QUINTA-FEIRA (RUBRO) NEGRA

Quinta-feira, quarto dia de viagem. Depois de uma parada em San Pedro de Atacama, na beirola do deserto de mesmo nome, caímos de novo na estrada. Dormia o sono dos justos e fatigados pelas mais de 72 horas de jornada quando percebo que o ônibus está parado. Dou uma olhada no relógio: 4 e meia da manhã. Voltei a dormir. Acordo lá pelas oito da manhã e percebo que o coletivo continua parado no mesmo lugar.

Fui averiguar o que estava acontecendo. Uma barreira fechava a estrada queimando pneus. Estávamos atrás de uma fila enorme de veículos retidos. Manifestantes, de rosto coberto, carregavam pedaços de pau ameaçadores.

Acredito que muitos de vocês estejam acompanhando as manifestações de rua no Chile. A América do Sul anda agitada. No Peru o presidente dissolveu o congresso semanas atrás. Na Bolívia o ex-presidente Evo Morales foge para o exilio e o país fica acéfalo. Crise também no Equador e a Venezuela já vive uma situação de caos há muito tempo. E também tem o Brasil, mas…bem, o Brasil é melhor deixar para lá. O Brasil faz mal a saúde.

Acredito que a crise chilena tem algumas peculiaridades, tem mais a ver com as manifestações dos gilets jaunes da França e outros quebra-quebras na Europa. O Chile tem uma economia muita mais estável que os outros países de cone sul apresentando estatísticas muito melhores que o resto do continente. Inclusive com relação a índices de qualidade de vida da população.

As reinvindicações dos chilenos têm mais semelhança com a crise estrutural que o ocidente atravessa. Por força do desequilíbrio das contas públicas frente as despesas do Estado e o processo recorrente de concentração de renda, mais a diminuição dos salários e postos de trabalho consequência conta da revolução tecnológica que gera um clima de incerteza e insegurança em toda população.

Concordo que esta minha análise é bem grosseira e superficial, mas é o que consigo produzir a esta altura da viagem.

O fato é que o povo injuriado fechou a estrada. E são vários bloqueios. Depois de seis horas parados em pleno deserto de Atacama, o mais árido do mundo, no meio do nada e perto de coisa nenhuma conseguimos ultrapassar uma barreira.

Não adiantou nada. Alguns quilômetros mais à frente outro bloqueio maior e com um pessoal ainda mais ameaçador. De repente, do meio do nada, desce um grupo de torcida organizada. Estes caras não são brincadeira. Confesso que foi um momento bastante tenso. Se houvesse um confronto entre os dois grupos o nosso ônibus estava exatamente na linha de frente. E se os manifestantes resolvessem apedrejar o nosso buzão? Ou, pior, resolvessem incendiar o veiculo?

Multidão enfurecida é incontrolável.

De repente, num movimento espontâneo, os passageiros desceram dos ônibus e foram confraternizar, solidários, com os chilenos. O clima virou de celebração e cantoria. Inacreditável. Foi assim que conseguimos passar pelo último e pior bloqueio. Quando por fim embalamos na estrada, retomando a jornada, já eram mais de cinco horas da tarde. Foram mais de 12 horas de batalha, sem comer nem beber.

Agora temos um sinal razoável de internet e tomamos conhecimento do estado de saúde do Galvão Bueno o do acidente com o Gugu Liberato. A bruxa anda solta.

Estamos fechando o quarto dia do trajeto e hoje foi pura adrenalina. Admito que estou exausto. Atravessamos a fronteira Chile-Peru. Percorremos o trecho entre as cidades de Arica (Chile) e Tacna, já no Peru. A minha esquerda o Pacífico, na direita os contrafortes (sempre quis usar esta palavra) da Cordilheira dos Andes. Ainda temos cerca de 24 horas de viagem até Lima, em alguns quilômetros faremos uma parada em Tacna para abastecer, jantar e tomar banho. Provavelmente (e oxalá – também sempre quis usar este vocábulo ) o nossa derradeira ultima até a capital peruana.

