Democracia em Perigo – Episódio 06 a 10 e um final

A democracia trouxe novos ares ao Brasil. Em 1988, foi promulgada a Constituição que está vigente até hoje.

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Democracia em perigo – Episódio 01

Democracia em perigo – Episódio 02

Democracia em perigo – Episódio 03

Democracia em perigo – Episódio 04

Democracia em perigo – Episódio 05

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Democracia em Perigo – Episódio 04 a 10 e um final

O Brasil passa pelo cenário de estagflação. Ernesto Geisel defendeu uma abertura lenta, segura e gradual. Aqueles que eram contra essa abertura reagiram de forma violenta. Acompanhe essa série diariamente aqui no blog ou no site http://www.qualsuacausa.com.br/

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JÁ FOI UM, SÓ FALTAM SEIS!

Foto-Divulgação-Monty-Python

Finda a Copa do Mundo resolvi tirar uns dias de folga. Fui a Londres assistir ao último show do Monty Python. Depois de muitos anos sem se apresentar juntos, os cinco Phytons restantes John Cleese, Michael Palin, Eric Idle, Terry Jones e Terry Gilliam (Graham Chapman morreu em 1989 aos 48 anos) decidiram fazer uma temporada de despedida, “fechando a tampa” de forma definitiva (pelo menos, por enquanto) da carreira do mais extraordinário grupo de humor que já vi. Assim como o meu querido amigo Sérgio Besserman, eu divido a humanidade em dois grupos: os que gostam e os que não gostam de Monty Python.

Na minha modesta opinião, os Pythons estão para o humor assim como o João Gilberto está para a Bossa Nova e o Mozart para a música clássica. Admito que que o João Gilberto e o Mozart não tiveram grande influência na minha obra.

O primeiro contato que tive com o humor do MP foi durante o minha primeira viagem à Europa em 1976. Tarde da noite, zapeando os canais de TV no hotel, me deparei com um programa de humor absolutamente inovador e muito engraçado. Mas não consegui saber que se tratava de um episódio do show semanal que o grupo inglês produziu seis temporadas na BBC.

Numa tarde chuvosa de um sábado, embiquei na direção do finado Cinema 1 que ficava ali na Prado Júnior, em Copacabana. Alguém havia me dito que estava passando uma comédia inglesa muito maluca. Era o Monthy Python and the Holly Grail, que no Brasil foi batizado de “O Cálice Sagrado”, título mais adequado para um filme religioso.

Logo na apresentação dos créditos iniciais quando, do nada, começa uma discussão bizantina sobre alces e animais afins empalhados, tive uma epifania. Uma revelação. Me deparei com uma forma absolutamente maluca de fazer humor, contar histórias, utilizando o nonsense, o humor negro, a inteligência aguda, tudo isso num contexto profundamente culto, erudito mesmo.

Imediatamente me identifiquei com aquilo e mais… eu percebi que era capaz de fazer aquilo! Pouco tempo depois eu fundava, junto com o Beto Silva e o Helio de La Peña, a Casseta Popular. E o resto é história.

É muito curioso o paralelismo entre o MP e o Casseta & Planeta. Os ingleses são o resultado da fusão de  dois grupos de humor universitário. Um de Cambridge e outro de Oxford. Fizeram shows, fizeram filmes, gravaram discos e, também, no auge da carreira, perderam um membro do grupo, o  Graham Chapman. Aliás, o funeral do humorista é uma peça imperdível de humor. Lá vai o link: Graham Chapman’s funeral

Mais do que um fã, tornei-me um estudioso do humor do grupo e tenho praticamente tudo que foi escrito e filmado deles e por eles. Das temporadas na TV tenho todos os episódios fichados, esquete por esquete. Coisa de um obsessivo.

Portanto, eu não podia deixar de fazer essa extravagância. Tinha que pagar esse tributo, um assento na “fila do gargarejo” e, pela primeira e única vez, assistir os Pythons ao vivo. O meu voo atrasou 18 horas, quase perdi o espetáculo, só tive tempo tempo de largar as malas e correr para o O2 Arena, uma espécie de Maracanãzinho londrino, onde eu  e mais 15 mil  alucinados aguardávamos ansiosos o início dos trabalhos. Muitos da plateia vieram caracterizados de personagens clássicos pythonianos, como padres da Santa Inquisição, Débeis Mentais, Bruxas Medievais, Lenhadores Canadenses, Filósofos Australianos e o que mais coubesse na lembrança de cada um.

