TERRORISMO, ATENTADO E HISTERIA

Uma das piores sequelas provocada por um atentado terrorista é a histeria. A histeria só leva ao pânico e o pânico leva a decisões e conclusões quase sempre equivocadas. Na verdade, disseminar a histeria e o pânico é o principal objetivo de qualquer atentado terrorista que se preza.

Vamos examinar rapidamente a tragédia de Nice no último 14 de julho.

Três possibilidades se apresentam e todas são, até agora, igualmente prováveis. A primeira é a de ter sido mesmo um ataque terrorista. A segunda é de ter sido um ato isolado provocado por um psicopata em crise e que, portanto, não pode ser responsabilizado por seus atos. Uma terceira hipótese seria um pacato cidadão, recém-abandonado pela mulher, suspenso no emprego por dormir ao volante e, portanto, deprimido. Em surto, o sujeito resolve promover uma tragédia talvez para diminuir a imensidão de sua tragédia pessoal e chamar a atenção para a sua pessoa. Ou seja, caímos no Buraco Negro dos mistérios incontroláveis, insondáveis e incompreensíveis da alma humana. Essa terceira possibilidade é justamente aquela que menos desejamos por ser justamente a mais aterradora.

Acontece que o indivíduo tem nome muçulmano e é franco-argelino. Pronto, a imprensa toda se encarrega de espalhar a histeria. Chega a ser patético os canais de notícias, em busca de audiência, ficarem horas e horas noticiando a mesma coisa ao mesmo tempo que especulam sobre o fato sem nenhuma evidência concreta.

Na verdade existe um desejo subjacente de que seja realmente um atentado terrorista uma vez que assim, voilá!,  fica tudo esclarecido e justificado. Mas não é, as armas no caminhão eram de plástico e o prototerrorista, pelo menos até agora, não tem nenhuma ligação com grupos radicais ou similares.

Quem ganha com isso? Os grupos terroristas, que no mínimo creditaram na sua conta mais um atentado e, melhor de tudo, grátis.

Vamos parar com esta histeria?

E tenho dito.

 

MARIO VARGAS LLOSA: A felicidade, que piada !

Li em alguma parte que, segundo uma pesquisa realizada no mundo inteiro, a Dinamarca era o país mais feliz do planeta. Eu pretendia escrever esta coluna tomando emprestado o título de um livro de contos do meu amigo Alfredo Bryce perfeito para o que eu desejava, ou seja, colocar em ridículo a pesquisa, quando ocorreu em Copenhague o duplo atentado jihadista que custou a vida de dois dinamarqueses – um cineasta e um segurança judeu de uma sinagoga – e feriu três policiais.

Que maior prova de que não há, não houve e nunca haverá “países felizes”? A felicidade não é coletiva, mas individual e privada. O que torna feliz uma pessoa pode deixar infelizes muitas outras e vice-versa. E a história recente está repleta de exemplos que demonstram que todas as tentativas para criar sociedades felizes – trazendo o paraíso para a terra – originaram verdadeiros infernos. Os governos devem ter como objetivo garantir liberdade e justiça, educação e saúde, criar igualdade de oportunidades, mobilidade social, reduzir ao mínimo a corrupção, mas não se imiscuir em assuntos como felicidade, vocação, amor, salvação ou crenças, que são de domínio privado e onde se manifesta a venturosa diversidade humana, que deve ser respeitada, pois todas as tentativas de regulamentá-la sempre foram fonte de infortúnio e frustração.

A Dinamarca é um dos países mais civilizados do mundo em razão do funcionamento exemplar da sua democracia. Basta ver a magnífica série de TV Borgen para comprovar isso – por sua prosperidade, sua cultura, porque as distâncias que separam os que têm muito e os que têm pouco não são tão vertiginosas como, digamos, na Espanha ou no Peru. E porque até agora pelo menos, suas políticas com relação aos imigrantes, empenhando-se para integrá-los e ao mesmo tempo respeitando seus hábitos e crenças, são as mais avançadas – embora, por infelicidade, tenham tão pouco êxito como as adotadas por outros países europeus. Mas a felicidade ou infelicidade dos dinamarqueses está fora do alcance das medições superficiais e genéricas das estatísticas; seria necessário averiguar a fundo em cada um dos lares desse belo país e, provavelmente, o resultado dessa exploração impertinente da intimidade dinamarquesa indicará que os níveis de felicidade, satisfação, frustração ou desespero nessa sociedade são tão variados e de matizes tão diversos que toda generalização é arbitrária e enganosa. Por outro lado, basta inspecionar as manifestações de dor, perplexidade, angústia e confusão dos dinamarqueses face ao último atentado terrorista para perceber como, similarmente a todos os outros países, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais livres aos mais oprimidos, também na Dinamarca a segurança hoje é precária e ninguém está livre de ser assassinado – ou decapitado – pela onda de fanatismo que continua se propagando pelo mundo, da mesma maneira que as pestes na Idade Média pareciam cair sobre os homens como castigos divinos.

