Consulado à brasileira

20161018 corrupcao

O Brasil não tem jeito mesmo. Nosso país tem uma “cultura da picaretagem” que subverte qualquer um. Até mesmo o consulado dos Estados Unidos da América no Rio de Janeiro sucumbiu à bandalheira brasileira disfarçada de picaretagem.

Vamos aos fatos.

Um amigo foi tirar seu visto para os EUA. Ligou seu computador e, pela internet, fez tudo “nos conformes”: preencheu toda a papelada e até assinou eletronicamente os formulários.

Na véspera da entrevista, o pacato cidadão dirigiu-se ao posto consular do Humaitá para as rotinas de identificação: retrato e impressões digitais. Foi atendido no dia e hora marcada (era um domingo, por sinal) por pessoal terceirizado, todos brasileiros. Terceirizar serviços públicos… Pronto, começaram os brazilianismos.

Era só o que faltava para dar início à “ingrizia”. Segundo o moço do guichê, o meu amigo deveria ter levado consigo um “papel impresso” comprovando o seu pedido de visto. Ora bolas! Não bastava o número do pedido feito pela internet? – obtemperou o razoavelmente inteligente cidadão. Não! – respondeu o terceirizado – Tem que imprimir o tal papel que está em anexo no formulário digital.

Mas no estabelecimento consular não existe impressora disponível para o tal procedimento. Discretamente o funcionário terceirizado sugere procurar o chaveiro que funciona quase ao lado da repartição. O chaveiro, curiosamente aberto no domingo, poderia “quebrar o galho” de imprimir uma única folha de papel pela módica quantia de 30 reais!!! Isso mesmo, 30 dinheiros. Cínico, o chaveiro explicou que a quantia de 30 reais era bem razoável, pois a validade do visto é de dez anos, ou seja, a folha impressa sai por módicos 3 reais anuais. Sentindo-se roubado, o indefeso solicitante de visto pagou a quantia e só assim pôde dar prosseguimento ao processo.

Estariam os funcionários terceirizados mancomunados com o chaveiro-achacador? Nem pensar!!! O FBI, avisado pela CIA, já teria dado um jeito na quadrilha.

Vida que segue. No dia seguinte, o mesmo indivíduo dirigiu-se ao consulado propriamente dito para dar continuidade ao processo; a temida entrevista com um funcionário do corpo consular (portanto, um cidadão americano). Ao chegar para o encontro, meu compadre foi informado que não poderia entrar no recinto americano com nenhum equipamento eletrônico, mesmo desligado. Foi então que percebeu que em volta da fila de requerentes de visto havia uma nuvem de indivíduos portando um colete em cores berrantes no qual se via escrito “guarda-volumes”.

Meu ingênuo amigo pensou que se tratava de um serviço oferecido pelo consulado para a guarda de objetos. Qual o quê! Tratava-se de mais um “serviço terceirizado”. Tudo muito organizado e operacional, pagando-se a quantia mágica de trinta reais!!!! Detalhe: isso tudo acontece na porta do consulado mais bem policiado do Rio de Janeiro!!!!

Para piorar a situação, o meu considerado tinha uma mochila com notebook, ipad e o escambau. E, segundo o mesmo guarda-volumes colorido, ele só poderia deixar o celular. No caso de mochila, ele teria que ir até a loja matriz do serviço, na rua Santa Luzia, vizinha ao consulado. Curiosamente o estabelecimento comercial era mais um chaveiro que se prontificou a guardar a mochila por módicos 35 reais!!!!

Conformado e precisando viajar, o cidadão pagou a quantia e entrou no consulado, onde foi atendido e obteve o visto em menos de 15 minutos. Portanto, pagou 35 reais para o “chaveiro” guardar os seus pertences por menos de um quarto de hora.

Resumo da ópera: vai dizer que o consulado americano nem desconfia que esses absurdos acontecem na porta do consulado? Vai dizer que alguém(ns) não descolam “algum qualquer” por fora com esses serviços informais de impressão e guarda-volumes? Será que não tem algum funcionário americano participando do esquema?

A conclusão é uma só: no Brasil, até no consulado americano o cidadão tem que pagar “cervejinha” para resolver os seus problemas.

E tenho dito.