Bom, no Peru já cheguei.

 

Marcelo Madureira

 

 URUBUSER

A quarta-feira amanhece e continuamos no Buzão. Ontem durante uma gravação lancei a marca da viagem que inventei junto com o meu primo Hélio: Urubuser.

Quando soube faria esta viagem maluca na companhia de rubro-negros o Helinho mandou na lata: “…então vai ser um Urubus !”. Não- completei de bate-pronto- vai ser Urubuser !

Pegou na veia o #urubuser.

Pois é, praticamente 48 horas de viagem e só paramos 4 vezes. São estirões de 12 horas direto. O problema maior é o banho. Brasileiro é obcecado por banho. Seja rico, seja pobre, jovem ou velho, gordo ou magro, LGBT, mulher ou homem, branco, azul ou cafuzo. Brasileiro quer tomar banho.

Fico matutando se essa obsessão não seria uma herança genético-cultural dos nossos índios. Na minha modesta opinião a grande vantagem de ser brasileiro é essa nossa mistureba, essa geléia geral, de tudo que é DNA e cultura que nos proporciona características tão variadas que fica difícil de identificar um brasileiro senão pelo idioma.

Você pode se deparar com um cara amarelo, de olho puxado, cabelo liso e jurar que é japonês mas se trocar duas palavras vai ver que é brazuca. Podem dizer que deve que não, que deve ser descendente de imigrante japonês. Vai no Programa do Ratinho, faz um DNA do “china” que tenho certeza que você vai encontrar tudo que é tipo de cromossoma no vivente. Eu por exemplo tenho até “finlandês”.

Voltando ao banho. Todo brasileiro tem um pouco de índio e índio toma muito banho, vários por dia. O banho nas culturas indígenas em geral, fora a questão da higiene, também é uma atividade social e recreativa.

Nas paradas dos ônibus a primeira pergunta é: tem banho? O problema é que somos muitos, todos chegando ao mesmo tempo. A infraestrutura sanitária não dá conta da demanda. Nas paradas argentinas só tem um chuveiro para cada gênero humano e pior, banho só em dinheiro vivo, ninguém aceita o nosso real, nem cartão de crédito. Banho só com peso argentino.

Vira um banzé. A galera fica revoltada alguns, mais injuriados, ameaçam barbarizar os sanitários. Primeiro barraco da viagem. Nosso segurança entra em ação e acalma os ânimos, mas o clima fica pesado. Nas conversas você pode tirar onda dizendo quantos banhos já tomou durante a jornada.

Agora, enquanto escrevo, no trecho entre a fronteira Argentina-Chile e a cidade de San Pedro de Atacama já completamos 55 horas ininterruptas de passeio. Tenho certeza que vocês querem saber quantos banhos já tomei. Vou dizer: zero. Zero banhos em todo o percurso. Prometo que na próxima parada vou pegar um chuveirão. Está previsto um descanso de uma hora e meia, tempo suficiente para banho e uma refeição decente. A primeira desde o almoço de segunda-feira. O problema é que também tenho outras prioridades, preciso enviar matérias e desde ontem nada de sinal de internet. Dá um desespero pois não tem nada o que se possa fazer. Preparei um plano para otimizar estes 90 minutos de parada. Enquanto mandamos matéria ( se existir sinal) vou revezar na transmissão com o Beto, o câmera, no banho. Depois o mesmo revezamento na refeição. Vamos ver se vai dar certo.

Agora estamos atravessando o altiplano andino. O ponto culminante da estrada fica a 4mil e 800 metros acima do nível do mar. O ar fica rarefeito e muita gente passa mal. O mal da montanha é traiçoeiro, não se pode facilitar. O sujeito pode estar muito bem e, de repente, é uma dor de cabeça forte, tonteira ou falta de ar. A primeira coisa é manter a calma, tentar relaxar e respirar mais fundo e mais lento. Alguns fazem uso do oxigênio que o Buser leva à bordo. O segredo é se movimentar o mínimo possível e devagar. Evitar qualquer esforço. Subir ou descer a escada já faz diferença.

