ATRAVESSANDO O MERCOSUL

O Mercosul não funciona. Levamos duas horas para atravessar a fronteira Brasil–Argentina. Justiça seja feita, sair do Brasil é muito fácil. Também, pudera, do jeito que o país está quem é que vai querer impedir alguém de sair?

Entrar na Argentina é uma África, não, talvez seja mais fácil atravessar as fronteiras africanas. O pior é que ninguém pode sair do ônibus enquanto examinam a papelada. Depois toca sair do coletivo para passar a fronteira com a bagagem de mão. Então reembarca para andar 50 metros e, novamente, desembarque para a fiscalização das malas do bagageiro. Felizmente só tenho bagagem de mão. Pensar que 9 horas da manhã já estávamos na região da tríplice fronteira (Paraguai, Argentina e Brasil) e que só fomos liberados ali pelas duas da tarde, em 5 horas rodamos uns 150 quilômetros, se tanto.

Vamos tomar como exemplo a Comunidade Europeia, basta entrar num país da comunidade e pronto, não tem mais que se fazer controle de fronteiras. No caso do Mercosul, como tudo por aqui embaixo, é complicado. Fico imaginando como deve ser o trânsito de mercadorias entre os países do Mercosul: mais um pretexto para aumentar a burocracia, a corrupção e o aumento dos custos de comércio.

Pela manhã paramos 30 minutos para reabastecer já em Foz do Iguaçu. É aquela correria para ir no banheiro, escovar os dentes e engolir um café. Aproveitamos para fazer a “foto oficial” da viagem. Agora já são 15:55 e enfrentamos muita dificuldade para mandar matérias para a base. Principalmente por conta da instabilidade do sinal.

Estamos muito atrasados, a próxima previsão de parada só no final do dia, 30 minutos para abastecer. Entramos na Argentina pela província de Missiones, considerada uma das mais pobres do país, talvez por isso a precariedade na infraestrutura de comunicações. Vamos pela ruta 12 na direção de Posadas, depois Corrientes e em seguida Salta, capital da província de mesmo nome, uma cidade maior e conhecida pelos vinhos. Apesar de ateu praticante estou aqui rezando por um sinal de internet minimamente estável. Temos um monte de material para transmitir.

Completamos 28 horas de viagem, no ônibus as condições de habitabilidade vão se deteriorando como era de se esperar. O que mais incomoda é quando alguém come alguma coisa no ônibus fechado, o cheiro incomoda. Até agora podemos dividir os viajantes em dois grupos distintos. O pessoal mais “animado” que fica na dianteira no segundo andar e os mais tranquilos que preferem ficar quietos mais para os fundos do coletivo. Vamos ver quem chega mais inteiro.

Segundo os cálculos do Lucio, colega de viagem, Rio Lima são 120 horas de viagem, ou seja, mal cumprimos 20% do percurso. Melhor não pensar muito nisso. Lucio é um personagem curioso. Índio, parrudo, socado, típico brasileiro de raiz, 57 anos e viaja só. Veterano da Libertadores de 81, supersticioso confesso, fez questão de vir de ônibus como fez 37 anos atrás. Vendedor atacadista de alimentos “fugiu”do serviço sem avisar o patrão (muitos por aqui estão nesta situação) mas continua trabalhando através do seu ipad atendendo a clientela. Lucio é um dos fundadores da Flamante, uma torcida organizada que completou este ano 50 anos de existência.

Tem também o Danilo, o dono do Doze, o cãozinho que consegui, agosto passado, levantar grana para um tratamento de câncer através das mídias sociais. Por conta desta história Doze e Danilo viraram assunto no Fantástico. Para conseguir os 10 mil reais para a cirurgia e quimioterapia do seu cão, Danilo fez uma rifa do seu bem mais precioso: um ingresso para o Flamengo e Grêmio, a goleada histórica. Danilo é um sujeito especial. O dinheiro do tratamento do Doze é sagrado, como comprar o ingresso para a final da Libertadores? Pegou “emprestado” o cartão de crédito da Renata, sua namorada. Sem avisar, é claro. A moça, com razão ficou três dias sem falar com o namorado.

No meio disso tudo o pai do Danilo em coma por 20 dias no hospital por conta de intercorrências de uma cirurgia. Danilo fica atormentado se vai ou não vai até Lima para a final. Filho único, visita o pai diariamente nessa agonia.