Escuta, Zé, não é bem assim…

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José Padilha é um tipo raro no Brasil. Consegue ser cineasta e intelectual ao mesmo tempo. Sou admirador dos seus escritos e da sua obra audiovisual. Domingo, 16 de outubro, Padilha escreveu um artigo chamado Ceticismo. (Clique aqui para ler)

No texto, Zé Padilha afirma que é “cético acerca das ciências sociais. Simplesmente não acredito que seja possível a formulação de uma estrutura teórica (marxista, keynesiana, hayekiana, ou seja lá qual for a sua preferência pessoal) capaz de explicar, mesmo que de forma rudimentar, os processos econômicos, quiçá os processos sociais em geral”.

E continua:

Além disso, as ciências sociais não dispõem de modelos teóricos que incorporem, ao mesmo tempo, variáveis políticas, econômicas, tecnológicas, geográficas, climáticas e culturais. E é óbvio que qualquer dessas variáveis pode alterar drasticamente a evolução de uma sociedade. Os processos sociais são, pura e simplesmente, complexos demais para serem modelados.

Raciocínios estes que eu, modestamente, discordo. Já se foi o tempo em que os cientistas sociais resumiam suas atividades a dar aulas e escrever livros. Hoje, as Ciências Sociais, graças aos avanços tecnológicos, têm à sua disposição um enorme arsenal de técnicas de análises quantitativas e um imenso banco de dados (via Big Data), que permitem diagnóstico, criação, implantação, gerenciamento e avaliação de políticas públicas tanto em termos micro, pontual, como em termos macro.

Na Economia, novas fronteiras de estudo vêm sendo abertas, propondo métodos originais para avaliação dos processos sociais, haja vista os trabalhos do Daniel Kahneman (psicólogo e Prêmio Nobel de Economia), Robert e Edward Skidelsky, Dan Ariely e André Lara Resende, só para citar alguns.

O problema, no meu entender, é a “ideologização” cotidiana e rasteira das Ciências Sociais, fato que o mesmo José Padilha reconhece em outro trecho do seu interessante artigo:

Os nossos formadores de opinião, quase todos socialistas ou neoliberais convictos, travam um debate estúpido a partir de posições ideológicas dicotômicas que, acreditam eles, explicam o Brasil e o mundo. Como se a esquerda e a direita radicais exaurissem todas as possíveis formulações teóricas das ciências sociais.

E ainda este trecho final com o qual concordo mais ainda:

Do ponto de vista socrático, de quem busca conhecer a própria ignorância, o debate político no Brasil se transformou em um festival inacreditável de besteiras gritadas em tom grandiloquente. O Brasil não precisa de neoliberais ou de socialistas simplórios, polarizados e convictos; o Brasil precisa de uma liderança racional e honesta.

E Zé Padilha e eu temos dito.

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E agora, mané?

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LULA, EDUARDO CUNHA, DILMA, TEMER E A CRISE BRASILEIRA.

E agora, Mané? O PT acabou, a Dilma apagou, o Cunha sumiu, seu emprego não voltou. E agora, Mané? E agora, você?

O impeachment da Dilma é só mais uma página virada, assim como a cassação do Eduardo Cunha. Daqui a pouco, tal e qual Itabira, vão ser só um retrato na parede. E como dói!!!

É uma ilusão achar que os nossos problemas acabaram, muito pelo contrário, agora é que vão se agravar.

Um segmento pequeno de nossas “Autoridades” escuta o clamor público. Um pouco ao longe ainda, é verdade. Perplexos, procuram entender o mundo contemporâneo, fazem uma força danada para acompanhar a difusão da informação nas novas mídias. Assistem à participação da sociedade nas discussões, as cobranças, os sistemas de vigilância e controle dos fluxos financeiros. Para a nossa classe política, tudo isso é novidade. O que fica claro é que existe um delay de pelo menos 11 meses entre os políticos e a sociedade. Esse foi o tempo que a Câmara dos Deputados em Brasília levou para defenestrar o Eduardo Cunha.

Os sintomas do Brasil são muitos: desemprego, inflação alta, insegurança, falta de investimentos, falta de perspectivas e, talvez, o mais grave e preocupante de todos: os últimos resultados do IDEB que, junto com o Rombo da Previdência, liquidam com o futuro do País.