O terrorista, Omar Abdel Hamid al-Hussein, um jovem de 22 anos de origem palestina, mas nascido e educado na Dinamarca, não era, segundo professores e amigos, um marginal semianalfabeto cheio de ressentimentos para com a sociedade da qual se sentia excluído.

Mas – algo que não é raro entre os últimos jihadistas europeus – inteligente, estudioso, amável e com “vontade de servir aos outros”, de acordo com um dos seus conhecidos. Contudo, participou de quadrilhas e esteve na prisão por roubo e outros tipos de violência. Em algum momento essa “boa pessoa” se tornou delinquente e fanático.

Antes de cometer seus crimes postou vídeos de propaganda do Estado Islâmico, provavelmente nos mesmos dias em que o EI decapitou 21 cristãos coptas egípcios apenas pelo crime de não serem muçulmanos, filmando a façanha com uma abundância perversa de detalhes e com ferozes prédicas antissemitas. Tudo indica que sem o valente Dan Uzan, que impediu a sua entrada em troca da própria vida, o terrorista teria cometido na sinagoga, onde se celebrava um bar mitzvah, um massacre descomunal.

Seu primeiro objetivo, quando atacou o centro cultural onde foi interceptado pelos três guardas feridos, era Lars Vilks, caricaturista sueco (a Suécia, como a Dinamarca, é um dos outros países mais civilizados, democráticos e prósperos do mundo) que os radicais islâmicos perseguem ferozmente desde que, em 2007, ele fez uma exposição de seu trabalho em que o profeta Maomé aparecia com o corpo de um cão. Homem tranquilo, nada provocador, Lars Vilks explicou que não criou aquelas caricaturas com intenção de ofender crenças religiosas, mas para exercer uma liberdade, considerando a irreverência e o humor cáustico direitos irrenunciáveis. O que tem lhe custado caro: já foi vítima de dois atentados, sua casa foi incendiada, necessita ser protegido por uma escolta do governo sueco 24 horas por dia e a Al-Qaeda ofereceu um prêmio de US$ 100 mil a quem o matar (e US$ 50 mil para quem degolar Ulf Johansson, editor que publicou as caricaturas).

O caso de Lars Vilks é interessante, pois mostra as ambições ecumênicas do fanatismo islâmico: ele não pretende apenas restaurar o fundamentalismo primitivo da sua religião entre os fiéis, mas intervir nos espaços onde o Islã não existe ou é minoritário, com o objetivo de submetê-lo às mesmas proibições e tabus obscurantistas.

O Ocidente democrático e liberal, que deixou de considerar a mulher um ser inferior e um objeto nas mãos do homem, que separou a religião do Estado, que respeita a crítica e a dissidência e pratica a tolerância e a coexistência na diversidade, é seu inimigo e um objetivo cada vez mais frequente de suas operações sanguinárias.

É óbvio que essa ameaça não terá êxito nem destruirá o Ocidente. O perigo é que, por prudência ou também por convicção, alguns governos ocidentais comecem a fazer concessões, estabelecendo limites à liberdade de expressão e de crítica, argumentando que os costumes e as crenças do outro devem ser respeitados (mesmo ao custo de ter de renunciar às próprias?). Se esse critério acabar prevalecendo, os fanáticos islâmicos sairão vitoriosos e a cultura da liberdade entrará num processo que culminará no seu desaparecimento.

Nessa trajetória, todas as grandes conquistas da democracia, do pluralismo político e a igualdade entre homens e mulheres, até o direito de crítica que inclui o da irreverência, é claro, terão selada sua sentença de morte. Em alguns lugares da Europa já tem sido admitido o uso do véu islâmico, símbolo flagrante da humilhação e da discriminação da qual a mulher é vítima em alguns países muçulmanos, e a existência de piscinas públicas separadas por sexo, com argumentos que poderão chegar à loucura de tolerar os matrimônios pactuados pelos pais e até a castração das adolescentes para garantir sua virtude.

Qualquer concessão nesse campo não servirá para matar a sede dos fanáticos; pelo contrário, eles se tornarão mais ousados e convencidos de que o inimigo está retrocedendo, que tem medo e já se sente derrotado.