O bacana é a solidariedade da moçada. Tudo é compartilhado. Do biscoito aos perrengues, ninguém fica só, já formamos uma irmandade. É a Nação Rubro-Negra.

Escurece e a quarta-feira vai passando, ao longo dia a paisagem fascina. Os Andes são muito bonitos, mas nada de neve. De ser o aquecimento global. A paisagem é pedregosa, desértica. As vezes é tão desolada que parece que estamos em outro planeta. Quilômetros e quilômetros sem enxergar uma viva-alma. Em compensação vimos as primeiras lhamas e guanacos.

Animal curioso a lhama, só serve pela lã. Não é comestível, não dá leite, não puxa arado mas aguenta bem a altitude. Muito raramente passamos por um povoado de uma dezena de casas estilo andino feita de adobe. Tudo muito pobre.

Amanhã é quinta-feira, quarto dia de viagem. Em frente, para Lima. Sempre.

 

Marcelo Madureira

ATRAVESSANDO O MERCOSUL

O Mercosul não funciona. Levamos duas horas para atravessar a fronteira Brasil–Argentina. Justiça seja feita, sair do Brasil é muito fácil. Também, pudera, do jeito que o país está quem é que vai querer impedir alguém de sair?

Entrar na Argentina é uma África, não, talvez seja mais fácil atravessar as fronteiras africanas. O pior é que ninguém pode sair do ônibus enquanto examinam a papelada. Depois toca sair do coletivo para passar a fronteira com a bagagem de mão. Então reembarca para andar 50 metros e, novamente, desembarque para a fiscalização das malas do bagageiro. Felizmente só tenho bagagem de mão. Pensar que 9 horas da manhã já estávamos na região da tríplice fronteira (Paraguai, Argentina e Brasil) e que só fomos liberados ali pelas duas da tarde, em 5 horas rodamos uns 150 quilômetros, se tanto.

Vamos tomar como exemplo a Comunidade Europeia, basta entrar num país da comunidade e pronto, não tem mais que se fazer controle de fronteiras. No caso do Mercosul, como tudo por aqui embaixo, é complicado. Fico imaginando como deve ser o trânsito de mercadorias entre os países do Mercosul: mais um pretexto para aumentar a burocracia, a corrupção e o aumento dos custos de comércio.

Pela manhã paramos 30 minutos para reabastecer já em Foz do Iguaçu. É aquela correria para ir no banheiro, escovar os dentes e engolir um café. Aproveitamos para fazer a “foto oficial” da viagem. Agora já são 15:55 e enfrentamos muita dificuldade para mandar matérias para a base. Principalmente por conta da instabilidade do sinal.

Estamos muito atrasados, a próxima previsão de parada só no final do dia, 30 minutos para abastecer. Entramos na Argentina pela província de Missiones, considerada uma das mais pobres do país, talvez por isso a precariedade na infraestrutura de comunicações. Vamos pela ruta 12 na direção de Posadas, depois Corrientes e em seguida Salta, capital da província de mesmo nome, uma cidade maior e conhecida pelos vinhos. Apesar de ateu praticante estou aqui rezando por um sinal de internet minimamente estável. Temos um monte de material para transmitir.

Completamos 28 horas de viagem, no ônibus as condições de habitabilidade vão se deteriorando como era de se esperar. O que mais incomoda é quando alguém come alguma coisa no ônibus fechado, o cheiro incomoda. Até agora podemos dividir os viajantes em dois grupos distintos. O pessoal mais “animado” que fica na dianteira no segundo andar e os mais tranquilos que preferem ficar quietos mais para os fundos do coletivo. Vamos ver quem chega mais inteiro.

