DESABANDO E ANDANDO

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Eu tenho vergonha de ser brasileiro. E tenho muita vergonha de ter escrito essa frase. E a minha vergonha só aumenta na certeza de que a afirmação acima tem fundamento.

Às vésperas dos Jogos Olímpicos, despenca a ciclovia da Niemeyer. Erro de projeto? Erro de execução? Pouco importa, o fato é que caiu. Com certeza, a abrupta interrupção da via ficará ali, abandonada, aguardando um julgamento distante, graças à morosidade e à ineficiência da nossa Justiça. Vai acabar virando mais um monumento à nossa incompetência, como aquele viaduto que desabou em Belo Horizonte pouco antes da Copa do Mundo ou as enormes estruturas de concreto que cruzam a cidade de São Paulo. Os imensos pilares serviriam para apoiar os trilhos do monotrilho ligando os aeroportos de Congonhas a Cumbica para o Mundial de 2014. Jamais veremos a trapizonga funcionando. Alguém duvida?

Daqui a milênios seremos lembrados como uns egípcios ao contrário. Eles, os antigos egípcios, construíram as pirâmides que serviram de tumbas para os seus faraós. Nós, os brasileiros, seremos lembrados por obras faraônicas que serviram para sepultar o futuro.

Salvo engano, estas Olimpíadas no Rio, em 2016, serão um grande fiasco. Serão a nossa consagração perante o mundo como “o povo do papo-furado”. Os campeões mundiais da bazófia, os ases da megalomania, os titãs da arrogância e da irresponsabilidade.

Não tem a menor chance de dar certo: a economia devastada, uma crise política monumental, uma sociedade em conflito, cercada por escândalos e roubalheiras. Uma nação falida num labirinto à procura de valores, de ética e compostura.

Hospedar Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e outros eventos internacionais é coisa para país rico, sociedades organizadas. Não é para o “bico” do Brasil, um país que não tem saneamento básico, saúde, segurança nem educação digna do nome. Antes de enfrentar o desafio olímpico, tínhamos que vencer outras contendas muito mais difíceis, importantes e decisivas.

Contratamos uma festa a qual não podemos pagar. Somos igual àquele idiota que mora num barraco, mas tem uma Ferrari zero quilômetro parada na garagem. Não sobrou para a gasolina.

Mas vexame internacional já está virando produto típico brasileiro, assim como a feijoada e as mulatas de escola de samba. A nossa roupa suja doméstica virou assunto e motivo de piada na comunidade internacional. O célebre malandro brasileiro finalmente mostrou a sua cara. Malandro otário.

A esquerda religiosa vive a Síndrome do Corno Apaixonado: apesar das evidências, não consegue enxergar os delitos de suas lideranças.

Os conflitos se radicalizam, as opiniões estão polarizadas: Bolsonaro é o nosso Le Pen e o Lula o nosso Pol Pot. Essas duas paralelas não se encontram no infinito, mas logo ali no bar da esquina.

O primeiro passo para sair deste beco sem saída está em nós mesmos: reconhecer a nossa indigência, a nossa incompetência, o nosso desprezo pelo estudo, pelo conhecimento e esforço. A começar pelos mais esclarecidos, a nossa “upper class”, que é, na média, de quinta categoria.

Não é à toa que somos um povo tão religioso. Aliás, panreligioso. O brasileiro, vive à espera de um milagre, e por isso mesmo acredita em qualquer coisa menos no conhecimento, que é o oposto do milagre.

Conhecimento requer estudo, dedicação e esforço e isso dá muito trabalho.

Somos um povo autoindulgente e complacente com nós mesmos. Achamos que somos o máximo, o melhor país do mundo, o mais bonito, o povo mais cordial e simpático. Bobagem! Quem inventou uma besteira dessas? Não conheço nenhum outro povo do mundo que cultive uma idiotice semelhante. Nem os argentinos!

Sequer somos uma nação, no sentido estrito do termo. Não temos um projeto único, uma aspiração comum. Somos um bando de corporações, cada uma brigando por suas conveniências e interesses próprios. A única coisa que nos une enquanto nação, o futebol, está em plena decadência. Não é de se espantar.

O Brasil é obra ainda por ser construída, mas livre de empreiteiros e políticos corruptos e suas contas superfaturadas.

É, no mínimo, curioso observar, no desenrolar da operação Lava-Jato, como o Supremo Tribunal Federal é leniente com a classe política. Empresários e ex-funcionários de estatais estão presos em Curitiba. Enquanto isso, réus indiciados presidem o Senado e a Câmara dos Deputados. É fácil de entender: são compadres, parceiros e comparsas de empreitada.

