Cantinho do Pensamento #14

Este mês os indicados são:

5c25a097-3883-4e90-b2cd-c088b6ef7831A CAPITAL DA VERTIGEM: UMA HISTORIA DE SAO PAULO DE 1900 a 1954

autor: Roberto Pompeu de Toledo

Após reconstituir em A capital da solidão a história de São Paulo das origens a 1900, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo narra em agora sua arrancada rumo à modernidade. Eis uma cidade que deixa a condição de vila e se torna a maior metrópole do país. É a capital da vertigem: vertigem artística, industrial, demográfica, social e urbanística.Neste painel que vai do início do século XX a 1954 — quando a cidade completa quatrocentos anos —, aparecem personagens como Oswald e Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Washington Luís, Prestes Maia, e Francisco Matarazzo, e surgem episódios que vão da Semana de Arte Moderna de 1922 à epidemia de gripe espanhola, da Revolução de 1924 à chegada do futebol ao país.

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ce4e8528-a43a-4d7f-8a34-0f61d5b58f96A FENIX ISLAMISTA: O ESTADO ISLAMICO E A RECONFIGURAÇAO…

autor: Loretta Napoleoni

A expert em terrorismo Loretta Napoleoni demonstra que, embora no quadro pintado pelos meios de comunicação ocidentais o Estado Islâmico figure como um grupo que não passa de um simples bando de assassinos num período de sorte, na verdade a organização está propondo um novo modelo de criação de Estados nacionais.Empreendendo uma guerra de conquista tradicional com o objetivo de criar uma versão moderna do Califado, o Estado Islâmico se utiliza de moderna tecnologia para recrutar combatentes e levantar recursos financeiros enquanto mobiliza a população para a administração cotidiana do novo estado. Renascido das cinzas das fracassadas empreitadas jihadistas, o Estado Islâmico vem demonstrando uma profunda compreensão do funcionamento da política no Oriente Médio. Não se trata de mais uma rede terrorista, mas um inimigo implacável, antenado com a atual desordem mundial.“Ignorar esses fatos é mais do que adotar uma atitude ilusória e superficial — é perigoso. O ditado ‘conheça seu inimigo’ continua a ser o mais importante a considerar no combate ao terrorismo”, alerta Napoleoni.

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4975e323-d22f-4421-93b8-2cc44692dedcBRASIL: UMA BIOGRAFIA

autor: Lilia Moritz Schwarcz | Heloisa Starling

“Aliando texto acessível e agradável, vasta documentação original e rica iconografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloísa Starling propõem uma nova (e pouco convencional) história do Brasil. Nessa travessia de mais de quinhentos anos, se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais (muitas vezes subvertendo as datas e eventos consagrados pela tradição). No fundo da cena, mantêm ainda diálogo constante com aqueles autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil.A história que surge dessas páginas é a de um longo processo de embates e avanços sociais inconclusos, em que a construção falhada da cidadania, a herança contraditória da mestiçagem e a violência aparecem como traços persistentes.“As autoras, com singular competência, conseguem aliar clareza e consistência, densidade e fluidez, rigor histórico e prazer do texto.” — Lira Neto, autor de Getúlio“Este livro é uma biografia não autorizada de um personagem complexo chamado Brasil. Ele combina com muita qualidade várias facetas desse personagem que se forma e se transforma ao longo de mais de cinco séculos, e continua se transformando até onde a vista pode alcançar.” — Boris Fausto, autor de História do Brasil”

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Cantinho do Pensamento #08

01    QUEDA DE GIGANTES
Autor: Ken Follett
Cinco famílias, cinco países e cinco destinos marcados por um período dramático da história. Queda de gigantes, o primeiro volume da trilogia “O Século”, do consagrado Ken Follett, começa no despertar do século XX, quando ventos de mudança ameaçam o frágil equilíbrio de forças existente – as potências da Europa estão prestes a entrar em guerra, os trabalhadores não aguentam mais ser explorados pela aristocracia e as mulheres clamam por seus direitos. Continue lendo. 