As investigações, os inquéritos, as operações com nomes criativos, as conduções coercitivas, as prisões temporárias ou não, os julgamentos e eventuais condenações, tudo isso prossegue nesse folhetim oitocentista. O Brasil continua à deriva no século 19. Qualquer dia vamos ter que usar figurino de época.

Os esqueletos vão saindo do armário: os rombos contábeis, os favorecimentos, os investimentos duvidosos dos fundos de pensão e o assalto, via holerite, aos aposentados endividados. Uma procissão de zumbis engravatados deambula na direção da Polícia Federal. Ninguém consegue dormir direito.

Os municípios, os estados, o Poder Federal. Todos quebrados, fazem contas coçando a cabeça. Parecem até um pai de família assalariado que não sabe como chegar ao final do mês.

Mas tudo isso, como já disse, são apenas sintomas.

Os sintomas incomodam, mas não adianta engolir uma aspirina achando que vai passar. A profundidade e a extensão da crise estrutural da Nação Brasileira são enormes.

Alguns segmentos da população já estão sentindo isso na carne. É o pessoal do setor privado. Precisamos fazer um ajuste severo nos gastos públicos. Os custos da máquina do Estado, as relações trabalhistas anacrônicas, partidos de aluguel e, como se tudo isso ainda fosse pouco, o corporativismo no país, que ainda é muito forte. Todos entendem que é necessário fazer sacrifícios desde que não seja com os seus privilégios.

Estabilidade no emprego, quinquênios, biênios, licenças-prêmios, isonomias, greves remuneradas, aposentadorias privilegiadas. E toca de greves, manifestações, locautes e boicotes, sem falar na baixíssima produtividade. São os ossos da democracia. O clima de incertezas e instabilidade só dificulta a recuperação da confiança no País e a retomada nos investimentos.

O Brasil ainda não derrotou o populismo e a demagogia. Longe disso, continuam muito vivos com Lula e seus capangas, que têm como única possibilidade de sobrevivência a continuação da crise e do marasmo.

Na solidão do gabinete presidencial, em Brasília, a ficha acaba caindo… ou não.

Existe uma distância enorme entre ser presidente do PMDB e ser presidente do Brasil. Temer almeja um lugar digno na História? Vai se transformar de Nosferatu em estadista?

E o Renan Calheiros? Cadê? O que ele quis dizer ao dar posse ao presidente Temer com a expressão “Tamo Junto!”? Como é que se explicam os inúmeros processos de Renan, há anos repousando no STF em berço esplêndido? Aliás, por que ainda nenhum político foi punido pelos tribunais? Ouvi dizer em algum lugar, não sei onde nem sei por quem, que membros do poder Judiciário são citados em delações premiadas. Ou será que no Judiciário brasileiro só existem vestais imaculadas?

Uma coisa é certa: o povo brasileiro não tem direito a foro privilegiado.

Quanto mais grave o quadro, mais dolorosa é a terapêutica. E no momento o único caminho possível é pelo resgate do patrimônio ético do País. Não tem jeito.

E tenho dito.

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POLÍTICA E PODER

marcelo

Eis que a Operação Lava Jato se aproxima do seu clímax. A novela interminável, que começou no mensalão, vem se arrastando, junto com o Brasil, numa direção até agora desconhecida. Como tudo isso vai acabar? Essa é a pergunta a que ninguém consegue responder.

Depois dos empresários, altos executivos, lobistas, doleiros e funcionários de carreira, vai chegando a hora dos políticos. Hora esta que, misteriosamente, é o mais possível retardada.

E lá vêm eles em procissão, contritos, rabo entre as pernas, com cara de cachorrinho que quebrou a louça: Lobão, Sarney, Collor, Cunha, Dilma, Lula, Renan e tantos outros. Junto com eles, nesse arrastão da bandalheira, um monte de peixes menores.

Manobras são feitas na cara-dura. No instante em que escrevo este post, comenta-se o final da obrigatoriedade do cumprimento de prisão por réus condenados em segunda instância. A gravação do telefonema entre Lula e Dilma, comprovando o intuito dos dois de obstruir os trabalhos da Justiça, é cancelada como prova. Motivo: foi feita depois da hora estipulada para a escuta telefônica. Aconteceu, todos ouviram, ninguém negou, mas não vale como prova por uma questão de ponteiros do relógio. Seria cômico se não fosse trágico.

