SOBRE O DEBOCHE

13-01 charlie

No fundo, e no raso, toda essa discussão sobre o atentado ao Charlie Hebdo se resume ao direito de se debochar.
Vamos ao Pai dos Burros:
debochar, do francês débaucher: 1. Lançar no deboche; tornar devasso, libertino; viciar, corromper. 2. Zombar de; escarnecer. 3. Desafiar com zombarias. 4. Não levar em conta, desprezar, menosprezar, menoscabar. 5. Zombar de; escarnecer. 6. Desafiar com zombarias. 7. Não levar em conta; desprezar, menosprezar.
Fonte: Novo Aurélio Edição 2000.
Lendo assim, no rigor mortis de uma palavra dicionarizada, o deboche é mesmo assustador. Mete medo.
Mas, se formos contextualizar o deboche na vida cotidiana, diria que debochar é duvidar, duvidar de certezas, de pessoas, instituições ou qualquer outra coisa viva ou morta.
Debochamos de nossa ignorância, debochamos de nossa insignificância, de nossos preconceitos e, principalmente, debochamos do nosso medo. Se a humanidade não fosse “debochada”, não teria sido capaz de controlar o fogo, inventar a roda, curar a poliomielite nem teria mandado um astronauta à lua.
O deboche é cruel? Claro que é. Se não for cruel, não é deboche. O deboche ofende? Depende. Depende de que lado você está com relação ao deboche. Você pode ser o “debochante” ou pode ser o “debochado”. No segundo caso, o mais sensato e eficaz é debochar do deboche. Ou seja, não se levar tão a sério é uma atitude bem mais inteligente do que sair injuriado por aí tacando bombas e processos nos outros. Não necessariamente nesta ordem.
O mais importante é sempre duvidar, principalmente de dogmas e certezas absolutas. Debochar é duvidar.
E tenho dito.

175
ao todo.

CHARLIE HEBDO

charlie-hebdo-une-14309_w1000

Viajávamos por um país muçulmano quando um cartunista dinamarquês publicou cartuns fazendo graça com o profeta Maomé. O nosso guia no trajeto era um arqueólogo, professor universitário, poliglota, culto e muito educado. O curioso é que qualquer pergunta que a minha mulher fizesse o sujeito respondia para mim, como se minha companheira fosse uma criatura etérea, um fantasma. Todas as noites, enquanto o nosso barco calmamente descia as águas do Nilo sentávamos, só nós dois, para uma animada prosa. Pois então, no dia em que o cartunista publicou as piadas sobre Maomé, o professor fez um discurso indignado contra o desrespeito ao Profeta, justificando inclusive a fatwa (sentença de morte religiosa muçulmana por anátema) lançada contra o humorista infiel. Obtemperei ao cavalheiro que, na nossa civilização judaico-cristã ocidental, fazia-se piada não só com Maomé, mas também com Jesus, Moisés e até mesmo com Deus em pessoa. A sociedade não só tolerava como ria junto. Por outro lado – prossegui – o que não eu entendia, nem aceitava, era a maneira que a cultura muçulmana trata a mulher. Discutimos, argumentamos, replicamos, triplicamos e chegamos à inteligente conclusão de que vivíamos em culturas distintas, com valores diferentes e que havia de existir uma forma de convivência respeitosa. Ponto.

O atentado ao Charlie Hebdo, fora a violência explícita e injustificada, traz consigo um enorme simbolismo: o encontro da intolerância com o fundamentalismo na sua forma mais extrema. O atentado foi praticado por fundamentalistas muçulmanos, mas poderia ter sido obra de um grupo radical politicamente correto. Já devem existir alguns, afinal bestas fundamentalistas são todos farinha do mesmo saco.

Assim sendo, como humorista, e em memória das vítimas desse ato terrorista, reproduzirei aqui uma passagem que encontrei no Alcorão:

“Estava o Profeta Maomé, escondido atrás de uma duna (virado para Meca), deixando-se sodomizar por um porco. No ápice do prazer anal, o coito foi interrompido por uma pobre mulher que surpreendeu aquela cena dantesca exclamando:

  • Pelas barbas do Profeta! Seu Maomé! O que é que é isso? Dando o rabo para um porco!?

O sábio Maomé não se abalou. Calmamente virou-se para o porco, que chamava-se Jorge, e disse:

  • Joooooorge, tira.