2UM LUGAR PERIGOSO
Autor: Luiz Alfredo Garcia-Roza
Nova saga do delegado Espinosa tem como personagem um professor com uma síndrome rara e leva a investigação para o mais perigoso dos lugares: o interior da mente humana. São muitos os lugares perigosos deste livro. O primeiro é o próprio Rio de Janeiro, onde a história se desenrola. Como de costume nos romances de Garcia-Roza, a cidade é protagonista e sua geografia se torna parte indissociável da trama. Continue lendo.

3VIDA E DESTINO
Autor: Vassili Grossman
Vida e destino é um épico moderno e uma análise profunda das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial. Vassili Grossman, que esteve no campo de batalha e acompanhou os soldados russos em Stalingrado, compôs uma obra com a dimensão de Tolstói e de Dostoiévski, tocando, ao mesmo tempo, num dos momentos cruciais do século XX.  Continue lendo.

4CHACRINHA: A BIOGRAFIA
Autor: Denilson Monteiro
Se não tivéssemos a história como prova, Abelardo Chacrinha Barbosa pareceria um personagem de fi cção. Da pequena Surubim, no interior de Pernambuco, o garoto que fazia todos rirem chegou quase por acaso ao Rio de Janeiro e lá se tornou o apresentador de maior sucesso da televisão brasileira – e isso, quebrando todos os padrões de comportamento que se poderia esperar. Ao narrar essa trajetória, o livro mergulha em um dos períodos mais agitados da cultura brasileira. Continue lendo.

5TUDO OU NADA: EIKE BATISTA E A VERDADEIRA HISTORIA DO GRUPO X
Autor: Malu Gaspar
Tudo ou nada é o resultado de uma pesquisa espantosa sobre Eike Batista e sua trajetória fulgurante de ascensão (e não sem alguns tombos no caminho) desde o início dos anos 1980 até a queda brutal em 2012/13. Malu Gaspar, experiente editora da Veja, especialista no setor energético, pesquisou fontes inéditas, levantou documentos jamais vistos e ouviu pessoas fundamentais – amigos, ex-amigos, colaboradores, ex-colaboradores, admiradores e adversários – que nunca antes haviam falado a respeito e que revelam tramas que montam novo, amplo e complexo quebra-cabeça para se compreender não só o caminho de uma empresa como também a cabeça de um homem singular. Continue lendo.

 

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Cantinho do Pensamento. Dicas de livros #03

Confira minhas dicas de leitura para o mês de julho.

Este mês os livros indicados são:

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18 DIAS: QUANDO LULA E FHC SE UNIRAM PARA CONQUISTAR O APOIO DE BUSH
Autor: Matias Spektor
Editora: Objetiva
http://casseta.me/TOi2G9

 

 

Imagem17A SAGA BRASILEIRA: A LONGA LUTA DE UM POVO POR SUA MOEDA
Autora: Miriam Leitao
Editora: Record
http://casseta.me/1msogGN

 

 

Imagem18 DECADA PERDIDA: DEZ ANOS DE PT NO PODER
Autor: Marco Antonio Villa
EDITORA: Record
SEGMENTO: Política
http://casseta.me/TZ7Nz7

 

 

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COREIA DO NORTE, COREIA DA MORTE

detaque marcelo

É típico das ditaduras a hereditariedade no exercício do poder. Fidel Castro transferiu o poder ao seu irmão Raul, “Papa Doc” Duvalier, do Haiti, para o seu filho “Baby Doc”. Lenin, como não tinha filhos, ungiu Joseph Stalin seu sucessor, e por aí vai.

Na Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo, a transferência do mando por laços de sangue já alcança a terceira geração. Do fundador, Kim Il-sung, passando pelo filho Kim Jong-il e, agora, o neto Kim Jong-un, vão se revezando na condução da ditadura mais repressora, violenta, belicista e atrasada do mundo. Em pleno século 21.

Kim Jong-un já assumiu o poder mandando bala. Literalmente. Fuzilou o chefe das forças armadas com um tiro de morteiro. Isso mesmo, um tiro de morteiro, à queima-roupa. Em seguida, mandou matar a ex-namorada, e, semana passada, passou pelas armas seu tio, o General Jang Son-thaek, o segundo homem mais poderoso do país. Son-thaek foi preso no meio de uma reunião do partido, com direito a transmissão ao vivo pela TV. É assim que as coisas funcionam no estalinismo. E ainda tem gente no Brasil que aprecia este tipo de regime. Em pleno século 21.

