AGAMENON FAZ 90 ANOS

Agamenon

O jornal O Globo completa 90 anos de existência. Parabéns!

Durante 25 anos, ininterruptamente, Hubert e eu publicamos a coluna humorística do Agamenon Mendes Pedreira. Portanto, participamos de 28% da vida do jornal. Sem nenhuma modéstia, a coluna do Agamenon era leitura obrigatória aos domingos, sem contar as coberturas especiais nas Copas do Mundo, Olimpíadas etc, quando eram diárias.

A coluna do Agamenon foi criada em resposta a um convite dos queridos e saudosos Sonia Biondo e Evandro Carlos de Andrade.

Um belo dia, em maio de 2013, fomos convocados à redação e sumariamente demitidos por um bedel da direção. O diretor do jornal (cujo nome não merece ser mencionado) sequer teve a hombridade de nos demitir pessoalmente. Só depois, e por “sugestão” de nosso amigo, o jornalista Merval Pereira, nos recebeu para confirmar a decisão. Acolitando, uma dessas “executivas-modernas-competentes” tão em voga em tempos de Dilma, que também não teve a dignidade de ficar cinco minutos na sala. A desculpa, esfarraparada, para a interrupção da coluna era que eles iriam “modernizar” o jornal. É o que estamos vendo.

Como indenização para tão súbita e violenta decisão, nada além do contrato. Nem um relógio fuleiro para celebrar a efeméride. Vale lembrar que durante mais de 15 anos não tínhamos com O Globo nem uma folha de papel assinado. Era tudo no fio do bigode. Outros tempos, outros homens.

A ideia inicial do “genial homem de imprensa” era interromper a publicação imediatamente. Fizemos ver aos “sábios da redação” que tal medida não levava os leitores em consideração. Sugerimos inventar uma história para o afastamento do Agamenon.

Vida que segue, fomos carinhosamente acolhidos pela Veja para cobrir a Copa do Mundo de 2014 e hoje, em respeito aos nossos “17 leitores e meio, não esqueçam do anão”, continuamos publicando o Agamenon religiosamente todas as quintas-feiras no site da Casseta e no site O Antagonista, do Diogo Mainardi. Para isso não recebemos nada, rigorosamente nada. Isso se chama compromisso com o leitor e dignidade. Muito me orgulho.

O Globo faz 90 anos e não faz nenhuma menção à coluna do Agamenon. Uma espécie de Pravda tupiniquim deslocado no tempo e no espaço.

É claro que o meu coração ”é um pote até aqui de mágoa”, mas eu entendo. Se o Evandro e o Dr. Roberto Marinho estivessem vivos, isso não teria acontecido. São outros tempos, outros homens…

Este artigo é de minha total responsabilidade. Meu amigo, sócio e parceiro Hubert não tem nada a ver com isso. Peço que as Luparas da vendeta sejam apontadas diretamente para minha pessoa.

E tenho dito.

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VEJA Recomenda: A loucura russa (de novo) e a política de Taiguara

Com a presença do colunista Marcelo Madureira, esta edição do programa discute livros dos russos Isaac Babel, Vladimir Nabokov e Daniil Kharms, os romances “Stoner” do americano John Williams, e “A Segunda Pátria”, de Miguel Sanchez Neto, e a biografia do compositor Taiguara. E mandamos para o sebo os poemas do mensaleiro João Paulo Cunha, sem apelação. Clique na imagem para assistir.
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BARBARA HELIODORA, UM NECROLÓGIO

Laerte

Acaba de falecer a grande ensaísta e a maior autoridade em Shakespeare de todos os tempos: Barbara Heliodora. Mas Barbara, além de brilhante intelectual, ficou conhecida como implacável crítica de teatro. Com conhecimento de causa, diga-se de passagem. Seus artigos demolidores eram capazes de reduzir a pó qualquer produção que não estivesse dentro dos padrões rigorosos da jornalista.