Não vai ter golpe e as Olimpíadas serão um tremendo anticlímax. Fosse este um país sadio, já estaríamos respirando e transpirando a atmosfera festiva dos Jogos.

Mas qual! Com desemprego, zika e desabamentos, quem vai ter cabeça para Olimpíadas? Olímpica mesmo é a preocupação dos operários que ainda trabalham nas obras e sabem que em pouco tempo estarão engrossando o exército de desempregados.

Na porta dos estádios ficaremos vendendo churrasquinho e chupando o dedo.

Na verdade, e como sempre, não estamos nem aí.

E tenho dito.

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A TRAGÉDIA PETISTA – 2

PARTIDO BANDIDAGEM_2Zander, Navarro – A tragédia petista – 2

– O Estado de S. Paulo

 

Nesta página esbocei uma interpretação sociológica acerca do desenvolvimento do campo petista (A tragédia petista, 26/10) e agora cabe determinar uma equação que possa revelar as principais variáveis de sua sustentação. Quem sabe, assim, entenderemos os ingredientes que explicam o continuado êxito eleitoral do PT.

 

Na analogia com a matemática, seriam muitas as variáveis a desvendar, entre as principais e as secundárias. Algumas surpreendem, como a espantosa passividade de nosso povo, sujeitando-se às corriqueiras manipulações do sistema partidário, comportamento que inclui até cientistas sociais com elevada formação científica.

 

Mas outras variáveis não são inesperadas, como o uso do Estado com fins primordialmente partidários ou a ocorrência dos absurdos gastos com propaganda. São fatos que tornam remotos os ideais republicanos que nos deveriam orientar.

 

Neste comentário sugiro que duas constantes e uma incógnita também compõem a equação, todas demonstrativas do crescimento do campo petista, especialmente nos anos pós-Constituinte e no curso da democratização do País. Contudo não são as variáveis que seriam logicamente antecipadas e a incógnita, provavelmente, não tem nenhuma chance de ser desvendada. Já as duas constantes constituem o eixo central do edifício petista.

 

A primeira delas diz respeito à capacidade de elevar ininterruptamente o caudal de votos destinados ao partido. Numa democracia eleitoral, o acesso ao poder e ao Estado requer maiorias em eleições regulares. Aqui, o mecanismo decorreu da sorte circunstancial do campo petista, que foi a explosão contemporânea da expressão participação social. Esta surgira pelas mãos da clássica teoria democrática pluralista, definida, em especial, por autores norte-americanos, como Robert Dahl e outros, nos anos 1970. Mas foi expressão tornada obrigatória apenas na década de 1990, em quase todo o mundo. Ideólogos petistas, entretanto, dela se apropriaram, tornando-a (falsamente) uma prerrogativa da tradição da esquerda.

 

Participação social tornou-se o fulcro da propaganda do partido, prometendo que os cidadãos teriam poder decisório sobre as coisas públicas, um sonho de teorias democráticas que a esquerda petista, espertamente, vendeu como criação sua. Foi assim com o Orçamento Participativo, a grande bandeira do partido naqueles anos, e tem sido da mesma forma com a multiplicação de conselhos, iniciando-se pelo setor da saúde e seus coletivos municipais. Posteriormente, o ideal participativo irradiou-se para as demais áreas, unindo uma narrativa que é irresistível, pois abriria o Estado à voz dos cidadãos, porém combinada a uma camuflada ação partidária capaz de capturar, cada vez mais, currais eleitorais e, ao fim, mais votos. Em poucas palavras: um discurso em si mesmo democrático, mas distorcido pela desonestidade petista, escondendo seu principal objetivo, que é a manipulação dos participantes, vistos apenas como portadores de votos necessários à conquista dos governos.

 

A presidente reeleita conhece bem esse mecanismo: seu antigo abrigo, o PDT, era o principal partido em Porto Alegre, mas foi varrido do mapa pelo Orçamento Participativo, o qual cooptou as lideranças dos bairros, recrutando-as para o guarda-chuva petista. Conselhos e conferências nacionais, somados à oferta de todos os tipos de bolsas: nada disso tem alguma coisa que ver com a venezuelização e menos ainda com a democratização do Brasil. Relaciona-se, exclusivamente, à conquista do Estado por meio de um processo de clientelismo partidário sem precedentes em nossa História.

 

A segunda constante da equação se chama corrupção. Nenhum partido sobrevive sem dinheiro, é preciso financiar seu funcionamento, com custos cada vez mais altos. Aqui serei breve, pois os fatos atuais, divulgados em escala crescente, emudecem a cidadania, perplexa com a ousadia de um partido que antes pregava a correção ética, à exaustão. O assalto à Petrobrás torna tal escândalo o maior já registrado e, simultaneamente, marca o PT como o partido mais corrupto da História brasileira. Os petistas serão capazes de lidar serenamente com os fatos iluminados pelo avanço das investigações?

