Vá entender as mulheres

Entre constrangido e envergonhado, adquiri um exemplar do campeão de vendas das livrarias Cinquenta Tons de Cinza, obra da senhora E.L. James. Afinal, precisava saber por que e, principalmente, como esse livro faz com que as mulheres subam pelas paredes feito lagartixas profissionais. Chegando em casa, já tomado de sofreguidão e com o coração aos pulos, tranquei-me no escritório.

Apalpei e cheirei o volume para verificar se havia alguma tisana ou alguma poção mágica embebendo as páginas e que fazem as fêmeas, num frêmito de volúpia sensual, devorar capítulos atrás de capítulos, até que, então saciadas, larguem lânguidas o exemplar num canto da alcova. Constatado que, pelo menos o meu exemplar, de diferente não tinha nada, dediquei-me à leitura de tal ingresia.

Anastasia (nada a ver com o governador de Minas) Steele é estudante e comerciária, tem um iPod e um Fusca. Christian Grey (grey, cinza na grafia britânica e gray, na americana, essa é a “sacada inteligente”, pessoal) é lindo, bilionário, tem um Audi cupê, curte ópera de Delibes, pilota um helicóptero EC 135 Eurocopter nas horas vagas e serve um finíssimo branco Pouilly-Fumé.

Capítulo 7 e nada de sacanagem. Eles estabelecem uma relação submissa-dominador por meio de um contrato detalhado. O tal contrato lista tudo o que a gente pede para as mulheres fazerem e elas recusam, indignadas. Parece que esse cara é meio boiola. Ufa! Finalmente no capítulo 8 começa o vuco-vuco e a moça (ex-moça) perde a virgindade na página 107. Mas o Grey faz questão de usar camisinha (ficaria melhor traduzido por condom). Tudo é muito politicamente correto. A submissa e o dominador estabelecem então uma relação sadomasoquista.  Bidu! É impressionante como ele gosta de espancar o derrière da moça.

Qualquer psicanalista de porta de inconsciente interpretaria isso de primeira. O mais engraçado é que eles se comunicam por e-mail. Não devem ser muito familiarizados com as alternativas da internet. O estranho é que o Mr. Grey usa o seu endereço corporativo nas missivas, que vacilo. Sinceramente (e vejam como sou intelectual), gostei mais de O Amante de Lady Chatterley, do D.H. Lawrence. Vá entender as mulheres! Queria ver se o Mr. Christian se chamasse Agenor e fosse caixa de banco. Duvido que a Anastasia (nada a ver com o governador de Minas) iria dar todo esse mole pra ele.

Texto originalmente publicado na revista VEJA, edição 2288, 2012.