Àqueles que quiserem ter uma ideia de como funciona a violência de estado em regimes de esquerda, recomendo a leitura de Stálin – A Corte do Czar Vermelho, de Simon Sebag Montefiore. O livro começa com o suicídio da primeira mulher do ditador. É de ler num fôlego só, mas tem que ter estômago.

Estive na Coreia do Norte em 2010, gravando um episódio da série Pacato Cidadão, que fiz para o Fantástico. Para conferir, é só clicar:

http://www.youtube.com/watch?v=fstcO3OB7bI

Entrei na Coreia disfarçado de turista. Quatro vezes por ano as autoridades da Coreia do Norte admitem turistas, que só podem viajar em grupo e através de duas agências inglesas autorizadas. Do aeroporto de Beijing  parte a única ligação aérea dos norte-coreanos com o resto do mundo. A grande maioria dos passageiros são homens de negócios chineses, funcionários do governo e nós, um alegre grupo de turistas, aliás, os únicos felizes com a ideia de viajar para Pyogyang, a capital do país.

Éramos umas vinte pessoas, a maioria ingleses, mas também australianos, franceses, americanos e eu, o brasileiro. Embarcamos num antiquado Tupolev, avião russo da década de 60, bem apropriado, pois ali, na verdade, começava uma viagem no tempo. Em duas horas e meia de viagem se anda uns cinquenta anos para trás. Logo que desembarcamos no aeroporto Kim Il-sun (na Coreia do Norte qualquer coisa que não se chama Kim Il-sun é porque se chama Kim Jon-il, seu filho), os nossos celulares são confiscados e só serão devolvidos quando deixarmos o país. Passamos então por uma revista rigorosa, foi um custo explicar para o guardinha que tipo de objeto era o meu Kindle. Ele simplesmente não conseguia acreditar que ali dentro poderiam caber até 2.500 livros. A conselho dos agentes de viagem, levávamos uns presentes para as autoridades locais: garrafas de uísque, cigarros e latarias. Ainda no aeroporto fomos apresentados aos nossos guias: um casal de meia idade, um motorista e um câmera man que filmaria toda nossa estadia. Só a mulher falava inglês, muito bem, por sinal.

Em seguida, embarcamos num micro-ônibus anos 50 e fomos para o hotel. Nas ruas, pouquíssimos automóveis. Às vezes passavam coletivos superlotados. Fazia frio de rachar e o silêncio dominava a paisagem. A cor da Coreia do Norte é cinza como o inverno.

Nosso hotel é o único 5 estrelas de Pyoyang. Desconfio se existe um outro hotel de qualquer categoria na cidade. Como tudo na Coreia do Norte, é estatal. Tem trinta andares, mas só  três são ocupados, tem uns dez elevadores, mas só dois funcionam.

No hotel, além das chaves nos quartos, recebemos instruções. A programação turística, organizada pelo governo, deveria ser seguida à risca. Quem não quisesse ou não pudesse acompanhar, teria  que ficar no hotel, dentro do quarto, que seria devidamente vigiado por um militar. Não se pode sair do hotel sem o guia, não se pode dirigir a palavra a ninguém que não sejam os guias. No hotel poderíamos encontrar tudo o que precisássemos. Havia três restaurantes à nossa disposição: O número 1, o número 2 e o número 3. Tinha loja de presentes, cabeleireiro, farmácia, uma boate e até uma “casa de massagem” para os solteiros. Eles deixam bem claro que as “massagistas” eram de Macau, ex-colônia portuguesa na China.

Os quartos são de uma pobreza franciscana, mas o hotel é 5 estrelas. O que mais impressiona é a escuridão da noite de Pyoyang. A Coreia do Norte tem graves problemas de energia, ainda mais no inverno, e economizar é mandatório. Ligo a televisão e morro de rir. Existem dois canais, claro, ambos da EBN da Coreia do Norte. Só passam propaganda política com elogios aos poderosos do partido. É lavagem cerebral direto, num volume de som incrivelmente alto acompanhado por marchas militares. Assisto um documentário sobre os avanços tecnológicos da Coreia do Norte.  A mensagem é que a Coreia do Norte é o melhor lugar para se viver e que todos as outras nações do planeta  invejam as condições de vida e o progresso norte-coreano.