Mas vamos supor, imaginar, sonhar, devanear… que o trabalho do Juiz Sérgio Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal seja levado às últimas consequências. Debalde foram as tentativas de “melar” tudo, prática comum deste Brasil velho e encarquilhado, que cisma de não querer sair da Idade Média e da Ilha de Curupu.

Supunhetemos então, pois, afinal, sonhar não custa nada. Haverá no país uma mudança radical na prática política? Quem sabe? Não deixaria de ser uma bela oportunidade…

Se a cambada acima listada finalmente sair da História pela porta dos fundos para entrar na cadeia, o Brasil poderá assistir a um fenômeno inédito. Um verdadeiro milagre da Providência Divina. E mais: em meio a tanto desemprego, um enorme vazio vai se abrir no vasto campo da política. Haverá vagas para novos protagonistas na política brasileira.

Àqueles que pensam em se candidatar ao exercício dessa tarefa tão importante, coloco aqui algumas divagações sobre este que talvez seja o mais sofisticado e importante meio de convívio social, uma das maiores conquistas da Civilização: a Política e o exercício do Poder. A nobre arte da Política que, curiosamente, tem a capacidade de atrair toda sorte de aventureiros, demagogos, desonestos e picaretas.

O exercício da Política como deve ser, reta e transparente, exige dedicação integral e exclusiva.

A política é uma profissão e o profissional desse ofício tem que saber viver de seus proventos de político ou de economias de trabalhos anteriores. A vida pública requer, como tudo nesta vida, vocação.

Se alguém se dispuser a entrar para a política – refiro-me a um novo ambiente político, não este em que vivemos até então –, desde logo já vou avisando: para entrar para a política institucional, tem que ter uma reserva financeira e/ou não ter ninguém que dependa financeiramente de você. Digo isso por experiência própria.

A ideia contida no exercício do poder é transformar a sociedade para melhor. Para tanto, exige preparo, equilíbrio, experiência, sensibilidade e capacidade de entender o todo. No curto e no longo prazo. Não é por acaso que em sociedades primitivas o poder, ou pelo menos uma parte significativa dele, é exercido pelo “conselho dos anciãos”. É a sabedoria e o equilíbrio dos antigos a serviço da coletividade.

E, por fim, o mais importante: o bom político tem que saber formular hipóteses, propor novos caminhos e ser capaz de seduzir e conduzir a sociedade pelas veredas desconhecidas do futuro. O bom político é criativo e ousado.

Transformar a sociedade e o mundo que nos cerca em algo melhor do que havíamos encontrado é um baita de um desafio.

O bom político é como um bom ator: tem que saber seduzir a plateia para a sua narrativa. Saber emocionar, como Winston Churchill, que conseguiu convencer o povo inglês a entrar na guerra quando a maioria era contra. Não é à toa que Bill Clinton afirma que “a política é o show business dos feios”. É por isso que tanto a política como o teatro atraem pessoas narcisistas, egocêntricas e, muitas vezes, carentes e inseguras.

O poder traz consigo o que chamamos de “mais-valia erótica”. O exercício do poder tem uma enorme carga de erotismo e perversão. O poder é um Viagra natural. Não é à toa que a bela esposa do presidente Temer é muito mais jovem do que ele.

Fico comovido com o romance suburbano e cafona entre o Lula e Rosemary Noronha, corneando a Dona Marisa no Aerolula. D. Marisa, aquela que tem uma estranha obsessão por mandar os outros enfiar objetos estranhos em locais singulares da anatomia humana… Nem o Nelson Rodrigues seria capaz de imaginar uma coisa dessas. Junta-se a isso a cobertura brega no Guarujá e o sítio em Atibaia e temos um ótimo enredo e cenário para um conto.

O poder anda de mãos dadas com a tirania. Mas sobre isso já escrevi e estou sem paciência de repetir tudo aqui. Se estiver interessado, veja aqui.

E tenho dito.

 

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E agora, Madureira? O que vai acontecer?

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Apesar de não ser pitonisa, tenho acertado bastante nos últimos tempos. Não se trata de nenhum dom sobrenatural. Nada além do que cultivar os hábitos de informar-se, observar, deduzir, intuir e, o mais importante, formular hipóteses e testá-las ao longo da jornada.