Barbara foi uma personagem polêmica no mundo da dramaturgia. Reverenciada e odiada, mas sobretudo temida, a publicação de suas análises era esperada com mais frio na barriga por atores e diretores do que a estreia propriamente dita. Em derradeiro artigo, Barbara fez questão de escrever ela mesma uma crítica do seu passamento e velório. Artigo este que tive a honra de psicografar mediunicamente e que agora publico com exclusividade:

“A MORTE E A MORTE DE BARBARA HELIODORA

O tema da Morte, desde os tempos do teatro grego clássico, vem sendo explorado em suas diferentes formas e abrangências. Ésquilo, Sófocles, Shakespeare, Molière, Ibsen e até Gugu Olimecha utilizaram-se dessa temática, mas, até hoje, não se extinguiram todas as possibilidades cênicas que a Morte representa.

A súbita montagem de “A Morte e a Morte de Barbara Heliodora”, com a direção de Gerald Thomas (ele, sempre ele), acaba naufragando nos lugares-comuns e soluções dramáticas simplistas que o tema morte suscita, resultando em pura e reles apelação demagógica dramatúrgica. Na frágil carpintaria teatral concebida por Gerald Thomas (ele, sempre ele) falta páthos, dramaticidade e conflito. A personagem, única e principal, vai em busca de sua húbris, que, por falhas gritantes de texto e direção, acaba encontrando a sua nêmesis. Mais uma vez o raso, vago e melancólico “teatro do absurdo”… É necessário que a direção lance mão de um redundante e canhestro “Deus ex machina”, no caso o coveiro, para se dar um fim à trama mais do que banal. Ao final da peça, o público não sabe se assistiu a uma tragédia ou uma comédia.

O elenco faz o que pode para salvar (se é que existe algo a ser salvo) o espetáculo. A protagonista, que sempre abominou o gênero teatral do monólogo, entrou muda e saiu calada. Com uma ressalva: o único momento cênico salvável da peça em que, empunhando uma caveira, faz uma referência (e reverência) a Shakespeare no clássico solilóquio de Hamlet “Ser ou não ser”. No caso, “não ser”.

O cenário do carnavalesco Paulo Barros é um ponto salvável do espetáculo. Barros, que sempre lança mão de efeitos especiais, surpreende a plateia quando a morta, no caso eu, se levanta do caixão. É a carnavalização da tragédia. A iluminação de Maneco Quinderé é adequada, porém pouco criativa, chegando a esbarrar no óbvio no uso exagerado de tocheiros, velas e eças. O figurino, preparado adrede por Kalma Murtinho, é sóbrio e adequado ao perfil da protagonista. O visagismo e a maquiagem de Vavá Torres, discretos como pede o tema do espetáculo, deixaram a protagonista com aspecto bem-conservado. Outro ponto digno de nota é o coro das carpideiras, outra referência ao teatro clássico grego, formado por Fernanda Montenegro, Marília Pêra e Nathalia Timberg.

Ao final do espetáculo o público foi efusivo e generoso nos aplausos. Mas não voltei para o bis.

A Morte e a Morte de Barbara Heliodora tem o apoio da Petrobras, BNDES e da Caixa Econômica Federal através da Lei Rouanet de incentivo a cultura.

Apoio cultural de: A Camélia Flores (Obrigada, Álvaro!), do restaurante A Fiorentina e da Termas Centaurus (neste caso não entendi até agora qual foi o tipo de permuta.) Em curtíssima temporada (somente hoje) no Teatro do Caju.

Entrada Franca.”

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Chico “Buraque” Comete Mais Um Livro

lula_chico

Chico “Buraque” lança mais um livro. Na certa, vai para a lista dos mais vendidos (com trocadilho, por favor). Trata-se de uma semibiografia realista em que conta a história da busca pelo seu meio-irmão alemão. Ativo defensor do controle de conteúdo em escritos biográficos, será que o Chico pediu permissão, submeteu ao crivo e pagou direitos aos seus parentes na Alemanha? Seria, no mínimo, coerente. Mas logo aviso que não vou ler esta ingrisia. Admiro a obra do Chico compositor, mas como literato, em sensaboria ganha até do Josué Montello que, pelo menos, escreveu Os Tambores de São Luís. Pretensioso, pseudoerudito, chato e pedante: Chico Buraque é o meu candidato para a Academia Brasileira de Letras.