Em seguida, o mensageiro de Alá olhou para a pobre mulher e indagou:

  • Mulher, o porco é seu?
  • Não – respondeu a criatura.
  • A duna é sua?
  • Também não – disse a fêmea impura.
  • A bunda é sua?
  • Claro que não, Profeta!

Dito isso, Maomé virou seu rosto para Jorge, o porco, e ordenou:

  • Então… Joooooorge, bota!

Mas vocês pensam que a história acaba aí? Nada disso, segue adiante.

Continuavam, Maomé e o porco Jorge, naquele vuco-vuco sem-vergonha quando, de repente, chega o grande talmudista Shmuel Ben Yacov, o rabino de Belz. Ao ver aquela cena de pederastia, não se conteve e reclamou:

  • Porra, Maomé? Que merda é essa? Você dando o cu para o porco Jorge, que eu ia justamente comer no próximo Shabat? Agora ele não é mais kasher…

A porradaria já ia começar entre judeus e muçulmanos quando, subitamente, apareceu Jesus Cristo em pessoa para resolver aquele conflito religioso:

  • Ô Shmuel, deixa isso prá lá. Desencana desse porco… Vem comigo que a minha mãe arrumou uma turma de garotinhos do Colégio Santo Inácio pra chupar o nosso pau…”

Pronto, fundamentalistas, podem vir me pegar. Eu espero vocês com o meu Kalashnikov A-47 devidamente carregado.

E tenho dito.

1.0mil
ao todo.

UMA PENSATA SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO

97aaba68cadfa49297ab4ab8bf26124c

O meu amigo Danilo Gentili está preparando um livro sobre o “politicamente correto”. O Danilo, generoso como sempre, me pediu uma colaboração para ajudá-lo na hercúlea empreitada. Pensei, pensei… e escrevi estas bobagens aí de baixo, que antecipadamente publico, com a devida autorização do Gentili.

Leia aí:

UMA PENSATA SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO

                                                                       Marcelo Madureira

O papel do artista é colocar o “dedo na ferida” e o humorista, em alguns (poucos) casos, também é um artista.

DA TEORIA

Antes de mais nada, previno o leitor, que o pouparei de apresentar o enfadonho embasamento bibliográfico teórico que justifica o raciocínio que desenvolverei em seguida.

Aos mais insistentes recomendaria, como um resumo, a leitura do volume VIII das Obras Completas do Dr. Sigismundo Freud, “Os Chistes e a sua Relação com o  Inconsciente”. Em particular, a Introdução, o capítulo III, (Os Propósitos dos Chistes), o capítulo V, (Os Motivos dos Chistes – Os Chistes como um Processo Social) e, finalmente,  o capítulo VII, (Os Chistes e a Espécie do Cômico). Pode-se ler, também nas Obras Completas do Freud, um texto posterior, de 1928, intitulado O Humor.

É evidente que existe uma vasta bibliografia a respeito do tema, bibliografia esta que percorri com a paciência de monge beneditino, a qual me abstenho de ficar citando “devido de que” a minha conhecida modéstia intelectual.

O politicamente correto é um fenômeno extravagante (e provavelmente) passageiro da pós-modernidade que, incapaz de tratar com profundidade das questões da alma humana, decidiu resolver tudo, simplificadamente, atropelando estas indagações com o rolo compressor da hipocrisia. A hipocrisia é o ato de fingir crenças, virtudes, ideias e sentimentos que, na verdade, não se  possui.

Refiro-me, em particular, à questão do preconceito, que é um sentimento de desconhecer, não aceitar e, sobretudo, odiar aquilo que nos é estranho, diferente e contraditório. E este é um dos principais campos de ação do humorista e de suas anedotas. No fundo (e no raso), um dos principais objetos de trabalho do humorista é o preconceito. O nosso e o dos outros. Para o hipócrita, e politicamente correto,  este tema, é claro, é tabu. E aí encontramos um paradoxo: o politicamente correto pratica o preconceito contra aquele não obedece aos seus ditames. Mais do que  isso,  quer impor limites e, até mesmo, proibir uma obra. Ora bolas, se você não gosta do que faço, troque de canal, compre outra revista, mas não venha tolher a minha liberdade. O artista  paga o preço dos meus equívocos falando sozinho.

