HOMOFOBIA, JIHAD, COMÉRCIO DE ARMAS & MASSACRE

bandera-gay-1105x601 (1)

Tudo junto e misturado. É demais para a minha mente atormentada. A tragédia na boate Pulse em Orlando chocou o mundo inteiro. No meio das balas e da sangueira, corpos, dor e perplexidade. Todos procuram uma explicação para o acontecido e, nessa ansiedade louca, uma usina de opiniões sem o menor compromisso com a realidade, gerando preconceito e bobagens. Quarenta e nove seres humanos inocentes assassinados quando se divertiam. Esse é o fato. Homofobia? Fanatismo religioso? Loucura? De fato, o comércio de armas nos EUA é pra lá de liberal. É mais fácil comprar uma pistola automática do que uma caixa de lexotan na farmácia. De repente, se fosse o contrário, não haveria tanta tragédia. Vejam bem: não estou fazendo apologia do uso de medicamentos traja preta, mas este é um fato. O porte de armas nos Estados Unidos faz parte da cultura. Eu sei, é muito estranho, mas tudo é muito estranho quando não nos é familiar. É daí que vem o preconceito. Do ponto de vista estatístico, dada a quantidade de armas que os americanos possuem em casa, é marginal e ínfima a probabilidade de um evento dessa natureza. Não tenho arma, nem pretendo ter. Aliás, tenho medo de armas, mas não me acho no direito de dizer se as pessoas podem ou não possuir armas em casa. Só acho que aqueles que assim o desejam devem se responsabilizar integralmente por isso. Pode até ser que o assassino seja de fato um homossexual não assumido e atormentado. Não cabe, neste caso, nenhum preconceito contra os homossexuais enrustidos, muito menos contra os malucos. Malucos e homossexuais sofrem muito. Também não cabe preconceito contra uma fé religiosa ou uma etnia. O ser humano é muito mais complexo do que isso tudo. Para o bem ou para o mal.

Existem coisas que simplesmente não conseguimos explicar.

E tenho dito.

360
ao todo.

DOZE DIAS SEM BRASIL

limestone-arch-dorset-coast-england

Por conta do casamento da filha, fiquei doze dias fora do país. Isolado em Dorset, no interior da Inglaterra, fiz questão absoluta de me desintoxicar da nossa melancólica realidade. Não tomei conhecimento do que se passava abaixo da linha do Equador. Mas foi em vão. Logo na segunda-feira o escândalo de corrupção na FIFA arrebenta nas manchetes dos jornais e, como não poderia deixar de ser, um brasileiro, o trêfego José Maria Marin, envolvido até o último fio de cabelo (aliás, convenientemente pintado como manda a estética dos pilantras), é devidamente enjaulado pelos agentes da lei. É o Brasil exportando tecnologia para o Primeiro Mundo. É nóis!!!!

Em seguida veio a imensa cara de pau e cinismo dos principais patrocinadores do Mundial de futebol: Visa, McDonald´s, Coca-Cola e Budweiser lançando notas oficiais entre indignadas e surpresas com as maracutaias descobertas na FIFA pelo FBI. Santa ingenuidade! Esses caras são uns cínicos e acham que nós somos idiotas. Convivendo anos e anos com a corja fifense, vai dizer que os sponsors oficiais nunca desconfiaram (quando não participaram) das jogadas mirabolantes que nada têm a ver com futebol. Fala sério… abusam de nossa paciência. Imaginem o que é que eles não misturam nos hambúrgueres do Big Mac? “Amo muito tudo isso!” – não é esse o slogan? Obra-prima de ato falho…

Mas prossigamos. Caminhava eu pelas plácidas ravinas do interior inglês, cercado de felpudas ovelhas e escutando o grasnar dos tordos, tudo é paz e quietude. Ter a oportunidade de escapar do seio da Mãe Gentil tem um efeito restaurador e até mesmo terapêutico. Mesmo assim, que inferno, minhas divagações me levam de volta aos problemas que me aguardam no Brasil. Fico pensando na conta que todos nós vamos ter que pagar por 12 anos de incompetência e desonestidade dos lulopetistas e seus comparsas. Vamos ter que liquidar essa conta imensa, esse buraco tremendo, e o pior, meus amiguinho(a)s, não tivemos nada a ver com isso. Muito ao contrário. Como dinheiro não desaparece no ar, tento quantificar a enorme transferência de renda proporcionada por mais de uma década de má gestão e roubalheira: “alguéns” ficou com essa grana toda, essa é que é a verdadeira Bolsa Famiglia.