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Cantinho do Pensamento. Dicas de livros #01

A partir de maio, sempre na primeira segunda-feira do mês, você poderá assistir as dicas de leitura do Marcelo Madureira aqui no blog.

Este mês os livros indicados são:

Capa

Minhas lembranças de Leminski
Autor: Domingos Pellegrini
http://casseta.me/1j3s2p0

capaComplacência
Autores: Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman
http://casseta.me/RlLbaS

livro homemO Homem que Amava os Cachorros
Autor: Leonardo Padura
http://casseta.me/RlLfr4

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O HOMEM QUE VEIO DO FRIO

esquimo

Faz calor. Faz um calor infernal no Rio de Janeiro. Já ao nascer do sol, contemplo, apavorado, o horizonte alaranjado avisando que vamos ter mais um dia de canícula insuportável. Viro a torneira de água fria do chuveiro e o líquido sai morno como uma sopa, enquanto me enxugo começo a suar em bicas. Às nove da manhã, o sol já está a pino, parece meio-dia. No alto verão carioca, andar 50 metros é o mesmo que andar 5 quilômetros. É o mesmo que viver na Groelândia. A diferença é que lá você fica dentro de um iglu se protegendo do frio e aqui fica trancado em casa no ar condicionado. Ar condicionado, este oásis portátil, maravilha da tecnologia, o que seria de mim sem o ar condicionado? No Rio de Janeiro, até os caixões de defunto têm que ter ar condicionado.

Como já deu para perceber, sou do frio. Nascido e criado na frígida Curitiba, o calor me é estranho e hostil. A pressão arterial desaba, não tenho ânimo para nada. No frio, ao contrário, sinto-me bem disposto, acordo cedo, tenho apetite e trabalho horas e horas sem me cansar. Já estive na Antártica e enfrentei mais de 40 graus Celsius negativos na beirola da Sibéria. A friaca era tanta que congelou a gasolina do carro e o aquecimento do hotel entrou em colapso. Por sorte, era o único hóspede na cidade de Khiva naquele inverno gelado. Estava como pinto no lixo. Ao lado da lareira, Misha, o motorista, desembrulha um pedaço de toucinho defumado, um pão e uma garrafa de vodka. Corta-se um pedaço fino do toucinho, deita-se a gordura num pedaço de pão e, em seguida, para dentro. Para acompanhar a descida, um copinho de vodka. Nazdrovie!

De toucinho em toucinho, de nazdrovie em nazdrovie, passam o frio e a noite. Misha só falava russo. Eu de russo não sei nada. Mas o frio aproxima as pessoas. Sem veadagem, que fique bem claro.

No verão o mau humor é geral. Pelo menos para aqueles que não estão de férias. Ontem mesmo, na agência dos Correios, lotada e sem ar condicionado, o clima era de tensão. Bastava uma faísca para começar um quebra-quebra generalizado. Parados na fila, todos suavam copiosamente. André, que sempre me atende com cortesia, reclama: “Para os clientes “eles” (os Correios) avisam que já estão providenciando o ar condicionado, mas nós, os funcionários, sabemos que não tem verba.” É impressionante. Por mais que se pague imposto, sempre falta verba no Brasil.

E não adianta chover, é pior. Ocorre o “efeito sauna”. A chuva fria caindo no asfalto incandescente faz uma nuvem de vapor tomar conta das ruas. Só falta a essência de eucalipto. Mas não há de ser nada, semana que vem vou para o Kansas visitar meus “irmãos” americanos, leio nos jornais que uma nova frente gelada do Ártico se aproxima do meio-oeste americano. Oba!