 

Como responder à colossal transferência de recursos públicos para garantir o sucesso de um partido?

 

E lembremos, pois é gigantesca a crueldade política: o escândalo incide sobre uma sociedade desigual como a nossa, na qual prevalece uma estrutura regressiva de tributos, prejudicando os mais pobres. Como um partido autointitulado de esquerda se pode envolver nesse inominável crime?

 

E assim chegamos ao terceiro elemento que pretendo apontar nestas notas e que diz respeito à incógnita da equação. Ou pelo menos assim aparece, pois ainda não foi decifrada. Trata-se da pergunta: qual o objetivo finalístico de tudo isto? Há no horizonte de longo prazo um projeto para o Brasil ou um plano para reconfigurar a Nação que igualmente descreva a estratégia do jogo?

 

A resposta a essas indagações realça a maior de todas as vilanias, pois esses objetivos são inexistentes. Deixo o desafio: que alguém aponte algum documento de alguma significação mais substantiva, com a assinatura do Partido dos Trabalhadores, no qual esteja delineado um cenário de transformações para o Brasil. Como insistido no artigo anterior, o partido deixou de pensar desde os anos 90 e, em tempos recentes, tem sido incapaz de sequer refletir sobre o País, apontando os desafios e as mudanças que nos fariam uma Nação próspera e justa. Conformou-se com as delícias do poder, do consumo e do dinheiro produzidos pela ascensão social de seus operadores.

 

Esse é o coração da tragédia petista e nos deixa, os cidadãos, prostrados e à espera. Seria o anúncio da mudança que os atuais detentores do poder nem ao menos sabem enunciar, mesmo que retoricamente.

 

Sociólogo, é professor aposentado da UFRGS

 

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PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO

aborto

Nos jornais desta semana, duas mulheres cruelmente assassinadas, vítimas de abortos clandestinos malsucedidos: Notícia 1. Notícia 2. 

Enquanto milhares de mulheres se submetem à prática clandestina do aborto no Brasil, a sociedade hipócrita em seu conjunto vira as costas para o assunto. Faz de conta que não vê e vai ficando tudo por isso mesmo. Até quando?

Como diria Jack, o estripador, vamos por partes.

Está mais do que na hora de se discutir uma política demográfica. E não só para o Brasil, mas para o mundo inteiro. A população do planeta se aproxima perigosamente do número de 10 bilhões de habitantes, e as consequências já estão aí, principalmente no meio ambiente. Quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendo um livro de rápida leitura, mas muito esclarecedor, chama-se 10 Bilhões, de Stephen Emmott, cientista da Universidade de Cambridge.

Mas, por enquanto, vamos do geral para o particular. É cada vez maior o número de adolescentes, ou mesmo meninas, grávidas, principalmente entre as populações mais desassistidas. O fenômeno vai se repetindo por gerações. Eu conheço mulheres que já são avós com menos de trinta e cinco anos. São crianças, filhos de pais pobres, que vêm ao mundo por acidente, e cujo destino é a repetição do modelo de pobreza, ignorância e indigência.

aborto_dinaO que fazer? Antes de mais nada, é necessário educar as crianças sobre os “fatos da vida” e, principalmente, ensinar e fornecer os meios para que se protejam não só de uma gravidez indesejada, mas também das DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis. Se houvesse uma política eficiente de educação sexual, a maioria das mulheres não precisaria recorrer ao procedimento extremo do aborto.

E o aborto? O aborto deve ser tratado como um procedimento médico, eletivo, cuja decisão final fica a critério exclusivo da paciente, depois de um parecer médico. Para tanto, bastaria recorrer a hospitais ou clínicas, privadas ou públicas, capazes de oferecer as melhores condições materiais e psicológicas para aquelas que optassem pela interrupção da gravidez.

Fazer um aborto não é uma decisão fácil. E nem precisa ser mulher para entender isso. Sem falar do procedimento invasivo, inúmeras questões emocionais e morais se fazem presentes. É fundamental que a paciente tenha todo o amparo possível neste momento difícil da vida. As pressões, principalmente as de caráter religioso, são tremendas. E as religiões são, ainda, estupidamente obscurantistas e retrógradas com relação a esta questão.

O que não pode é milhões de mulheres terem que se sujeitar ao submundo de clínicas clandestinas e às práticas de “curiosos”, submetendo-se a um procedimento que, do ponto de vista médico, é simples, quase trivial. Direito ao aborto não é caso de polícia, é caso de saúde pública.

E tenho dito.

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