A figura patética de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda evoca um São Jorge de puteiro. Enquanto finge dar alguma ordem nas contas públicas, é atacado pelo PT além de sabotado pelo próprio governo a que serve com constrangedora subserviência. Afinal, que governo pode ser sério com as suas finanças enfileirando 39 ministérios?

Como se pode consertar o país se não temos ainda a menor ideia dos esqueletos escondidos nos armários do BNDES, dos fundos de pensão, da Eletrobrás, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e onde mais houver um centavo de recurso público para ser esbulhado?

Joaquim Levy tentando “consertar” o Brasil é o mesmo que chamar um homeopata para socorrer um baleado por um AK-47. E continuam meus pensamentos enquanto caminho junto aos seculares muros de pedra que me separam das florestas onde 800 anos atrás caçava o rei João Sem Terra, aquele que assinou a Magna Carta em 1215 e que, até hoje, vale como Constituição do Reino Unido.

Comparo a qualidade de vida no Patropi com a velha Albion. Como é cara a vida no Brasil! Mesmo sendo um(a) sujeito(a) bem de vida, você gasta um dinheirão e, mesmo assim, tem uma vida miserável. Não tem estrada, não tem aeroporto, plano de saúde, escola decente, enfim, nada. Também não pode sair à rua sem um segurança, pois arrisca a levar uma facada. Se for pobre então… esquece, porque é muito pior.

No Brasil o Estado é o algoz do cidadão. Escorchando as pessoas de bem através de impostos dinamarqueses, devolve à sociedade uma vida de refugiado africano à deriva no Mediterrâneo. O Estado brasileiro, parasita, suga o cidadão trabalhador até a última gota e, pior, ainda o trata como bandido. Bem, cá estou de volta à nossa pocilga auriverde… Vida que segue.

E tenho dito.

516
ao todo.

Gabeira, como sempre !

Segundo dia da 10ª edição da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty).

ONDE VAI ESSE TREM?

Num texto endereçado a cineastas, Chris Marker citou uma frase de De Gaulle: às vezes os militares, exagerando a impotência relativa da inteligência, descuidam de se servir dela. Marker defendia filmes inteligentes contra o populismo de alguns pares. Creio que De Gaulle criticava a superestimação da força armada. Algo que ficou célebre na pergunta atribuída a Stalin: quantas divisões tem o papa?

A oposição brasileiro tem se descuidado de usar a inteligência não por valorizar a força armada, mas as possibilidades eleitorais. Quantos votos nos dará esse projeto? Foi assim com a derrubada do fator previdenciário. Nada mais agradável do que votar pelos aposentados e ao mesmo tempo ganhar um bom número de votos.

Norberto Bobbio dava muita importância à questão da aposentadoria e a considerava um elemento divisor entre os conceitos de esquerda e direita. Não vejo assim no Brasil. A ideia de um sistema que garanta aposentadoria digna é universal no espectro político.

As coisas se complicam quando se discute a sustentabilidade do sistema. Tensioná-lo com mais gastos num momento de crise aguda acaba despertando propostas como a de Joaquim Levy: aumentos de impostos. Um projeto político no capitalismo não implica apenas respeito às normas democráticas. Implica também a admissão das próprias leis do capitalismo. Se nos levamos apenas pelo coração, faremos muitas bondades até que chegue o momento de pagar a conta. Os deputados jogaram essa conta para o governo, que, por sua vez, a transfere, via impostos, para a sociedade.