Quem assistiu a minha participação naquele já distante Manhattan Connection em outubro de 2010, deve lembrar. Afirmei que o Brasil era governado por uma quadrilha de cafajestes e que levaria gerações para o país se recuperar dos danos causados pelo lulopetismo. Essas afirmações me custaram muito caro, principalmente na profissão, mas não me arrependo.

Mais recentemente afirmei que o impeachment era apenas mais um capítulo da novela e que a única alternativa era seguir rigorosamente a ordem constitucional e que, mesmo assim, não seria nada fácil. Adverti que, com a saída do PT e seus capangas do poder, nos confrontaríamos com as reais dimensões da devastação na nossa economia, na nossa política e na sociedade.

O que se coloca para os brasileiros agora é arregaçar as mangas para uma longa e penosa reconstrução. Os próximos anos serão muito difíceis e o Brasil irá na mesma direção da operação Lava Jato e congêneres. Se forem levadas às últimas consequências, quem conseguirá sobreviver entre os políticos, empresários e gestores públicos e privados envolvidos?

O Brasil arcaico vai se desmanchando ao mesmo tempo que algo novo vai se formando. Só não se sabe bem o quê.

Quanto mais a operação Lava Jato e suas coirmãs vão se aprofundando, maior a devastação na plutocracia nacional, criando um hiato na política institucional. Acontece que na política não existe o espaço vazio.

Para os novos atores da política que vão chegar é que proponho esta provocação acerca do exercício do poder e da tirania, uma tentativa para não repetirmos no futuro os equívocos do passado.

Refiro-me ao conceito moderno de tirano/tirania, em oposição ao modelo da Grécia Clássica que deu origem aos termos.

A tirania desperta o ditador que existe dentro de cada um de nós e a ditadura é uma forma autoritária do exercício do poder e, por isso mesmo, traz consigo um grande risco de se incorrer em enormes equívocos e injustiças.

A tirania leva ao erro, pois o tirano se isola no poder a salvo de qualquer crítica ou julgamento.

A tirania é diretamente proporcional ao poder que se tem e pode ser horizontal ou vertical. A tirania pode ser exercida no casamento, na família, no trabalho e, claro, na política. O exercício virtuoso do poder requer entender e controlar essa tirania. Liderar não é ser tirano; ao contrário, a liderança exige o convencimento político.

Combater a tirania é um exercício permanente que revela o estadista.

Vale a pena dar uma espiada em My Life, livro de memórias do ex-presidente Bill Clinton, um verdadeiro estadista na minha opinião. Em My Life, um tratado de prática política, Clinton discorre sobre poder e tirania usando como exemplo a sua experiência pessoal no episódio com a estagiária Monica Lewinsky, essa mesma, a do charuto: “Fiz porque podia, mas… não devia”. O poder é sedutor, produzindo o que se chama de mais-valia erótica. Poder, tirania e vaidade. Ao longo desse raciocínio, Bill Clinton nos explica por que “a política é o show business dos feios”.

No exercício do poder há que ser vigilante com a tirania, a soberba, a vaidade e sempre se precavendo contra os áulicos e aproveitadores que se aproximam em alcateias.

Como exercer o poder de forma virtuosa? Sendo modesto, escutando e observando em torno, jamais se isolando da realidade. E, quando errar, ter a grandeza de reconhecer o erro e voltar atrás. Tudo isso sem deixar de ser ousado.

O estadista virtuoso não permite que a tirania lhe suba à cabeça.

E tenho dito.

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O X DO PROBLEMA

Corrupção

O provincianismo é outra característica muito peculiar do brasileiro. É a incapacidade de enxergar o mundo ao redor, de querer entender o tempo em que vive. A nossa vista não ultrapassa o buraco do umbigo. Por isso mesmo nos referimos a tudo que não está situado no Brasil como “lá fora”. É muito sintomático. Uma forma curiosa e simplista de tratar o resto do mundo como uma coisa só, uniforme, e que somente em algumas circunstâncias nos diz respeito. Basta dar uma espiada na cobertura internacional da imprensa brasileira.

O provincianismo é espantoso principalmente na nossa upper class (e que se acredita cosmopolita). Nossa aristocracia, por mais que frequente Nova Iorque, Paris, Zurique ou as Ilhas Cayman, se recusa a se inserir no mundo contemporâneo. Pois é aí que entra a dialética: esse provincianismo está matando nosso secular coronelismo.