Como não poderia deixar de ser, o show, que se chamava “One Down , Five to Go…” , ou seja “um já morreu, faltam cinco…”, foi uma seleção dos melhores esquetes da carreira do grupo, intercalado por engraçadíssimos números musicais como All Sperm is Sacred em divertidas coreografias. Também apresentaram, num imenso telão, as incríveis animações de Terry Gilliam, ainda hoje ultra arrojadas, bem humoradas e criativas. Logo na abertura, um descomunal Graham Chapman faz a sua aparição direto dos confins do universo, onde virou uma bola de pinball. Quatro horas de função com meia hora de intervalo foi de tirar o fôlego. Humor caviar de primeiríssima qualidade, totalmente politicamente incorreto, só para mostrar como a Humanidade tem andado para trás.

Aqui um teaser do espetáculo:

http://www.theguardian.com/stage/video/2014/jul/02/monty-python-live-mostly-premieres-o2-video-highlights

E aí vai uma palhinha do final do show:

http://www.theguardian.com/culture/video/2014/jul/21/monty-python-final-show-london-video

Pois é, meninos e meninas, eu estive lá. E chorei de emoção, pura veadagem.

Para quem quiser saber mais sobre o Monty Phyton,  lá vai o link:

http://en.wikipedia.org/wiki/Monty_Python

E tenho dito.

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O DINHEIRO NÃO VALE NADA

inflação

Mi recordo, si, io mi ricordo.

Dos tempos da Hiperinflação, quando se entrava no supermercado e o que se escutava era o matraquear das maquininhas de remarcar preço. Naqueles tempos, ainda não se usava o código de barras. Estava começando a minha vida adulta. Assim que o “pagador” saía, corria feito um alucinado na direção do supermercado enchendo quantos carrinhos pudesse, antes que o valor do meu parco salário evaporasse.

O dinheiro perdia o seu valor tão rápido que as empresas pagavam os seus funcionários de quinze em quinze dias. Comparados com os mais humildes, éramos uns privilegiados, pois conseguíamos minimizar um pouco o efeito perverso da inflação. Nós, da classe média para cima, não tínhamos dinheiro em conta corrente. Ficava tudo aplicado em fundos que, por sua vez, financiavam (e aumentavam) o déficit público, girando a roda da inflação. Vivíamos como hamsters.

De manhã, assim se chegava no “serviço”, antes de qualquer coisa, telefonava-se para o banco, mandando baixar para a conta corrente a quantia necessária para os pagamentos do dia. O preço das coisas subia de maneira tão descontrolada que não se perdia a noção de preços relativos. Desde quantos cruzados se podia pagar por um cacho de bananas até se a propina que o empreiteiro tinha pago ao deputado era mesmo um absurdo.

Meu querido amigo, o economista Sérgio Besserman, trabalhávamos juntos no departamento de planejamento do BNDES e, depois de muito debater, chegamos à conclusão que o dinheiro, a qualquer momento, corria o sério risco de não valer nada. Viraria pó. A economia, então, se daria na sua forma mais atrasada, ou seja, o escambo. A troca de mercadorias sem a intermediação da moeda. Prevenidos, compramos latas e latas de atum em conserva para, no futuro, podermos trocar por sapatos, remédios, o que fosse.

Brasileiro que não conhecesse rudimentos de finanças morria de fome. Os planos milagrosos se sucediam. A cada novo plano, um rasgo de esperança, uma réstia de luz no fim do túnel que, pouco depois, se revelava em mais uma feroz locomotiva.

Lembro quando nasceu a minha filha, poucos dias depois do Plano Collor. O plano que, simplesmente, confiscou toda a poupança dos brasileiros. Não havia dinheiro para ninguém. Soube então que, num caixa eletrônico do aeroporto Santos Dumont, ainda havia “algum qualquer”. Parti direto para o local e enfrentei uma fila quilométrica, só assim consegui alguns trocados e comprar pacotes de fraldas.

