VOANDO E ANDANDO

Desde criança sou fascinado por aviões. Cheguei mesmo a pensar em ser piloto, mas a miopia (e os meus pais) não ajudaram a realizar a empreitada. Burro velho, entrado nos anos, reuni as condiçõe$ objetiva$ para realizar o velho sonho de voar. Me inscrevi no Aeroclube do Brasil em Jacarepaguá, o segundo mais antigo do mundo. Depois de fazer todos os exames exigidos (rigorosos), passei a tomar aulas no aeroclube. Pilotar um avião é um exercício muito curioso e útil em várias circunstâncias da vida. Você aprende a ser meticuloso, cuidadoso, planejado e paciente observador de rotinas. Antes de entrar na aeronave um piloto tem que fazer uma minuciosa inspeção externa do aparelho, checar o combustível, checar as condições atmosféricas e planejar com muita atenção o que pretende fazer: ponto de partida, ponto de chegada, pontos de navegação no trecho, cálculo do consumo de combustível, aeroportos de alternativa em caso de emergência. É um monte de coisas.

Já à bordo, cinto afivelado, deve-se seguir à risca os cheques previstos para cada etapa do percurso. Desde o acionamento dos motores até a hangaragem do avião no destino final. Pilotar uma aeronave exige total concentração e são raros os momentos em que se pode relaxar e apreciar a paisagem. Este é um privilégio do passageiro. O piloto tem que estar atento à fonia (rádio), ao tráfego nas imediações, funcionamento dos sistemas… é uma trabalheira danada. Quanto mais simples o avião, mais exigente ele é. Manter o “bichinho” aprumado, bem compensado, na proa exata e tudo com muita suavidade que é para não assustar os passageiros. E o mais importante e que aprendi logo nas primeiras lições: o piloto tem que “voar na frente do avião”, ou seja, tem que pensar e antecipar tudo o que tem que fazer, contando, inclusive, com a possibilidade de pane ou qualquer outra intercorrência. É por isso que o avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Apesar de tudo isso, pilotar um avião de verdade é um enorme prazer. Só quem voa sabe a alegria de uma manobra bem feita, um pouso perfeito e apreciar aquele cheirinho de aeroporto…

Pois então, na segunda-feira passada tomei um susto ao saber que o Adelmo havia morrido em um acidente, na Lagoa de Maricá, com um Sêneca do Aeroclube, o Kilo-Golfo-Kilo. Adelmo não era só um cara muito legal e amante incondicional de voar. Adelmo coordenava toda a instrução de pilotos no Aeroclube do Brasil com dedicação, responsabilidade e competência. Acumulava mais de 3 mil horas de voo e jamais pensei que viesse a ser vitima de acidente aeronáutico. Estou muito intrigado com o que possa ter acontecido. Afinal, Adelmo Louzada era um defensor da boa doutrina aeronáutica e aprendi com ele que “na dúvida, aborta a missão”. Acidentes com aeronaves são sempre apurados com rigor, principalmente para que não se repitam. Pilotos aprendem com os azares de seus colegas, faz parte do ofício.

Fica o meu agradecimento eterno ao comandante Adelmo Louzada por tudo que me ensinou e a promessa que não vou esquecer das lições e muito menos de sua sempre alegre pessoa.

 E tenho dito.