Vamos jantar, os guias já escolheram para nós o restaurante número 1, inclusive o cardápio e as bebidas. Por incrível que pareça, a cerveja estatal não é ruim, mas a comida é quase intragável, os alimentos são de péssima qualidade. E isso deve ser o que eles têm de melhor para oferecer e, assim, impressionar os turistas. Não tenho nenhuma frescura com comida, mas o arroz tinha gosto de naftalina. Os ingleses, ótimos companheiros de viagem, acham tudo muito engraçado e sacaneiam o regime norte-coreano o tempo todo.

Nos outros dias fomos submetidos a uma intensa maratona de visitas a monumentos gigantescos, museus enormes sem calefação, tumbas de heróis do partido. Sempre uma variação sobre o mesmo tema, além, é claro, da permanente doutrinação ideológica. No terceiro dia viajamos até a fronteira com a Coreia do Sul, o último bastião da Guerra Fria. Da fronteira, aos gritos, tentei uma aproximação entre os dois países irmãos, em guerra até hoje. Foi em vão. Na parada do ônibus não havia banheiro. Fazer xixi durante uma  viagem deve ser considerada uma atitude pequeno burguesa.

Num dos dias, nos levaram, pela manhã, a uma enorme praça para apreciar uma multidão de crianças brincando. O problema é que elas não tinham com o que brincar. Um dos ingleses tinha levado um frisbee (até aquele momento não tinha a menor ideia do que o inglês pretendia com aquele  disco de plástico), e aí foi a festa. Mas, súbito, soam apitos, as crianças, disciplinadas, se organizaram em filas e foram embora. Aquela demonstração havia sido organizada exclusivamente para nós, os turistas. Participamos também de um baile público onde jovens dançavam ao som de músicas folclóricas, com letras de exaltação à recente automação de algumas unidades fabris. Juro.

Uma moça foi autorizada pelos guias a bailar comigo, mas só um pouquinho. Nenhum dos casais falam com os outros, muito menos entre si. Terminado o baile, as moças tiraram suas roupas típicas e foram embora. Era como se tivessem terminado o expediente numa repartição pública.

Mas o ponto alto da viagem foi a visita à múmia de Kim Il-sum, o fundador da Coreia do Norte. Como todos sabem, é um costume das ditaduras socialistas mumificar os seus líderes e exibi-los para visitação pública. Mas só depois que eles morrem. Meu objetivo é completar o Big Five: vi a múmia do Ho Chi Min, no Vietnã, Mao Tse Tung, em Beijing e Kim Il-sun, em Pyoyang. Agora só falta o Lenin em Moscou e o Fidel Castro em Havana. Eu chego lá.

Antes da visitação à múmia propriamente dita, tivemos que cumprir o ritual de depositar flores e prestar reverência à enorme estátua do grande líder no centro da cidade.  Só então fomos conduzidos ao mausoléu. Enfrentamos uma fila interminável, o lugar da tumba de Il-sun é gigantesco, e se percorrem intermináveis corredores e escadas rolantes até se entrar na câmara ardente. Não sem antes sermos submetidos a uma limpeza corporal com jatos de ar comprimido para tirar os germes e assim não contaminar  a múmia sagrada. Juro de novo. Em volta do caixão, onde Kim Il-sun dorme seu sono eterno, vários coreanos do norte caíam em pranto convulsivo, como se o Kim tivesse acabado de morrer naquele instante.

À noite, para sair do baixo astral, resolvi sacudir o esqueleto na boate do hotel. Não tinha ninguém. Fiquei dançando sozinho. Vendo aquela cena lamentável, os guias resolveram  levar o nosso grupo a um boliche. Para que pudéssemos jogar à vontade, segundo eles, o gigantesco boliche foi evacuado dos cidadãos locais, que abandonaram o local na mesma hora sem reclamar.

A sequência de eventos não acabava. Depois da visita entediante a uma exposição de flores, assistimos a uma demonstração de patinação no gelo, aliás, de ótima qualidade. No intervalo tentei me comunicar com alguns locais que estavam em volta, mas eles me ignoravam, era como se eu fosse um fantasma. Fugiam de mim apavorados. Tentei comprar um picolé, mas só consegui a guloseima depois que dei o dinheiro para a guia que, por sua vez, comprou do vendedor. Pode-se escolher picolé de qualquer sabor, desde que seja morango.