Segundo os cálculos do Lucio, colega de viagem, Rio Lima são 120 horas de viagem, ou seja, mal cumprimos 20% do percurso. Melhor não pensar muito nisso. Lucio é um personagem curioso. Índio, parrudo, socado, típico brasileiro de raiz, 57 anos e viaja só. Veterano da Libertadores de 81, supersticioso confesso, fez questão de vir de ônibus como fez 37 anos atrás. Vendedor atacadista de alimentos “fugiu”do serviço sem avisar o patrão (muitos por aqui estão nesta situação) mas continua trabalhando através do seu ipad atendendo a clientela. Lucio é um dos fundadores da Flamante, uma torcida organizada que completou este ano 50 anos de existência.

Tem também o Danilo, o dono do Doze, o cãozinho que consegui, agosto passado, levantar grana para um tratamento de câncer através das mídias sociais. Por conta desta história Doze e Danilo viraram assunto no Fantástico. Para conseguir os 10 mil reais para a cirurgia e quimioterapia do seu cão, Danilo fez uma rifa do seu bem mais precioso: um ingresso para o Flamengo e Grêmio, a goleada histórica. Danilo é um sujeito especial. O dinheiro do tratamento do Doze é sagrado, como comprar o ingresso para a final da Libertadores? Pegou “emprestado” o cartão de crédito da Renata, sua namorada. Sem avisar, é claro. A moça, com razão ficou três dias sem falar com o namorado.

No meio disso tudo o pai do Danilo em coma por 20 dias no hospital por conta de intercorrências de uma cirurgia. Danilo fica atormentado se vai ou não vai até Lima para a final. Filho único, visita o pai diariamente nessa agonia.

Tem mais um detalhe. Viajar como? Com que grana? Com a ajuda do Papparazo Rubro-Negro consegue um contato na Buser que, sensibilizada com a situação do rubro negro, oferece passagem e estadia. E não é que de um estado muito grave o Seu Nelson, pai do Danilo, sai do coma e começa a melhorar? Não é à toa que o Danilo é um cara superpositivo, pra cima. Não conhece tempo quente. Gostei muito da entrevista que fiz com ele para o YT.

Tem mais um monte de gente interessante aqui. E ainda tenho mais de 90 horas para contar. Hoje vou ficando por aqui. Abraço forte.

 

Marcelo Madureira

 

QUE DOIDEIRA É ESSA MARCELO MADUREIRA?

De partida para Lima, Peru, 5 dias de ônibus.

São cinco dias direto. Vocês devem estar se perguntando o que é que estou fazendo aqui. Eu também. Talvez consiga descobrir até a sexta-feira, previsão para a nossa chegada na capital peruana.

Vou na companhia de algumas dezenas de torcedores fanáticos do Flamengo. Fanáticos e duros, pois é preciso muito amor ao rubro-negro para se dispor a esta façanha: cinco dias de viagem de ônibus, chegando na véspera do jogo, assistir a partida, comemorar (se for o caso) e pegar de novo o busão para mais 5 dias de volta.

Vou, porque quero que ir. Como dizia Sir Mallory, o primeiro a escalar o Everest que dizia “Escalamos a montanha porque ela está lá”. Se não tivesse aceitado a incumbência de cobrir esta odisseia, assistiria ao jogo de casa, pela televisão. Acontece que não troco nada por uma boa história.

Estive em Cuba, na Islândia (no inverno!), no Iran, no Afeganistão, na Coréia do Norte… enfim em um monte de lugares extravagantes sempre em busca de boas histórias. E as boas histórias estão nas pessoas, nos personagens que encontramos ao longo da jornada e que nos vão revelando o mundo em que vivemos, suas contradições, suas misérias e maluquices. Procuro colocar sempre uma dose de bom humor, que é para divertir o povo. Quem assiste e quem participa.

Essa é a minha ideia no Pacato Cidadão quadro que concebi e apresentei em 2010 no Fantástico com a preciosa colaboração do Renato Nogueira, editor, do meu câmera, Roberto Thomé, e da nossa incansável produtora Maria Eugenia Brito. Bons tempos.

Hoje, 18 de novembro de 2019, retomo este projeto agora também como produtor através da FLOCKS.TV. Vamos em busca da Taça Libertadores da América, na grande  final River Plate X Flamengo.