Examinando o termo “preconceito” podemos verificar que trata-se de um “pré-conceito”, ou seja, ter uma opinião, uma ideia, uma imagem, sobre determinada questão, antes mesmo de realizar um exame, um julgamento mais  aprofundado acerca do assunto. Daí é que vem a intolerância, o racismo e afins. Aliás, a grande questão, e de difícil solução, é entender e aceitar que somos todos diferentes. Trata-se de uma contingência da Natureza, não existe a possibilidade de vida sem a diversidade.

O humorista, através dos chistes, das anedotas, “convoca” a sociedade ao exame de  seus preconceitos (e diferenças) através do deboche, da desconstrução, da dessacralização daquilo que seria um tabu e que jaz, escondido, nas estruturas da sua psique. Já em 1928 o Dr. Sigismundo acreditava que o humor aparece como uma possibilidade de tratar de questões espinhosas, dolorosas e proibidas de forma palatável ao restante do psiquismo, facilitando o trabalho psíquico necessário. Bacana, não é?

Quando o humorista faz rir, nada mais faz do que provocar a Humanidade a rir de si mesma. E o primeiro passo na  direção da verdadeira sabedoria é não se levar muito a sério. A si e aos outros também. Só assim poderemos verificar o quanto somos ridículos, bem como são os nossos preconceitos. E isso é saudável, isso é bom!

Voltando ao politicamente correto. Proibir,  ou condenar, a abordagem humorística de determinados assuntos é um sofisma, uma desonestidade intelectual. Trocar o nome das coisas por eufemismos – o deficiente físico vira um indivíduo com “necessidades especiais” -, não vai resolver  o problema do perneta, do cego nem do anão. Ao contar uma piada de judeu, o que está em jogo não é a sovinice caricata, mas  a dificuldade em se aceitar o cosmopolitismo liberal, essência da cultura judaica. No caso do português do botequim, ignorante, rude e rústico, trata-se de uma evidente “negação do pai”, já que a maioria nós, brasileiros, é descendente de lusitanos. Essa qualquer psicanalista de porta de inconsciente interpreta.

E o papagaio? Como é que fica? Ora, o papagaio de anedota é o Prometeu Acorrentado, só que, em vez de roubar o fogo dos deuses para dá-lo aos homens, o Louro “roubou a palavra” da boca dos homens e, portanto, do seu bico podem sair “coisas” que os homens “jamais” pronunciariam – “Não fui eu quem disse isso, foi o papagaio…”. Morou?

Concluindo: se queremos “existir” filosoficamente, estamos condenados a examinar as questões mais profundas e/ou nauseabundas da cloaca nossa alma. E para realizar esta dolorosa psico-colonoscopia, a única alternativa é lançar  mão do efeito sedativo de uma boa piada.

DA PRÁTICA

E não me venham processar por racismo, preconceito ou que tais, pois o próprio Freud, na sua obra, analisou várias anedotas aparentemente preconceituosas e nem por isso teve que contratar advogados.

TESTE DE FÍSICA – QUESTÃO DISCURSIVA – (2 PONTOS)

AO SE DEIXAR CAIR UM NEGÃO E UM BRANCO, COM MESMO PESO, DO ALTO DE UM PRÉDIO DE 150 ANDARES, QUAL DOS DOIS CORPOS CHEGA PRIMEIRO AO SOLO?

Tradução Politicamente Correta:

AO SE DEIXAR CAIR UM AFRODESCENDENTE E UM CAUCASIANO, COM IDÊNTICA MASSA CORPÓREA, DO ALTO DE UMA CONSTRUÇÃO QUE POLUI A PAISAGEM, QUAL DOS DOIS INDIVÍDUOS CHEGA PRIMEIRO AO SOLO, QUE, POR SINAL, DEVERIA SER OBJETO DE UMA REFORMA URBANA PARA CONTEMPLAR COM MORADIAS O ENORME CONTIGENTE DOS DESPOSSUÍDOS  SEM-TETO?

Resposta:

O branco, sem dúvida. O negão demoraria mais, pois viria pelo caminho quebrando janelas, arrancado vasos de plantas, danificando a pintura, etc, etc…

O que está em questão  nesta anedota? É o racismo? Não. O que está em questão é a condição subalterna do negro em nossa sociedade, até hoje de viés escravocrata. Não adianta chamar o negão de afrodescendente  se não lembrarmos o fato de que os negros são, em sua maioria, pobres. E sendo pobres, não têm acesso à educação e, por não terem educação, não sabem se comportar em situações como esta de ser arremessado do alto de um arranha-céu ao lado de um branco. O branquelo desabou direto.