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ROLEZINHO EM PORTUGAL

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Rosângela Biavati, 36 anos, morreu ontem na praia de Santos, litoral de São Paulo. Rosângela foi  vítima de um raio. No Brasil ocorrem, em média, 130 mortes por ano devido a descargas elétricas atmosféricas. No ranking mundial de mortes por raio, ocupamos a quinta posição. Igual ao Neymar Júnior na FIFA. Curiosamente, a probabilidade de um homem ser atingido por uma descarga elétrica é dez vezes maior que a de uma mulher. Coitada da Rosângela: acertou na mega-sena acumulada, só que ao contrário. Nascer, viver e ser feliz dependem de eventos probabilísticos.

Estou em Lisboa quase uma semana e não consigo tirar os olhos do Brasil. Também pudera, a família Sarney não deixa. A fama da governadora do Maranhão, Roseana, não conhece fronteiras. Aqui na Terrinha, do outro lado do Atlântico, repercute o misto de arrogância e incompetência da filhote de Sarney na condução da crise maranhense. Para não acusar, injustamente, a administração de Roseana de imobilismo, vale recordar a oportuna licitação para a compra de camarões e lagostas. Para quem não sabe, o Maranhão é o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil. Em quase meio século no exercício do poder, o que esta quadrilha, perdão, família, fez em prol do seu estado e do Brasil? Nada. Se de fato nada tivessem feito já estaria de bom tamanho, o pior é que, ao longo destes anos todos de mandonismo feudal, os descendentes da Dona Kyola dedicaram-se com afinco a acumular imensa riqueza de origem, pelo menos, duvidosa. Poderosos, os Sarneys conseguiram que a justiça brasileira censurasse o jornal Estado de São Paulo, que apurava as denúncias e processos envolvendo a “famiglia”. Isso em plena democracia. Pobre Al Capone, jamais conseguiria vaga de bandido no Brasil, nem como estagiário.

O ano de 2014 não completou duas semanas e já acumulamos dois escândalos: o projeto aero-agro-capilar de Renan Calheiros e a intifada de violência no Maranhão. Voltando à estatística, como média, nada mal. O Brasil é a mega-sena ao contrário.

Os Sarneys nos conduzem aos rolezinhos nos shoppings, curioso e inexplicável fenômeno de massa contemporâneo. Pode-se juntar uns dez especialistas em generalidades da Globo News por três horas e não vai se chegar à conclusão alguma.

Posso enfileirar obviedades: trata-se de um fenômeno de massa, organizado através das redes sociais. Não possui nenhuma liderança identificável, não contém nenhuma reivindicação explícita, mas traz conflito, tensão dramática, pathos, como diziam os gregos. Pode não ser evidente, mas há um conflito. Existem protagonistas e antagonistas. De um lado os frequentadores/consumidores dos shoppings centers e, do outro lado, em bando,  jovens, vestidos à moda fashion dos shoppings, passeando, querendo (mas não podendo) “consumir” tudo aquilo que os shoppings têm a oferecer.

Pelo que pude apurar, pelo menos em bando, os pobres não podem frequentar os shoppings. Peraí! Mas não é isso mesmo que os shoppings querem quando inventam suas “liquidações malucas do lápis vermelho”? E se for um rolezinho de peruas usando grifes? Pode?

Na realidade embaçada surge o contorno de algumas coisas não tão óbvias. Existe um conflito de classe no país tendo o “consumo” como pano de fundo. Uma inversão de valores onde o “ser” social só existe se vier junto com o “possuir”, e principalmente o “ostentar”, e mais ainda: “eu tenho e você não tem”. Vejam as propagandas do governo dizendo “Comprem!”, “Comprem!”, “Endividem-se!”, “Endividem-se!”. Nunca vi reclame governista do PT dizendo estudem, poupem, preparem-se para o futuro. Na ideologia (?) petista, o cidadão só existe e se justifica pela sua capacidade de consumir bens materiais agora. É essa a civilização brasileira que o PT e seus capangas pretendem construir? Como é que o Lula explica isso? E a Roseana Sarney? Já sei! As pessoas estão mais ricas… Ricas de quê?