Viajo a convite da BUSER e em colaboração com o Paparazzo Rubro Negro, outro grande canal da internet produzido pela FLOCKS.TV.  

Acabamos partindo com uma hora e dez minutos de atraso mas, afinal, que isso significa em cinco dias de trajeto?  A impressão é que tem mais repórter fazendo a cobertura do que torcedor propriamente dito. Até o Caco Barcellos, da Globo vai cobrindo a aventura. O ônibus é muito bom, um alívio para quem vai enfrentar 5 mil e 800 quilômetros de estrada. A poltrona vira uma cama, tem monitor de TV, entrada USB, ar condicionado, banheiro limpíssimo (pelo menos na saída), água gelada, cobertor, travesseiro e três motoristas

Jorge, o segurança, Bianca representante da Buser fazem uma preleção. Não pode bebida à bordo muito menos drogas. Era só o que faltava. Um dos motoristas, o gremista Adriano dá uma panorâmica do trajeto. O que devemos fazer nas aduanas, serão três: Argentina, Chile e Peru. As passagens de fronteira, as vezes demoradas, é que podem atrasar a viagem. O ponto crítico parece a travessia do deserto de Atacama ao norte do Chile. A água é realmente muito escassa e praticamente não tem onde parar.  São muito importantes as recomendações de higiene a bordo. Principalmente quanto ao uso dos banheiros. Deve-se evitar ao máximo fazer o “número 2” no ônibus. Me parece razoável.

Estamos da Dutra, na altura de Resende, acabamos de passar a Academia Militar das Agulhas Negras, alma mater do presidente Bolsonauro. Chove lá fora.  Na nossa nave o clima é de tranquilidade. Os passageiros estão em silêncio. Alguns leem livros, quem diz que flamenguista não lê?

Daqui a pouco a gente volta.

Marcelo Madureira

 

COM O FLAMENGO NA FINAL

Faltam poucas horas para a final da Copa do Brasil. De um lado o Flamengo, do outro o Atlético Paranaense. Sou um dos poucos que pode, desde já, se considerar, ao mesmo tempo, campeão e vice da Copa do Brasil.

Explico: sou paranaense, de Curitiba. Nascido e criado. Mas a primeira roupa que vesti neste mundo foi uma camisa do Flamengo, coisas do meu pai flamenguista roxo e apaixonando. Fiquei contaminado pela paixão de ser Flamengo.

Passei uma parte da minha infância no bairro da Água Verde, em Curitiba, nas vizinhanças da famosa Baixada, o campo do Atlético Paranaense. Talvez pela coincidência das cores rubro negras, torcia, no Paraná, pelo Atlético, que era para mim, uma espécie de filial do Flamengo. Mesmo porque, naqueles tempos remotos, mal existia televisão, nem vídeo tape, que dirá transmissão de partidas ao vivo. Assim só podia acompanhar as proezas do Mengão pelos jornais do Rio que o pai trazia para casa, depois do trabalho.

Mãe só se tem uma, time de futebol também. E eu sou Flamengo. Aqui no Brasil, na Rússia, no Alasca, na Nicarágua, em Seca ou Meca, eu sou Flamengo. Nestes tempos de intensa globalização percebo que a garotada acaba tendo time em tudo que é canto. Barcelona  na Espanha, Milan na Itália, Manchester na Inglaterra e por aí vai. Eu não. Eu sou Flamengo, não importa onde estiver.

E  véspera de decisão é sempre aquela agonia, uma ansiedade sufocante , que só termina quando a bola rola e só nos resta a torcida.

O Atlético vem embalado por uma goleada no Náutico, domingo passado, mas o Flamengo também está com a bola cheia, uma vez que soube derrotar o Corinthians no Maracanã com muita competência.

Competência , esta é a palavra. Quem acompanhou o Mais Querido ao longo do ano jamais poderia supor que teríamos a alegria de disputar uma final de um campeonato tão importante. Vejo competência e modéstia neste time do Flamengo. A sensação que tenho é que o time conhece as suas limitações e, por isso mesmo, procura formar um conjunto, obra do discretíssimo técnico Jayme de Almeida que, de mansinho, colocou ordem e objetividade no que outrora era um bando.