Eu poderia escrever um livro sobre a tragédia que é a inflação. Mas, felizmente, não é necessário. A Miriam Leitão já escreveu um insuperável, “o nome se chama”: A Saga Brasileira: A Longa Luta de Um Povo Por Sua Moeda, tem na Livraria da Travessa, e deveria ser lido por todos os jovens.

Digo isso porque participei de um seminário comemorativo dos 20 anos do Real, em São Paulo, e fiquei chocado com a ausência de jovens na plateia. E como já disse o meu amigo Carlos Marx, o povo que não conhece a sua História está condenado a repeti-la enquanto farsa.

Numa modesta contribuição, preparei um resumo resumidíssimo do que foi dito e falado no encontro no post http://www.casseta.com.br/madureira/2014/03/16/na-real-vinte-anos/.

E tenho dito.

 

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GRACIAS A LA VIDA

destaque marcelo

Devorei, de uma sentada, Gracias a la vida, do Cid Benjamin. No livro, Cid relata a sua trajetória política, desde o movimento estudantil nos anos sessenta, passando pela luta armada, clandestinidade e exílio durante a ditadura militar. Os anos correm e, com a Anistia, Cid volta ao Brasil, participa da fundação do PT para, depois, por divergências políticas, se filiar ao PSOL.

É um belíssimo livro. Além do testemunho pessoal, Cid produz uma análise lúcida e desapaixonada da história recente da política brasileira. Devo dizer que tenho muitas divergências do Cid Benjamin na matéria, mas temos convergências também. O que importa é saber escutar o “outro”, examinar os seus pontos de vista e procurar compreende-los. Veja bem: compreender é diferente de concordar, é assim que funciona uma democracia.

O que Cid Benjamin e eu temos em comum, e de que muito me orgulho, é que fomos alunos do Colégio de Aplicação da UFRJ, o célebre Cap da Lagoa. Mesmo com toda a repressão da época, vivia-se no Cap um clima de contestação política permanente. Apesar das péssimas condições materiais de ensino, tínhamos no Colégio de Aplicação excelentes (e exigentes) professores. Estudávamos muito. A convivência com os licenciandos da UFRJ, que lá faziam a sua prática de ensino, também contribuía para a elevada temperatura político-cultural da escola.

No colégio, é claro, apesar dos policiais infiltrados, várias organizações de esquerda, então na clandestinidade, conviviam não tão harmoniosamente, disputando entre si, no arrebanhamento de novos militantes entre os alunos. Foi no Cap que travei os meus primeiros contatos com o antigo PCB, o legendário Partidão, onde militei apaixonadamente, dedicando anos preciosos da minha juventude para uma Revolução que nunca veio. Mas valeu a pena, ora se valeu.

Naquele tempo ser de esquerda implicava em risco de cadeia, tortura e morte. Não dava emprego público, consultorias milionárias nem patrocínio da Petrobras.

Leia Gracias a la vida. Você vai gostar.

E tenho dito.

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O PEQUENO KENNEDY

JFK-and-Jackie-in-Dallas

Mi ricordo. Si, mi ricordo. Vinte e dois de novembro de 1963. Me lembro direitinho do dia em que John Kennedy foi assassinado. E olha que eu só tinha cinco anos e meio de idade.

Meus pais estavam viajando, ficamos em casa sob a guarda das empregadas. De repente, a cozinheira, que só trabalhava com o rádio ligado, saiu gritando: Mataram o Kennedy! Mataram o Kennedy! Vejam só, na Curitiba dos anos sessenta, uma simples secretária do lar, criada na roça, não só sabia quem era John F. Kennedy mas, também, intuía o significado transcendental do assassinato. Só podia ser na nossa casa…

Estava brincado na sala e aquela gritaria despertou a minha curiosidade, saí correndo na direção da cozinha, escorreguei no piso encerado. Sim, naquele tempo ainda se usava enceradeira. Escorreguei e bati com a testa na quina do degrau.  Atordoado, procurei a minha babá, a querida Teresa que, ao me ver com o rosto todo coberto de sangue, quase caiu para trás. Colocaram um pano sobre a ferida mas a sangueira era muito. A testa é uma parte muito vascularizada do corpo humano.