Aferrados aos seus feudos, nossos coronéis e os seus criminalistas ainda não se deram conta das mudanças estruturais que estão acontecendo, como eles dizem, “lá fora”.
O 11 de setembro foi um marco importante nesse processo. Os estados centrais intensificaram os sistemas de vigilância e controle. As sociedades mais avançadas entenderam que só se controla o terrorismo, o crime e outras ameaças ao Estado e à comunidade através de uma vigilância intensa e sistemática do fluxo de informações, inclusive do registro visual “on the spot”.

É praticamente impossível hoje se fazer alguma coisa sem que não se seja filmado por câmeras. A privacidade é o custo da segurança. Além disso, e talvez mais importante, é o controle das movimentações financeiras mais relevantes. Acordos internacionais tornam esse sistema cada vez mais capilarizado. A partir de 2018, fecha-se o cerco e será praticamente impossível a “lavagem” de dinheiro sujo. Não que a “bandidagem” não seja capaz de inventar novos meios de troca para obter a sua renda ilegal, mas esses processos terão que ser cada vez mais criativos, sofisticados e, portanto, mais caros.

Esse foi o caminho encontrado pelos EUA e seus aliados para se defender do terrorismo e da bandidagem organizada, duas organizações que sempre andaram de mãos dadas.

Por outro lado, e isso Carlos Marx sequer sonhou, a pulverização do Capital intensificou-se. As grandes corporações são propriedade de fundos de investimento e, portanto, de milhões de pessoas físicas que não admitem a prática da corrupção porque aumentam os custos das empresas, diminuindo os seus dividendos.

A corrupção não é apenas de uma questão moral, pois diminui a eficiência do capital no sentido contrário à racionalidade da Economia.

Eis o busílis! A operação Lava Jato, concebida e executada por jovens juízes, procuradores e policiais, feriu gravemente a nossa plutocracia provinciana. Esta rapaziada tem sólida formação moral e técnica. Muitos estudaram em centros prestigiados e conhecem profundamente as novas tecnologias de controle do fluxo de informação. Se dependêssemos da velha guarda da nossa Justiça, as coisas não teriam a menor chance de mudar. Hoje a Lava Jato é irreversível e está em consonância com as exigências de compliance que estão acontecendo “lá fora”.

Mas vejam bem: a recuperação do nosso Patrimônio Cívico (termo que pego emprestado do André Lara Resende), não é jogo jogado. O arcaico brasileiro tem uma inacreditável capacidade de se adaptar e ainda está no controle da máquina. Cabe à opinião pública, a sociedade organizada, fazer pé firme no apoio a essas transformações.

E tenho dito.

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Cultura é novela, e novela é cultura

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A situação do Brasil é muito complicada. Temos um governo provisório, pelo menos até o julgamento definitivo do impeachment pelo Senado. A situação das contas públicas é gravíssima. O déficit público é monstruoso. Medidas duras e impopulares terão que ser tomadas antes que as finanças do país entrem em colapso. Para isso precisa o governo de apoio do Congresso Nacional.

O nosso Parlamento, por sua vez, vive um momento de instabilidade. Vários deputados e senadores estão apreensivos sob a ameaça da Justiça na operação Lava Jato.

A meu juízo, o governo errou ao sucumbir à classe artística. Abriu um precedente perigoso quando vai ter que tomar outras medidas que irão desagradar muitos outros segmentos da vida brasileira. A sociedade precisa entender que não se trata de uma política intencional de maldade “neoliberal assassina”, mas as circunstâncias assim a exigem.

Para ser entendido e apoiado pelo conjunto da Nação, o governo precisa estabelecer um canal direto com a sociedade, esclarecendo com simplicidade a natureza e a dimensão dos nossos problemas.

Até o momento prevalece a narrativa (como se diz hoje em dia) petista de “golpe”, quando, na verdade, além do ataque virtual à democracia e ao código penal, o lulopetismo destruiu literalmente a União e maculou seriamente a reputação do Brasil no exterior.

O governo tem que adotar uma política de comunicação pró-ativa e intensiva. Lançar mão do “papo reto”, claro e direto. A batalha pela opinião pública precisa ser ganha.

As medidas amargas de austeridade tem que ser debitadas na conta do PT e do lulopetismo simplesmente porque esta é a verdade.