Sugiro às redes sociais que o próximo rolezinho de shopping seja em São Luiz do Maranhão.

E tenho dito.

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ENXAQUECA

cabeça

Io mi recordo, si, io mi recordo.

A dor de cabeça chegava, aos poucos, sutil, pelo lado direito da cabeça. Um gosto estranho na boca, algo vagamente metálico, uma leve sensação de náusea. Aí então, subitamente, a dor vinha forte. Começava  na testa, fazia um arco pelo lado direito do crânio para, em seguida, descer pela  nuca. A náusea aumentava e, em volta das olhos, uma dor mais chapada que fazia lacrimejar. Era a fotofobia, a luz incomoda  aumentando o mal-estar. Qualquer som, qualquer barulho era como se alguém estivesse dando uma marretada na sua cabeça. Dor e mais dor, muita dor. A dor era uma faca cravada no topo da cabeça.  Mas não era só a dor, também tinha o enjoo que vinha num crescendo. Não havia remédio que pudesse aliviar. Fechado no quarto escuro,  percorria solitário o calvário da minha enxaqueca.

Começava então um jogo perverso. Sabia que se vomitasse, a dor desapareceria imediatamente. Mas tinha medo de vomitar, pavor. Ou será que esse medo era apenas uma desculpa para prolongar o sofrimento?  Um autoengano? Passava a tarde, desde que chegava da escola, até o início da noite nesta agonia. Negociando comigo mesmo entre a dor, o ato de vomitar e a consequente redenção do sofrimento, ou deixar tudo por  isso mesmo. Qualquer psicanalista de porta de inconsciente interpreta essa.

Depois de horas de dor e náusea, quando o enjoo ficava além do insuportável, cambaleante e gemebundo, me arrastava até o banheiro e vomitava. Ah! O vomitar! “La petite mort”! Expulsos do meu corpo, os humores negros, a síntese líquida da minha dor, impulsionados pela descarga, corriam para o esgoto. Uma sensação profunda de alívio inundava a minha alma atormentada. A dor desaparecia como que por encanto, uma enorme disposição e alegria de viver tomavam conta do menino. Eu poderia, enfim, crescer.

E  o Brasil? O que o Brasil tem a ver com isso?

Parece que o nosso país padece de uma longa e extenuante enxaqueca. Um tremendo mal-estar interno que vamos empurrando com a barriga, na esperança de que , com o tempo, melhore ou, pelo menos, atenue.  “Quando casar, sara”, diziam os antigos.

A origem desta dor de cabeça está em nossas imensas contradições intestinas, na recusa de enfrentá-las de frente, no medo de botá-las para fora. O amplo espectro do nosso povo oscila entre de dois polos extremos, antípodas e inconciliáveis de poder.

De um lado temos o que chamo de Brasil Moderno: empreendedor, democrata, legalista, preocupado com o equilíbrio das contas públicas, a boa gestão do aparelho do  Estado e numa  justiça que seja igual para todos . O Brasil Moderno valoriza a meritocracia, o esforço individual, a importância do conhecimento e do  estudo, se ocupa em proporcionar oportunidades iguais para todos, a busca pela eficiência e entende a necessidade da inserção do país no cenário mundial.

Na outra ponta deste arco, encontramos o Brasil Arcaico, um país anacrônico, onde predomina o patrimonialismo, o nepotismo, a demagogia e o clientelismo. O Brasil que prefere as soluções autoritárias, que, em geral, materializam-se em “salvadores da pátria”. O Brasil Arcaico, que possui raízes profundas na nossa história, entende o país como um imenso território para a espoliação sem limites, sem princípios e sem escrúpulos. São aqueles brasileiros que vivem parasitariamente do Estado que, por isso mesmo, precisa ser ineficiente ou inoperante. Esta extensa fauna de chupins vai desde os empreiteiros bilionários até o contínuo de repartição pública.

