A direita em evidência

Esta foi uma entrevista que concedi à aluna de comunicação Ludmila Bernardes, da UniBh – Belo Horizonte.

Ludmila – Por que os meios de comunicação têm investido cada vez mais em jornalistas e colunistas que se assumem conservadores politicamente, ou abertamente de direita?
Madureira – Na minha opinião, depois do final da Guerra Fria os conceitos de “direita” e “esquerda” não fazem mais sentido. Na medida em que o Socialismo Real faliu enquanto modelo, e o Capitalismo não consegue dar resposta a várias demandas (inclusive morais) da Sociedade, ser de direita ou de esquerda são visões anacrônicas do contemporâneo.

Quem é de esquerda hoje é o quê? É a favor da socialização dos meios de produção? A relação e as contradições Capital x Trabalho são as mesmas do século XIX, quando Marx as descreveu? Quem é direita é a favor do quê? O que existe é muito cinismo. A questão que está colocada hoje é : que tipo de Sociedade queremos construir? Qual é a nossa nova Utopia?

Não diria que todos os jornalistas carimbados de direita sejam conservadores. Eles, em primeiro lugar, exercem o direito de de crítica. E isso é bom. Em segundo lugar, não me parecem conservadores, mas sim pessoas com uma visão mais aguda e imparcial, e portanto muito mais perplexa com as complexidades e desafios do mundo contemporâneo.

Existem, sim, misturados naquilo que vocês chamam de “direita” alguns cínicos. Mas existem cínicos na esquerda também. Cínicos e hipócritas. Na dita “esquerda” latino-americana só vejo demagogia, populismo, patrimonialismo, incompetência e ignorância. Infelizmente. Digo isso porque minha formação é toda de esquerda: Marx, Engels, Gramsci, até Lenin!!! Materialismo dialético é por aí…

 

A direita mantém a mesma ideologia do passado? Se não, quais fatores levaram à mudança?
A “direita” moderna, por definição, não é ideológica, ela é pragmática. Até mesmo as “experiências” anticomunistas do século passado se autodenominavam “socialistas”, como o NSDAP – Partido Nazista Alemão – e o Partido Fascista Italiano. Von Mises, Milton Friedman, a Escola de Chicago e outros pensadores liberais, na minha opinião, não são ideológicos. Nunca vi um partido político expressando estes pensamentos no seu programa ou estatuto.

marcelo

Os jornais estão dando mais abertura ao pensamento oposicionista ou isso mais tem a ver com negócios?
Órgãos de comunicação têm que ser plurais e apresentar todos os pontos de vista relevantes. Hoje, mais do que tudo, órgão de imprensa parcial não sobrevive como business, perde a credibilidade. O problema é que os articulistas críticos são muito mais preparados que os defensores do status quo. O país em que vivemos é capitalista; até onde sei, vale a lógica pragmática do capitalismo.

Há um desejo de fortalecimento da mídia por trás dos ideais de direita?
A mídia sempre existiu como um quarto poder. Mas não se deve subestimar a capacidade de discernimento crítico da população.

Como era o posicionamento dos jornais nos tempos em que a dicotomia era estabelecida com mais vigor, politicamente falando?
Sinceramente, não entendi a pergunta. Dicotomia entre o que e o quê?

Os conservadores até um tempo atrás se envergonhavam em assumir essa postura, pelo peso do passado, porém se estruturavam através de blogs e grupos como o valalha 88, pela internet. Agora os ideais desses grupos conseguiram um espaço na mídia representados por expoentes de sucesso que começam a conquistar mais seguidores. O que podemos esperar dessa nova fase?
Vejam bem, sou um democrata radical. Acho que, obedecidas as regras do jogo democrático, todo confronto civilizado de ideias é bem-vindo.

A direita continua, em sua maioria, sendo representada pelos mais favorecidos economicamente? Qual o motivo?
Um sujeito que montou uma barraquinha cachorro-quente e vai indo bem nos negócios seria, na sua concepção, uma pessoa de “direita”? Um operário especializado do ABCD em São Paulo pode ser considerado um “explorado”?
Os Bancos doaram 16 milhões de reais para a campanha do PT e somente R$ 6 milhões para a campanha da Marina. Os banqueiros são de “esquerda”? Lula e Dilma aparecem nos palanques com Jader Barbalho, Sarney, Collor de Mello, Renan Calheiros… Essa é a nossa “esquerda”?

Como a internet tem sido utilizada na discussão desses ideais?
Bem utilizada e mal utilizada, como tudo nessa vida.

É considerado, ainda, pequeno o espaço de debate que os estudiosos dos ideais de direita possuem no Brasil?
Talvez, pois não recebem, acredito, verbas públicas.

O que defendem esses idealistas?
Sei lá! Pergunte a eles!