O único que fez uma manifestação embasada e coerente em defesa do Ministério da Cultura foi o Gabeira, que, por sinal, não é artista.

Ao incorporar o MinC ao Ministério da Educação, o governo Temer deveria ter anunciado também uma política cultural em tempos de crise. Ou seja, apoiar prioritariamente as manifestações culturais que sem o patrocínio do Estado não se sustentam. Museus, bibliotecas públicas, orquestras sinfônicas, obras do patrimônio histórico e artístico, manifestações folclóricas regionais e por aí vai…

Ficam de fora as atividades artísticas com fins comerciais e promocionais, tais como shows, teatro, filmes e afins. Estas ficariam a cargo de patrocínio privado e sem o benefício da renúncia fiscal ou qualquer outro apoio estatal.

A classe artística se mostrou, em sua maioria, agressiva e intolerante. Não apresentou contraditório, não propôs uma negociação ou alternativas. Construíram uma pseudounanimidade na base da intimidação. Os artistas mostraram, através de um corporativismo rasteiro, que se consideram donatários da cultura brasileira. Não são.

Ninguém da categoria teve a coragem de apoiar de público a medida do governo. Só em conversas particulares, aos cochichos. No máximo, algumas manifestações ambíguas.

Na minha modesta opinião, o governo agiu de forma errada numa medida justa.

E tenho dito.

 

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MINISTÉRIO DA CULTURA: FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO.

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O Brasil está saindo de uma hecatombe. Em algumas semanas teremos uma ideia do tamanho da devastação promovida pelo lulopetismo em mais de 13 anos no poder. É como se estivéssemos saindo de uma guerra em que fomos derrotados. A conta chegou e a sociedade brasileira que vai ter que, com o seu trabalho e sacrifício, tapar esse enorme buraco. Vai ser muito duro, pessoal…

O Brasil está quebrado.

O mais desolador é saber que os mais sacrificados nessa história são os pobres, aqueles que não têm nenhuma economia, nenhuma poupança, nenhuma “gordura” para queimar. Endividados e desempregados, a saúde pública em frangalhos, sem acesso à Educação e a violência “comendo solta” nas favelas e periferias.

Temos aí o presidente Michel Temer. E Temer é o que temos dentro dos princípios constitucionais e da democracia. Não é o governo dos meus sonhos, mas é um governo apesar dos piccianis, kassabs e que tais. Reclamam que no Ministério não tem mulheres, nem negros ou índios. É fato. Mas também não tem, me parece, demagogia.

É tempo de pacificar o país e dar as mãos para nos ocupar dos grandes problemas nacionais. O resto fica para depois.

Temos que ser generosos, desprendidos e pensar no bem comum.

Neste contexto o que me deixa perplexo é a reação de egoísmo corporativista da classe artística injuriada porque o Ministério da Cultura foi incorporado ao Ministério da Educação.

Nossos artistas não são diferentes do resto dos brasileiros. No fundo e no raso, todos nós sonhamos com uma “boquinha” no Estado. Se for pobre, as migalhas de uma “Bolsa Qualquer Coisa” já estão de bom tamanho. A classe média batalha por um emprego público, que não cobra desempenho nem demite, e os ricos adoram uma Bolsa BNDES, um incentivo fiscal, um financiamento do Banco do Brasil, uma obra superfaturada… qualquer coisa serve. Francamente, desse jeito não se constrói Nação nenhuma.

Nós brasileiros temos que aprender a diferença entre trabalho e emprego. O trabalho gera riqueza e constrói o futuro, o emprego empurra o futuro com a barriga.

Na minha opinião, o Ministério da Cultura se preocupa mais com os artistas (sempre os mesmos) do que com a Cultura. A Cultura de um povo não é propriedade privada da classe artística.

Quanto menos Estado melhor. Menos aparelho de Estado significa mais eficiência e eficácia na aplicação de políticas públicas.

Acredito que as atividades culturais que realmente necessitam de apoio do Estado – vale dizer, do dinheiro público – são aquelas que comprovadamente se mostram incapazes de se autossustentar: as orquestras sinfônicas, os museus, as manifestações folclóricas, o artesanato…

E quem é que no Ministério da Cultura vai dizer qual projeto e quem deve ser beneficiado por dinheiro público? Faz sentido que o Estado subsidie a árvore de Natal do Bradesco ou o Circo de Soleil? Poxa, o Circo Garcia, que eu saiba, percorre o Brasil de norte a sul sem Lei Rouanet.

