergando aquele figurino desmoralizante, abrem o prontuário, medem a pressão arterial, temperatura basal e, em seguida, já vão colocando no soro. Afinal, você vai desidratar, ora se vai…

Então você, que já está em jejum de doze horas, é gentilmente convidado a beber um litro de malatol. São cinco copos em intervalos de cinco minutos entre cada um. Enquanto isso é aconselhado a ficar circulando pelo quarto, puxando aquele carrinho de soro. Isso é para facilitar o efeito do medicamento e estimular os movimentos peristálticos (vão procurar no dicionário, seus “inguinorante”).

O malatol é um poderoso laxante e, ao final do último copo, você já sente o seu efeito devastador.

Evacuar! O corneteiro intestinal sopra o toque de retirada e a “tropa” debanda em desabalada carreira.

O vivente passa a sentar no trono com mais frequência que a Rainha da Inglaterra. Entre cólicas avassaladoras, passa a recorrer ao vaso sanitário por onde vai se esvaindo tudo aquilo que existe dentro de cada um. Tem que se tomar muito cuidado, pois, em alguns casos, se perde até a alma. O pior de tudo é que, a cada vez que se vai ao toalete, é um problema realizar a mais elementar higiene local com a agulha espetada no braço, o soro pendurado no porta-frasco com rodinhas e aquela camisola ridícula, tudo junto e misturado.

Mais um detalhe importante: é rigorosamente proibido tocar a descarga da retrete. A cada rodada da série B do Brasileirão você tem que chamar a enfermeira, que examina o produto de seu esforço e, antes de tocar a descarga, faz alguns comentários jocosos sobre a sua obra e lhe dirige palavras encorajadoras. Continue assim, meu filho…

Lá pelo meio-dia, já exausto e bem assado, a enfermeira se dá por satisfeita. O que sai do seu intestino é uma água mais limpa que a que sai da torneira da pia. Neste momento quem adentra o quarto é a simpática anestesista para examinar o prontuário e dois dedos de “palavra amiga”.

É chegado o grande o momento. O seu momento! A maca cirúrgica vem ao seu aposento e, em cortejo solene, você é conduzido ao centro cirúrgico onde vai se dar o ato, o motivo e a razão de todo aquele sacrifício, aquele calvário em que em vez de pendurado na cruz você é entronizado no vaso sanitário.

Depois de tanto sofrimento vem a redenção. O médico colonoscopista já está a postos, pronto para dar inicio ao tão esperado exame. Carinhosamente o médico sugere que você deite de lado e contraia as pernas, quase em posição fetal. Se você tem ainda alguma fé, é o momento de entregar a Deus o que resta de honra e dignidade. Devidamente monitorado, a anestesista engata uma prosa qualquer com você enquanto injeta um coquetel de sedativos associados a um poderoso analgésico.

Fade out. Black out total. Boa noite, Cinderela!

Depois de uns quarenta minutos você é acordado. Tudo correu conforme o esperado. Nenhum pólipo, cólon nota dez. E o melhor: com atestado de Prega Rainha intacta, zero bala. Na contramão só o colonoscópio.

Você vai passar ainda alguma horas sob efeito dos sedativos. É uma onda legal, uma espécie de Woodstock sem ter que ouvir música. Aos poucos vai passando.

Não convém dirigir, você ainda está drogado, mas, mesmo assim, já dão alta. Você veste a sua roupa e vai saindo pelos corredores do hospital. A sensação é de que uma enorme seta de neon pisca em cima de você com os dizeres: “Fez colonoscopia”. Por onde se passa são piscadelas, sorrisinhos cúmplices, fungadas e gargalhadas gerais…

Em alguns casos, no dia seguinte, o médico manda flores e convida para um cineminha e uma pizza depois. Em outros, alguns esculápios tatuam dizeres espirituosos nas nádegas do paciente do tipo: “devagar, amaciando”. Quem já fez retifica de motor sabe do que estou falando.

Bom, se um dia colonoscopia virar filme, o título certamente será: Eu sei o que fizeram no seu rabo no verão passado…

(Este artigo de Marcelo Madureira foi publicado no The New England Journal of Medicine)

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