Com muita compostura, precisão e bons modos, arrebentou-se no chão muito antes do crioulo que, por isso mesmo, teve maior sobrevida.

E tenho dito.

431
ao todo.

Casseta e Planeta cai na rede

casseta cai na rede

Casseta & Planeta terá canal de humor na internet

Envolvidos com seus projetos paralelos desde que o “Casseta & Planeta vai fundo” saiu do ar na Globo, no fim de 2012, a turma de humoristas prepara agora um retorno um pouco diferente. Eles serão as estrelas do “Cassetube”, canal de vídeos que o Gshow — o recém-lançado portal de entretenimento da Globo — planeja estrear em abril.

— Após 35 anos juntos, nós nos deparamos com uma empreitada diferente, desafiadora e bacana. Conteúdo para a internet tem um outro formato, um esquema de produção mais ágil, o que possibilita um resultado mais quente e até mais inesperado. É um projeto revigorante — classifica Cláudio Manoel.

O casseta adianta que, no início, o canal terá pelo menos quatro programas semanais fixos, com duração de 6 a 8 minutos cada. Os pilotos, para testar os formatos, começarão a ser gravados em fevereiro. Ele dá exemplos do tipo de produção que o grupo prepara:

— No “Casseta 4”, eu, Hélio de la Peña, Beto Silva e Hubert vamos comentar assuntos da atualidade. O Reinaldo, que é músico, quer ligar o tema com humor no “Música para zoar”. O programa do Marcelo Madureira será sobre notícias bizarras da internet. E ainda teremos o “Nós fizemos antes”, que mostrará parte do nosso material antigo, com um olhar inteligente sobre o passado.

Leia mais sobre esse assunto AQUI

156
ao todo.

PASSANDO O BASTÃO

PANAM2011-GUADALAJARA-ATHLETICS-4X100M RELAY-BRA

Hoje ganhei o dia. Tive o prazer de atender ao convite do Fernando Ceilão para fazer uma participação na nova série que ele está preparando para o Canal Brasil.

Já havia sido dirigido pelo Ceilão numa outra série do CB. Naquela feita contracenei com a Vivianne Pasmanter, numa trama densa e tensa. Foi a única vez que fiz um papel bergmaniano na vida e, devo confessar, gostei muito.

Desta vez, para o meu gáudio supremo, contracenei com o Gregório Duvivier, a quem só conhecia enquanto espectador e público em suas inúmeras atuações em TV, teatro e o escambau. Principalmente o escambau.

Eu, que já era fã do Gregório, fiquei mais ainda. Me senti privilegiado não só de atuar com ele, mas de poder bater um súbito papo animado. Gregório vai muito além do grande profissional, é um cara legal, educado e preparado. Dá gosto de ver essa nova geração crescendo e aparecendo. Eu que fazia natação no Flamengo com a mãe dele! Para quem não sabe, Gregório é filho da Olivia Byington e do Edgar Duvivier. Edgar é músico de primeira e a Olivia eu não me canso de escutar um disco em que ela interpreta a Bachiana Número 5 do Villa Lobos com a Clara Sverner no piano. É de chorar de emoção. Realmente a genética é um assunto muito sério.

Gregório é um dos pilares do Porta dos Fundos e foi bom trocar figurinhas, pois a trajetória dos meninos do PdF tem muito em comum com a história do Casseta & Planeta. Eles também vendem camisetas !!!!

Ficamos de nos encontrar para continuar a prosa.

Finalizada a gravação, saí do estúdio feliz da vida. Só quem sabe o que é atuar, pode ter ideia de como é chato ficar fora da ribalta. E aí vem o Ceilão e me dá este presente, e olha que meu aniversário ainda tá looooonge…

É bom saber que o humor está em boas mãos. Me senti como se estivesse passando o bastão… Pensando bem, se for para “passar o bastão”, acho melhor passar no Tabet que, eu sei, gosta da coisa…

 

E ATENÇÃO !!!

Não esqueçam que esta sexta-feira, às oito da matina em ponto,  estarei ao vivo na CBN. Será estreia mundial da minha participação semanal no SACOLÃO DO MADUREIRA,  onde comentarei os principais fatos da semana. Escutem e opinem !!!!

E tenho dito.

26
ao todo.