Depender de governo faz do artista refém dos poderosos de plantão. O que o artista de verdade quer senão a sua liberdade de criação?

Artistas consagrados precisam de dinheiro público? Será que não conseguem viver dos seus admiradores?

A atividade artística é um segmento da Cultura. É muito importante, mas é um segmento. Na medida em que o trabalho artístico é uma profissão, um meio de se ganhar a vida, trata-se também de um negócio. É o Show Business.

Há que se separar o que é show business do que é Cultura, como se separa Pesquisa Básica de Pesquisa Aplicada.

Nossos artistas reclamam que sem a ajuda do Estado não conseguem produzir seus espetáculos. Não se consegue mais viver de bilheteria, temporadas e excursões, como já se viveu antigamente (e sem leis de incentivo). Verdade. Se não se vive de bilheteria é porque algo está muito errado. Por que será que os nossos artistas e produtores culturais não conseguem rever os seus custos de produção? Quanto custa hoje o aluguel de um teatro? Um figurino? Um iluminador? Um contrarregra? Esses valores são reais? (com trocadilho, faz favor).

Será que o talento de nossos artistas é tão grande que, sem o adjutório do governo, apreciá-lo fica fora de alcance do bolso do povo?

Devemos referenciar os nossos custos e cachês com a realidade do país. Temos também que aumentar a eficiência e a produtividade da mão de obra em nossas produções culturais.

Ninguém faz arte por caridade, muito pelo contrário. E isso eu entendo e justifico. Mas os valores têm que se adequar à nossa realidade. Ou então que se vá tentar a sorte em Hollywood.

Se a produção é cara, o ingresso é caro e o teatro e o cinema ficam vazios. Viram igreja evangélica. E, querendo ou não, religião também é cultura.

Outra coisa que tem que acabar é esse negócio de meia-entrada, coisa que só beneficia os picaretas e a indústria de carteirinhas de estudante e de idoso.

Nossa classe artística tem que entender que o dinheiro das leis de incentivo vem da renúncia fiscal do governo, vem do bolso do cidadão que, além de Cultura, também precisa de saneamento, educação, saúde, transporte, emprego, segurança… Não dá para comprar tudo, “crianças”, e além do mais o Tesouro está falido. Está falido e quem “quebrou” o país foi o PT, Lula e sua quadrilha e seus comparsas. Procurem saber com o juiz Sérgio Moro em Curitiba.

Sinto muito, pessoal, mas desta vez não vai dar para ver o Luiz Carlos Barreto, vulgo “Barretão” (parece apodo de bandido), na cerimônia de posse já pendurado no saco do ministro da vez. Afinal, parafraseando o bardo: uma verba é uma verba, é uma verba.

A arte é prioridade. O artista, pelo menos no momento, não é uma prioridade. Tem que ter, além da cultura, hospital, educação, segurança. E o dinheiro, infelizmente, não dá para tudo; tem que ter prioridades.

Estou iniciando um novo negócio com as minhas economias e o dinheiro de investidores privados que confiam no meu trabalho. Estou fundando uma produtora de conteúdo para internet. Para isso conto com a minha equipe de colaboradores. Estamos todos no risco e com muita vontade de trabalhar e sermos todos bem-sucedidos. Só dependemos de nós mesmos e isso é muito bom!

Não devemos favores a ninguém e queremos ganhar dinheiro, muito dinheiro, divertindo e informando o público. Não tem nada de feio em ganhar dinheiro honestamente.

Jack Warner, fundador da Warner Brothers, disse para sua mãe: “Vou ficar rico! Inventei um negócio que as pessoas pagam antes de ver e depois saem felizes!”.

O artista tem que ir aonde o povo está. Há mais de um ano, Hubert e eu publicamos o Agamenon religiosamente, toda quinta-feira, no site O Antagonista. Por esse trabalho, até hoje não ganhamos um tostão. Se isso não se chama compromisso com a arte, então me digam o que é.

Neste momento histórico, todos temos que ser generosos e confiar na nossa capacidade de trabalho. Só assim, no futuro, vamos nos orgulhar do que fizemos nestes tempos tão difíceis.

E tenho dito.

11.1mil
ao todo.