Quando Levy fala em ajustar a economia e, simultaneamente, em aumentar impostos a partir das bondades parlamentares, suas tesouras são apenas um passatempo como agulhas de crochê. As tesouras de Levy refletem o mesmo conflito de ideais socialistas com as leis do capitalismo. E a oposição tem de se manifestar claramente sobre isso: é um modelo de crescimento que faliu. Derrotá-lo não significa usar os mesmos métodos populistas, certamente com grandes dividendos eleitorais. Derrotá-lo é propor um novo caminho.

O caso das pensões e dos salários de pescadores, embora tenha distorções, no meu entender, merecia rejeição, ao menos para negociar.

Como começar um ajuste fiscal sem conhecer os cortes do governo? Este é o tema mais importante no ajuste. É nele que uma visão de oposição tende a se fixar: a racionalização da máquina, a redução de inúmeros e inúteis cargos de confiança.

Minhas críticas são feitas de fora, o trabalho na estrada não permite conhecer todos os dados. Mas a oposição precisa mostrar uma certa coerência com o próprio programa. O problema de votar, em alguns momentos, com o governo também é eleitoral: medo de desapontar o eleitorado que rejeita Dilma e o PT.

Mas é preciso dividir as esferas de atuação: um programa claro sobre o ajuste econômico e um trabalho sério sobre a corrupção, reconstruir e punir. A responsabilidade pela devastação da Petrobrás, a gestão temerária, o escândalo do desvio de bilhões é um fato histórico ainda em movimento, pois a Justiça não se manifestou sobre ele.

Nesse contexto, um fervoroso eleitor de Dilma é indicado para ministro do Supremo. Os principais nomes da oposição faltaram à sabatina. Era preciso fazer perguntas, descortinar a visão política de Luiz Edson Fachin e apresentar uma interpretação de seu discurso.

Não posso dizer que a culpa seja de Fernando Henrique Cardoso. Cada um avalia as prioridades, organiza a agenda, é uma escolha política: a homenagem a Fernando Henrique em Nova York ou a sabatina de candidato ao Supremo no Brasil. O resultado é que não foi dada toda a atenção à hipótese de o governo aparelhar o Supremo e bloquear as conquistas da Operação Lava Jato.

Estou, talvez, reduzindo a escolha de um juiz a um fato conjuntural. Mas o escândalo da Petrobrás é mais que isso, é o espaço em que se vai jogar o que mais interessa às pessoas que foram às ruas: avançar na luta contra a corrupção.

Vivemos um momento em que nem governo nem oposição se movem de forma articulada, com ideias claras e compartilhadas sobre sua trajetória. Vivi outros momentos assim, mas muito rápidos. Usávamos uma expressão para descrevê-los: a vaca não reconhece seus bezerros.

Num texto para homenagear Robert Frost, John F. Kennedy escreveu: a poesia é o meio de salvar o poder de si próprio. Sem menosprezar a poesia, tenho uma expectativa mais pedestre: só as pessoas, com suas dificuldades cotidianas, sonhos e frustrações e pequenas conquistas, podem salvar o poder de sua degradação. Nenhuma força política parece preocupada em responder a essa expectativa com um projeto coerente, verificável nos movimentos cotidianos.

O Congresso parece desgovernado. Vota, simultaneamente, medidas de contenção e de mais gastos. Os repórteres estão sempre fazendo contas para verificar se estamos economizando ou gastando mais.

Era esperado um choque de posições no debate do ajuste; os setores atingidos procuram se defender: não há nenhuma previsibilidade de mudanças no tamanho da máquina nem o tipo de País que vai surgir desse debate. Vendo as universidades federais fluminenses em ruína antes mesmo da aplicação dos cortes, é razoável duvidar da retomada do crescimento com um simples ajuste fiscal. Tudo o que não funciona nos serviços públicos vai ganhar com os cortes uma poderosa desculpa para mascarar a incompetência: não há dinheiro.

Assim, a Nova República vai morrer e nascerá a Novíssima República, como aqueles antigos trens italianos, o rápido, o rapidíssimo, que nunca chegavam na hora. Será difícil achar a luz no fim do túnel se não decidirmos, pelo menos, em que direção procurá-la. O Brasil não precisa apenas de um ajuste fiscal, mas de rever todo o modelo que nos jogou no buraco.

Artigo publicado no Estadão em 22/05/2015

534
ao todo.