Independente do resultado de logo mais, acho que o Flamengo merece um crédito da grande Nação Rubro Negra, pela virada que deu ao longo do ano e pelo tanto de alegrias que um Mengão, cada vez mais forte, venha nos proporcionar no futuro.

Que vença o melhor. No caso, o Flamengo.

E tenho dito.

FLAMENGO! FLAMENGO! TUA GLÓRIA É LUCRAR!

Oitocentas pratas para assistir a uma final do Flamengo no Maracanã. É grana para qualquer um. Algumas coisas estão mudando no futebol brasileiro. A começar pelo público. Depois de nove anos ausente, voltei a frequentar o velho Maraca, mas o ambiente não era mais o mesmo. Não vi ninguém de chinelo de dedo nem vi mais aquele negão envergando uma camisa do “Framengo” surrada, companheira de tantas glórias e tragédias. Vi famílias completas, gente vestida como se estivesse no cinema, gente que torce com discrição e vocabulário moderado. É claro que, volta e meia, alguma torcida organizada desperta um coro chulo, mas o xingamento parece distante. A torcida faz a OLA! Nunca vi coisa mais careta e bem comportada em estádio de futebol do que “fazer a OLA”. Vi poucas bandeiras, algumas faixas, cerveja sem álcool e sanduíche natural. O Maracanã ficou mais asséptico que sala de cirurgia.

Nunca mais aquelas tardes dramáticas, aquelas batalhas campais e não campais. Parecia que estávamos num front, e na nossa torcida éramos todos “Brothers in arms”, irmãos de sangue. Sangue virtual, que fique bem claro.

Percebo que, aos poucos, o “futebusiness” vai chegando no Brasil. Este futebol de negócios, que movimenta bilhões de dólares pelo mundo afora, e sustenta o alto nível do futebol europeu. No Velho Continente o povão já foi afastado dos estádios há muito tempo. O pessoal de pouca grana acompanha o seu time do pub, do bar da esquina, pela televisão, junto dos amigos. Os estádios viraram “Scala de Milão”; quem quiser, e puder, ver o jogo ao vivo vai pagar caro por um assento na arquibancada.

Aí eu penso no torcedor médio do meu querido Flamengo. Tem mais torcedor no Flamengo que francês na França, vocês já pensaram nisso? Como é que vai fazer para arrumar os 800 reais do ingresso? Não me venham com resposta preconceituosa e simplista: vai assaltar alguém. Mesmo porque o torcedor de arquibancada (ou da antiga e saudosa “geral”) é gente boa, é um trabalhador, que guarda o sábado para o descanso e o domingo para sofrer, vibrar, berrar, xingar pelo seu time. Ah! Sim! Se sobrar algum “qualquer”, tomar uma cervejinha com os amigos pois, afinal, ninguém é de ferro.

 

PESADELO NO MARACANÃ

Domingo fui assistir ao Flamengo e Criciúma. Havia nove anos que não punha os pés no Maracanã. A última vez foi no malfadado Flamengo x Santo André, final da Copa do Brasil. Para o Mengão bastava empatar o jogo para levar a taça. Mal qual! O Flamengo perdeu de 2 a zero. Era o dia 30 de junho de 2004. Não pretendia ir ao estádio, tinha tido um dia estafante no escritório e, no dia seguinte, teria que acordar às cinco da matina para gravar o Casseta & Planeta. Mas um amigo me convenceu a ir até o Maraca, arrumando uma autorização para estacionar dentro do estádio. Saí direto do escritório da Casseta, morrendo de fome, mas na certeza de que poderia comer um cachorro-quente no estádio.