Ao longo da história brasileira, o poder oscila entre estes dois extremos, com predominância, devo admitir contrariado, do Brasil Arcaico, cujos princípios éticos, “mais flexíveis”, facilitam a manutenção do poder. É verdade também que, ao longo do tempo, o país conheceu períodos modernizantes e que deixaram marcas importantes no conjunto da sociedade.

Cabe aqui uma digressão. Criou-se no Brasil Arcaico uma nova categoria profissional, os “concurseiros”, ou seja, aqueles que vivem de (e para) concursos públicos. São pessoas que procuram uma pequena sinecura, uma teta murcha do aparelho do Estado e ali permanecer, acomodado, até o final de sua medíocre existência. Não existe a vocação, o interesse pela coisa pública, apenas o desejo de arrumar uma boquinha  que paga pouco (muitas vezes nem tão pouco), mas, em compensação, nada cobra do funcionário. Trabalhar é um ato voluntário do servidor. O emprego público é uma espécie de cartório concedido por concurso, o que faz do ácaro burocrata  inamovível e indemissível. O que importa são as “vantagens” (adoro o termo!), ou seja, aquilo que se tem no emprego público e que não existe no mundo real, da iniciativa privada: quinquênios, biênios, licenças prêmios, greves remuneradas, aposentadoria integral e por aí vai…

Para não dizer que inexiste a ambição, o concurseiro profissional pula de galho em galho, ou melhor, de repartição em repartição, tal e qual um Tarzan do emprego público, sempre através de concursos, assistidos por toda uma estrutura que vai de jornal dedicado ao tema até uma indústria de apostilas e cursinhos especializados em transformar o cidadão em barnabé de carreira. Objetivo é trocar o úbere atual por uma teta mais gorda.

Mas poderia ser (e é) muito pior. Os concurseiros  ainda têm algum mérito, pois, mal ou bem, estudaram, fizeram a prova e se classificaram. Mas e os apadrinhados das máquinas partidárias? Aqueles que ocupam os cargos de confiança confiança de quem, cara pálida?) e que se apropriam do bem público como se  do partido fosse? É claro que no parte reparte do butim sempre sobra “algum qualquer” no  bolso do dedicado militante.

Fim da digressão.

Voltemos, pois, ao combate de MMA histórico entre o Brasil Moderno e o Brasil Arcaico. Como consequência desta luta entre opostos, acaba que não sobra espaço para um projeto nacional, uma utopia brasileira a ser perseguida. Entre  estes dois polos, vive  a sociedade brasileira, que é um mosaico de corporações, cada qual defendo os seus interesses e privilégios.

Órfã da ditadura militar, a vanguarda de nosso atraso (Sarney, Renan, Maluf, Collor et caterva)  forjou uma grande aliança à qual se juntou a esquerda sindicalista e conservadora, faminta por um naco do poder. Operando uma política demagógica e oportunista, com uma demão de verniz socialista extemporâneo, cooptaram segmentos importantes: na academia, entre os intelectuais, os artistas, empresários, líderes comunitários. Uma verbinha aqui, uma “bolsa qualquer coisa”  ali e ficam todos satisfeitos. Enquanto isso o povão permanece refém através do crédito fácil e de políticas mais clientelistas do que sociais.

Esta divisão do Brasil não é regional. Enganam-se aqueles que acham que trata-se de uma luta do sul “desenvolvido” contra o norte-nordeste atrasado. Tudo é muito difuso na geografia do país. Existem importantes forças modernizantes ao norte do Brasil, assim como segmentos extremamente arcaicos nas regiões Sul e Sudeste.

O fato é que precisamos enfrentar as nossas contradições, precisamos decidir qual o futuro que desejamos para aqueles que virão. Para o bem ou para o mal. Temos que superar esta característica lusitana de empurrar os problemas com a barriga achando que com o tempo “tudo se ajeita”. Se ajeita sim! E da pior maneira possível. Dois mil e quatorze é o ano de ir à luta, teremos eleições. Nossa bandeira: a democracia, nossa espada: nosso voto. Dois mil e quatorze é o ano de fazer História.

E tenho dito.

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