Nossos guias incluíram ainda uma vista ao metrô da capital, cujas estações servem de abrigo atômico. Nunca tinha visto escadas rolantes tão compridas. É claro que na Coreia do Norte não tem livraria, muito menos jornal. O que eles chamam de jornal são umas folhas de papel impressas que são penduradas nuns quadros de avisos e, é claro, que só tem propaganda do governo.

Um aspecto pitoresco de Pyoyang é que não existem semáforos. O trânsito é orientado por guardas, muito bonitinhas, que executam um delicada coreografia orientando um tráfego quase inexistente. Por último, visitamos um enorme bunker, a umas duas horas da capital, onde a família Kim guarda os presentes que recebe dos quatro cantos do mundo. Numa vitrine exibiam uma bola de futebol autografada pelo Pelé. Evidentemente o bunker também é mais um imenso abrigo atômico.

Terminada a nossa visita, fomos embarcados num trem com destino a Beijing. A viagem durou cerca de 36 horas, cruzamos praticamente todo o país, pobre e devastado. Depois que cruzamos a fronteira devolveram os nossos celulares, assim que liguei o aparelho recebi a notícia que seria avô do meu primeiro neto.

E tenho dito.

NOTA: se você quer saber mais sobre a Coreia do Norte, sugiro a leitura de Nada a invejar: vidas comuns na Coréia do Norte.
Barbara Demick
Cia das Letra
Tem na Livraria da Travessa

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Melancolia

destaque marcelo

Sentados na sala de espera do Santos Dumont, aguardamos. Eu e a minha melancolia.

Tenho andado jururu ultimamente. Os últimos cinquenta anos, para ser mais exato. Ficar melancólico hoje em dia é quase proibido, as pessoas só “saem da depressão” no Castelo de  Caras. É a ditadura da felicidade. Tem que ser feliz, mesmo  que não se queira. Ou não se possa. O primeiro equívoco está aí. Hoje confunde-se depressão, um estado patológico, com melancolia. Melancolia é um estado natural, passageiro e normal do ser humano.

Um sentimento estranho de Pra quê? Para onde? Por quê? Qual é, afinal, o sentido da vida? A sensação de que o tempo está passando. Em seguida vem o sabor amargo do não pertencimento e então… ficamos tristes.

Não se sabe ao certo as razões desta tristeza, quer dizer, no fundo se sabe, mas se a gente for lá no fundo investigar, tem medo de não voltar. Bobagem, sempre se volta. Afinal, se todos os dias fossem felizes, como é que se ia saber que, ao final de determinados dias, concluímos que, aquela, foi uma jornada feliz?

É claro que dezembro e o calor úmido do Rio de Janeiro também ajudam a minha melancolia. Detesto dezembro. Um mês que só tem três semanas, em que somos constrangidos a assumir um clima pseudofestivo de paz e harmonia entre os homens. E entre as  mulheres também, claro. E ainda existem as “festa da firma”, as confraternizações de Amigo Secreto (no Rio é Amigo Oculto), onde trocamos presentes e hipocrisias, e as intermináveis ceias em família.

Quando trabalhava no centro da cidade, na época de ocaso do ano, ficava no serviço até mais tarde. O telefone não tocava, e tinha menos gente enchendo o saco. No dia trinta e um, só meio expediente, era o último a sair do escritório caminhando distraído pelas ruas vazias, pisando o chão coberto de papel picado. Nos bares lotados as pessoas enchiam  a cara.

A vida é um átimo, um súbito intervalo, da eternidade que é a nossa inexistência. Não  fosse este breve espasmo, seríamos eternos em nossa não existência. Por isso mesmo concluo que a vida que temos, boa ou ruim, é o bem mais   precioso. Só o fato de se existir, mesmo que numa miserável aldeia subsaariana, é uma sorte danada, um feliz acaso da natureza.

Portanto, deve-se viver com a avareza de um usurário, com a sede de um náufrago e a curiosidade de uma criança. Sempre. Afinal, vida e mãe só tem uma. E a melancolia faz parte da vida.