A primeira ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, na homenagem que prestou a seus compatriotas assassinados pelo jihadista dinamarquês, lembrou que as maiores vítimas do fanatismo islâmico são os próprios muçulmanos, que os jihadistas assassinam e torturam aos milhares no Oriente Médio e na África. É preciso ter isso em mente e saber que é por esse motivo que os europeus, como Lars Vilks, enfrentam com coragem o desafio do terror e lutam para salvar da barbárie não só a Europa e o Ocidente, mas a humanidade inteira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO20110314-Mario Vargas LLosa

CHARLIE HEBDO

Viajávamos por um país muçulmano quando um cartunista dinamarquês publicou cartuns fazendo graça com o profeta Maomé. O nosso guia no trajeto era um arqueólogo, professor universitário, poliglota, culto e muito educado. O curioso é que qualquer pergunta que a minha mulher fizesse o sujeito respondia para mim, como se minha companheira fosse uma criatura etérea, um fantasma. Todas as noites, enquanto o nosso barco calmamente descia as águas do Nilo sentávamos, só nós dois, para uma animada prosa. Pois então, no dia em que o cartunista publicou as piadas sobre Maomé, o professor fez um discurso indignado contra o desrespeito ao Profeta, justificando inclusive a fatwa (sentença de morte religiosa muçulmana por anátema) lançada contra o humorista infiel. Obtemperei ao cavalheiro que, na nossa civilização judaico-cristã ocidental, fazia-se piada não só com Maomé, mas também com Jesus, Moisés e até mesmo com Deus em pessoa. A sociedade não só tolerava como ria junto. Por outro lado – prossegui – o que não eu entendia, nem aceitava, era a maneira que a cultura muçulmana trata a mulher. Discutimos, argumentamos, replicamos, triplicamos e chegamos à inteligente conclusão de que vivíamos em culturas distintas, com valores diferentes e que havia de existir uma forma de convivência respeitosa. Ponto.

O atentado ao Charlie Hebdo, fora a violência explícita e injustificada, traz consigo um enorme simbolismo: o encontro da intolerância com o fundamentalismo na sua forma mais extrema. O atentado foi praticado por fundamentalistas muçulmanos, mas poderia ter sido obra de um grupo radical politicamente correto. Já devem existir alguns, afinal bestas fundamentalistas são todos farinha do mesmo saco.

Assim sendo, como humorista, e em memória das vítimas desse ato terrorista, reproduzirei aqui uma passagem que encontrei no Alcorão:

“Estava o Profeta Maomé, escondido atrás de uma duna (virado para Meca), deixando-se sodomizar por um porco. No ápice do prazer anal, o coito foi interrompido por uma pobre mulher que surpreendeu aquela cena dantesca exclamando:

  • Pelas barbas do Profeta! Seu Maomé! O que é que é isso? Dando o rabo para um porco!?

O sábio Maomé não se abalou. Calmamente virou-se para o porco, que chamava-se Jorge, e disse:

  • Joooooorge, tira.

Em seguida, o mensageiro de Alá olhou para a pobre mulher e indagou:

  • Mulher, o porco é seu?
  • Não – respondeu a criatura.
  • A duna é sua?
  • Também não – disse a fêmea impura.
  • A bunda é sua?
  • Claro que não, Profeta!

Dito isso, Maomé virou seu rosto para Jorge, o porco, e ordenou:

  • Então… Joooooorge, bota!

Mas vocês pensam que a história acaba aí? Nada disso, segue adiante.

Continuavam, Maomé e o porco Jorge, naquele vuco-vuco sem-vergonha quando, de repente, chega o grande talmudista Shmuel Ben Yacov, o rabino de Belz. Ao ver aquela cena de pederastia, não se conteve e reclamou:

  • Porra, Maomé? Que merda é essa? Você dando o cu para o porco Jorge, que eu ia justamente comer no próximo Shabat? Agora ele não é mais kasher…

A porradaria já ia começar entre judeus e muçulmanos quando, subitamente, apareceu Jesus Cristo em pessoa para resolver aquele conflito religioso:

  • Ô Shmuel, deixa isso prá lá. Desencana desse porco… Vem comigo que a minha mãe arrumou uma turma de garotinhos do Colégio Santo Inácio pra chupar o nosso pau…”

Pronto, fundamentalistas, podem vir me pegar. Eu espero vocês com o meu Kalashnikov A-47 devidamente carregado.

E tenho dito.