Alguém lembrou que o nosso vizinho era médico, Dr. Caetano Munhoz. Teresa me colocou no colo e bateu na porta da casa ao lado. Ao ver o tamanho do talho, Dr. Caetano, na mesma hora, decretou: Vamos para o hospital! Vai ter que levar pontos. Me lembro direitinho, deitado no colo da Teresa, no banco de trás do Aero Willys. No hospital, a médica que me atendeu tinha o mesmo nome da minha mãe: Rosi.

Quando voltamos para casa, todos repararam no avental da Teresa, manchado de sangue. Alguém comentou que a roupa ensanguentada ficou parecendo com a saia da Jacqueline, a então primeira dama dos Estados Unidos. Percebi que ali, naquele instante, tinha virado John F. Kennedy.

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VOANDO E ANDANDO

destaque marcelo

Desde criança sou fascinado por aviões. Cheguei mesmo a pensar em ser piloto, mas a miopia (e os meus pais) não ajudaram a realizar a empreitada. Burro velho, entrado nos anos, reuni as condiçõe$ objetiva$ para realizar o velho sonho de voar. Me inscrevi no Aeroclube do Brasil em Jacarepaguá, o segundo mais antigo do mundo. Depois de fazer todos os exames exigidos (rigorosos), passei a tomar aulas no aeroclube. Pilotar um avião é um exercício muito curioso e útil em várias circunstâncias da vida. Você aprende a ser meticuloso, cuidadoso, planejado e paciente observador de rotinas. Antes de entrar na aeronave um piloto tem que fazer uma minuciosa inspeção externa do aparelho, checar o combustível, checar as condições atmosféricas e planejar com muita atenção o que pretende fazer: ponto de partida, ponto de chegada, pontos de navegação no trecho, cálculo do consumo de combustível, aeroportos de alternativa em caso de emergência. É um monte de coisas.

Já à bordo, cinto afivelado, deve-se seguir à risca os cheques previstos para cada etapa do percurso. Desde o acionamento dos motores até a hangaragem do avião no destino final. Pilotar uma aeronave exige total concentração e são raros os momentos em que se pode relaxar e apreciar a paisagem. Este é um privilégio do passageiro. O piloto tem que estar atento à fonia (rádio), ao tráfego nas imediações, funcionamento dos sistemas… é uma trabalheira danada. Quanto mais simples o avião, mais exigente ele é. Manter o “bichinho” aprumado, bem compensado, na proa exata e tudo com muita suavidade que é para não assustar os passageiros. E o mais importante e que aprendi logo nas primeiras lições: o piloto tem que “voar na frente do avião”, ou seja, tem que pensar e antecipar tudo o que tem que fazer, contando, inclusive, com a possibilidade de pane ou qualquer outra intercorrência. É por isso que o avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Apesar de tudo isso, pilotar um avião de verdade é um enorme prazer. Só quem voa sabe a alegria de uma manobra bem feita, um pouso perfeito e apreciar aquele cheirinho de aeroporto…

Pois então, na segunda-feira passada tomei um susto ao saber que o Adelmo havia morrido em um acidente, na Lagoa de Maricá, com um Sêneca do Aeroclube, o Kilo-Golfo-Kilo. Adelmo não era só um cara muito legal e amante incondicional de voar. Adelmo coordenava toda a instrução de pilotos no Aeroclube do Brasil com dedicação, responsabilidade e competência. Acumulava mais de 3 mil horas de voo e jamais pensei que viesse a ser vitima de acidente aeronáutico. Estou muito intrigado com o que possa ter acontecido. Afinal, Adelmo Louzada era um defensor da boa doutrina aeronáutica e aprendi com ele que “na dúvida, aborta a missão”. Acidentes com aeronaves são sempre apurados com rigor, principalmente para que não se repitam. Pilotos aprendem com os azares de seus colegas, faz parte do ofício.

Fica o meu agradecimento eterno ao comandante Adelmo Louzada por tudo que me ensinou e a promessa que não vou esquecer das lições e muito menos de sua sempre alegre pessoa.

 E tenho dito.

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