Mas, nos tempos que correm, a melancolia é feia, gorda, velha, pobre e banguela. Desconfio até que a melancolia é de direita. É coisa de veado.

Ah! Uma última coisa, já ia me esquecendo: Deus não  existe.

E tenho dito.

PS: se você quer saber mais sobre MELANCOLIA  , não deixe de ler  “Saturno nos Trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil”, de Moacyr Scliar, Cia das Letras, 2003.

Tem na Livraria da Travessa.

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CAMINHANDO E ANDANDO

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CAMINHANDO E ANDANDO  (com Paulo Leminski)

Esta semana passei deambulando pelo Brasil fazendo palestra. Mais uma vez tive a oportunidade de testemunhar a indigência da nossa infraestrutura. O aeroporto de Guarulhos é inacreditável. Os banheiros imundos, desconforto nas salas de espera e, no bar, tiveram a coragem de cobrar 26 reais por um croissant (ruim) com suco de laranja. Outro ponto notável, e não só em Guarulhos, mas por todos os lugares por onde andei, é a  ineficiência dos funcionários, que  não sabem fazer conta e se atrapalham no uso do computador. Existe uma distância imensa entre a educação no Brasil e a informática. Aliás, léguas e léguas separam  qualquer  fundamento do conhecimento humano da  nossa educação que, por isso mesmo, só pode ser grafada em letra minúscula. As estradas federais estão cada vez piores, como se isso fosse possível. Devem ser as obras do PAC. No avião, o ar condicionado não funciona e o aeroplano tem que ficar um tempão com as turbinas ligadas (desperdiçando combustível) porque a escada de desembarque ainda não foi  “disponibilizada”.

Disponibilizada. Como as criaturas adoram usar este termo! Acham que aplicando este verbo esdrúxulo conseguem escamotear  a sua  ignorância. Pior que isso só quando alguém fala o anglo neologismo “estartar”, no sentido de começar algo. Pobre última Flor do Lácio, inculta e bela, onde não se consegue mais pronunciar “começar”, “iniciar”, “principiar”…, são tantas opções, mas  o tal  “estartar “ dá um conteúdo mais tecnológico e pós-moderno à prosa, coisa tão apreciada pelos nossos boçais.

Mas o Brasil é assim mesmo, afinal é o único país do mundo em que Francisco Bosco é considerado intelectual. Ou ao menos ele assim se julga…

No Brasil até a ignorância é santa.

Mas nessa vida nem tudo são urtigas. Durante a jornada, usufruí da companhia de “Passeando por Leminski”, de Domingos Pelligrini.  O livro não é tão somente  um retrato sensível e acurado do grande poeta paranaense, é muito mais do que isso, é o  relato da amizade entre Polaco (Leminski) e Pé Vermelho (Pellegrini). Amizade verdadeira, sincera e  franca. Domingos nos deixa perceber a alma de Paulo Leminski, a inteligência, o humor,  a poesia, a cultura, a filosofia, tudo isso formando um mosto que é destilado na cachaça da literatura. Foi essa a cachaça que matou (e de que viveu) Paulo Leminski e, agora, (paradoxo!)  o ressuscita, na reedição de “Toda Poesia”. É a primeira vez que eu vejo um livro de poesias virar best-seller no Brasil!

Agora vem o absurdo, “Passeando por Leminski” não está à venda nas livrarias, sua publicação foi proibida pela mulher e pelas filhas de Leminski. Não existe explicação razoável para tamanha violência. Enquanto não se resolve a pendenga,  Domingos Pellegrini colocou a obra na internet, à disposição do público, num ato de generosidade sem precedentes na literatura brasileira, já que o livro é uma obra-prima.

Coloco em anexo uma cópia da obra para serbaixada, mas sugiro aos leitores que assumam consigo mesmos o compromisso de adquirir uma cópia do livro, assim que for publicado. Pois há de ser. Só quem vive de escrevinhar sabe quando custa a epopeia. É uma estiva. O  pior é que pagam muito pouco por ela. Ao contrário do que pensam Roberto Carlos e o pessoal do Procure Saber.

Clique aqui para baixar o livro

E tenho dito.

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