Cheguei  em cima da hora. O outrora Maior Estádio do Mundo estava lotado até a tampa com a maior torcida do Brasil, o jogo era “mamão com açúcar”, afinal Santo André, time pequeno, Mengão jogando em casa, com a força da torcida, era a certeza de mais um título na Gávea. O Maracanã, todinho vermelho e preto, era pura vibração. Assim que encontrei o meu lugar nas cadeiras, tratei de arranjar algo para matar a sede e enganar a fome. Debalde, a massa rubro negra, faminta, já havia devorado e bebido tudo que havia à venda no estádio. Para beber, só  água da bica. Mas tudo bem, qualquer sacrifício vale a pena para testemunhar mais uma glória do seu time do coração.

Eis que começa o jogo e, logo nos primeiros minutos, percebi que o time do Flamengo era um bando correndo dentro de campo. Não deu outra, o Santo André meteu dois ainda no primeiro tempo. Aquela batalha estava mais do que perdida. Na esperança de ter pelo menos uma noite de sono tranquila, decidi me mandar ainda no intervalo. O problema é que eu e a torcida do Flamengo (literalmente) tivemos a mesma ideia. Resultado: fiquei preso num monumental engarrafamento, e só fui chegar em casa lá pelas duas da manhã. Cansado, faminto e derrotado. Se soubesse que seria essa roubada teria ficado em casa, assistindo o jogo pela TV. Na hora que o Santo André fizesse o segundo gol era só apertar o controle remoto, virar para o lado e dormir. Injuriado sim, mas dormiria o sono dos justos.

Foi então que jurei que jamais voltaria a pisar no Maraca. Mas promessas são feitas para não serem cumpridas.

Tenho dito.

Uma vez Flamengo…

Ontem fiz uma palestra para os sócios do C. R. Flamengo, o mais querido. A plateia eu não sei, mas eu gostei muito. Não visitava a sede da Gávea desde o velório do Bussunda, e voltar ao clube me trouxe fortes lembranças e emoções. Sou Flamengo desde criancinha. Literalmente. Quando nasci, a primeira roupa que usei foi uma camisa do Flamengo. Foi assim que me colocaram no berçário. Em quinze minutos já tinha roubado três chupetas. Meu pai, que na juventude fora atleta do Flamengo,  avisava: “Na minha casa, quem  não for Flamengo, não come..” . Como morávamos em Curitiba, havia uma concessão para torcer pelo Atlético Paranaense, também rubro-negro, e que o Seu Mauro, meu pai, dizia que era uma filial do Mengão. Tempos depois, frequentei o clube que, pelo espaço e localização, poderia ser o melhor centro de esportes do Rio de Janeiro. Eu e meu irmão mais novo aprendemos a remar na escolinha do Flamengo, mas não seguimos o exemplo do  nosso velho na paixão pela modalidade.  Eu lembro do Laildo, remador da equipe principal, um catarinense forte e burro. O sujeito era tão grande que não cabia no box do chuveiro. Ele tomava banho de um lado, saía do box, trocava e de flanco para  poder lavar o seu lado B. Eu me lembro do barqueiro, o seu Nicodemus, um negro de olhos muito azuis, e que havia sido barqueiro do meu pai,e que, por isso mesmo,  tratava a mim e ao meu irmão com especial deferência. O remo no Flamengo era punk. Para começar, uma volta completa correndo na Lagoa, só para aquecer. Em seguida, ginástica puxada. Só depois é que se ia para o barco remar. No final do treino, além de exausto, eu vinha com uma fome de leão. Remo é pra macho… Acho que não é o meu caso.  Sou federado em judô pelo Flamengo, para vocês terem ideia de como anda o nível dos atletas na Gávea. Tô brincando! O Mengão tem e sempre teve atletas legendários, grandes campeões, em diversas modalidades. Inclusive na ginástica Olimpica, com as irmãs Hipólito, Diogo e Daniella. No Flamengo jogava bola, mas , muito mal, diga-se de passagem . No Flamengo aprendi a nadar e fui atleta na Natação Master. Disparado o  pior nadador master em toda história do clube. Eu não sou pouca merda não!

Nem tudo está perdido. O Sarney está na UTI.