Minha infância

Infância é uma época doce, e neste sábado eu resolvi falar de coisa boa.

Vamos falar de infância. Como era bom brincar despreocupado com os problemas do Brasil. E contrariando o que todo mundo pensa, eu não nasci adulto. Já fui uma criança também. E vou te contar, como eu gostava de brincar…

BENZETACIL

Desde cedo aprendi que viver é “tomar na bunda”. Calma, eu posso explicar tudo. Lá pelos cinco anos de idade fui acometido de uma insidiosa moléstia chamada Reumatismo Infeccioso, maiores informações em http://drauziovarella.com.br/letras/f/febre-reumatica/. Obrigado, Dr.Drauzio. Nos acessos febris e dolorosos da doença, ficava de cama, em repouso, e a minha única distração era a leitura. Sim, eu já lia ou, em alguns casos, só via as figuras. Lembro que a minha febre só baixava quando a minha irmã mais velha vinha ao meu leito falar barbaridades engraçadas. Isso  comprova o efeito terapêutico do humor.

Mas vamos ao tratamento. Naquele tempo, início dos anos sessenta, a febre reumatoide era tratada com injeções de uma penicilina chamada Benzetacil. Você não tem ideia de como dói. Aliás, se você já tomou Benzetacil sabe do que eu estou falando. Quem já teve gonorreia (http://drauziovarella.com.br/letras/g/gonorreia-4/ – mais uma vez, obrigado, Dr. Drauzio), já tomou Benzetacil. Se você ainda não teve gonorreia, então pergunte à sua mãe. Procure saber, procure saber…

Mas voltando à Benzetacil, só para vocês terem uma ideia da coisa, vejam: http://www.youtube.com/watch?v=Un6CuDFPLzY. Agora imaginem isto numa criança indefesa de cinco anos. A Benzetacil vem numa caixa com duas ampolas. Numa vem o medicamento em pó, na outra vem um diluente. Você tira o diluente com a seringa e injeta o líquido na ampola do medicamento. Aí você sacode aquela ampola como se estivesse preparando um Toddy. Aquilo vira um mingau que volta para a seringa. Na verdade, está mais para cimento. É por isso que a “Benza” tem que ser aplicada bem rápido, senão endurece e entope a agulha que, aliás, tem que ser bem grossa. Benzetacil só se toma na bunda.

A dor é cavalar, eu tinha que voltar para casa no colo da minha mãe. Assim que chegávamos em casa, ela botava uma compressa no lugar da picada e, mesmo assim, eu ficava uns dois dias puxando da perna. Isso se dava a cada quinze ou vinte dias e durou anos a fio. A frequência que eu tomava a “marvada” variava com os resultados do exame de sangue, que eu fazia mensalmente. Eu vivia sendo furado. Por alguma questão que ainda eu não entendi, inventei um jogo perverso comigo mesmo. Eu não tomava conhecimento de quando viria a próxima injeção. O que determinava que aquele seria o dia fatídico era que, em vez da babá, era a minha mãe quem vinha me buscar na escola. Quando começava a perceber que já fazia tempo que tinha tomado a “última”, passava a viver um pequeno tormento todos os dias. Quando já estava perto da hora de tocar a sineta, pedia pra “fessora” para apontar o lápis ou ir na “casinha”. Era só um pretexto para  dar um espiada no portão do educandário e verificar quem havia ido me buscar. Se fosse a Tereza Lachman Kripovust (minha querida babá e segunda mãe), uma enorme sensação de alívio, redenção e alegria inundava a minha alma. Mas se fosse a D. Rosi, minha mãe de verdade, o meu destino já estava selado.

Aí começava a danação. Caminhávamos em silêncio resignado. Não trocávamos palavra. Mas sentia na mão da mãe a solidariedade no sofrimento do filho. Chegávamos na farmácia e, se tinha fila de espera,  prolongava-se o martírio. A mãe já trazia de casa o meu personal kit benzetacil (seringa e agulhas), devida e cuidadosamente esterilizados. Naquele tempo não havia seringas e agulhas descartáveis. Eram minutos que pareciam horas. Minha mãe sentava na cadeira e eu observava o “moço” da farmácia preparar a injeção. Não esqueço aquele cheiro de éter e a parede de azulejos brancos. Então, quando via o farmacêutico embeber o chumaço de algodão no álcool, sabia que a hora fatal havia chegado. Sempre em silêncio, deitava no colo da mãe e abaixava a calça. Mamãe me segurava firme ao mesmo tempo que me acariciava. Prosseguia a execução.  Passa-se o algodão úmido na região a ser perfurada. Ali, naquela hora, toda minha vida passava em segundos na minha cabeça. Em seguida, vinha a picada. A Benzetacil vinha penetrando quente e densa no músculo, uma dor paralisante repercutia pela perna. E o resto eram dor, trevas e silêncio.

Até hoje fico comovido ao lembrar como meus pais “sentiam” a minha dor. Incansáveis, pesquisavam aplicadores de injeção pela cidade. Achavam que um exímio profissional, expedito e com “mãos de fada” pudesse abreviar o meu sofrer. Depois da “dolorosa”, sempre ofereciam um presentinho. Uma revistinha, um pedaço de pizza, um doce, um brinquedo. Foi aí que eu ganhei o meu primeiro carrinho matchbox, uma mercedez cupê vinho que guardo até hoje, item fundamental da minha famosa coleção. Lá pelos treze anos de idade, vim para o Rio de Janeiro. Fui ao Instituto de Puericultura da então Universidade do Brasil, atual UFRJ. Procurava o Dr. Luiz Carlos Siqueira. Ele utilizava no tratamento da febre reumática uma espécie de vacina subcutânea, indolor, que vinha refrigerada do Japão. Meu pai conseguiu que a Varig, a nossa Varig, trouxesse as ampolas sem cobrar o frete.

Foi aí que eu fiquei bom. Quer dizer, bom eu nunca fiquei. Nenhum ser humano é bom. Nem totalmente mau. Leia a Hannah Arendt. Procure saber, procure saber…

E depois ainda me perguntam por que faço análise há 35 anos…

Nota: Soube que o Dr. Luiz Carlos Siqueira continua no Instituto de Puericultura da UFRJ exercendo a sua medicina. Ave! Ave! Evoé!

Tenho dito.