Tem mais um detalhe. Viajar como? Com que grana? Com a ajuda do Papparazo Rubro-Negro consegue um contato na Buser que, sensibilizada com a situação do rubro negro, oferece passagem e estadia. E não é que de um estado muito grave o Seu Nelson, pai do Danilo, sai do coma e começa a melhorar? Não é à toa que o Danilo é um cara superpositivo, pra cima. Não conhece tempo quente. Gostei muito da entrevista que fiz com ele para o YT.

Tem mais um monte de gente interessante aqui. E ainda tenho mais de 90 horas para contar. Hoje vou ficando por aqui. Abraço forte.

 

Marcelo Madureira

 

QUE DOIDEIRA É ESSA MARCELO MADUREIRA?

De partida para Lima, Peru, 5 dias de ônibus.

São cinco dias direto. Vocês devem estar se perguntando o que é que estou fazendo aqui. Eu também. Talvez consiga descobrir até a sexta-feira, previsão para a nossa chegada na capital peruana.

Vou na companhia de algumas dezenas de torcedores fanáticos do Flamengo. Fanáticos e duros, pois é preciso muito amor ao rubro-negro para se dispor a esta façanha: cinco dias de viagem de ônibus, chegando na véspera do jogo, assistir a partida, comemorar (se for o caso) e pegar de novo o busão para mais 5 dias de volta.

Vou, porque quero que ir. Como dizia Sir Mallory, o primeiro a escalar o Everest que dizia “Escalamos a montanha porque ela está lá”. Se não tivesse aceitado a incumbência de cobrir esta odisseia, assistiria ao jogo de casa, pela televisão. Acontece que não troco nada por uma boa história.

Estive em Cuba, na Islândia (no inverno!), no Iran, no Afeganistão, na Coréia do Norte… enfim em um monte de lugares extravagantes sempre em busca de boas histórias. E as boas histórias estão nas pessoas, nos personagens que encontramos ao longo da jornada e que nos vão revelando o mundo em que vivemos, suas contradições, suas misérias e maluquices. Procuro colocar sempre uma dose de bom humor, que é para divertir o povo. Quem assiste e quem participa.

Essa é a minha ideia no Pacato Cidadão quadro que concebi e apresentei em 2010 no Fantástico com a preciosa colaboração do Renato Nogueira, editor, do meu câmera, Roberto Thomé, e da nossa incansável produtora Maria Eugenia Brito. Bons tempos.

Hoje, 18 de novembro de 2019, retomo este projeto agora também como produtor através da FLOCKS.TV. Vamos em busca da Taça Libertadores da América, na grande  final River Plate X Flamengo.

Viajo a convite da BUSER e em colaboração com o Paparazzo Rubro Negro, outro grande canal da internet produzido pela FLOCKS.TV.  

Acabamos partindo com uma hora e dez minutos de atraso mas, afinal, que isso significa em cinco dias de trajeto?  A impressão é que tem mais repórter fazendo a cobertura do que torcedor propriamente dito. Até o Caco Barcellos, da Globo vai cobrindo a aventura. O ônibus é muito bom, um alívio para quem vai enfrentar 5 mil e 800 quilômetros de estrada. A poltrona vira uma cama, tem monitor de TV, entrada USB, ar condicionado, banheiro limpíssimo (pelo menos na saída), água gelada, cobertor, travesseiro e três motoristas

Jorge, o segurança, Bianca representante da Buser fazem uma preleção. Não pode bebida à bordo muito menos drogas. Era só o que faltava. Um dos motoristas, o gremista Adriano dá uma panorâmica do trajeto. O que devemos fazer nas aduanas, serão três: Argentina, Chile e Peru. As passagens de fronteira, as vezes demoradas, é que podem atrasar a viagem. O ponto crítico parece a travessia do deserto de Atacama ao norte do Chile. A água é realmente muito escassa e praticamente não tem onde parar.  São muito importantes as recomendações de higiene a bordo. Principalmente quanto ao uso dos banheiros. Deve-se evitar ao máximo fazer o “número 2” no ônibus. Me parece razoável.

Estamos da Dutra, na altura de Resende, acabamos de passar a Academia Militar das Agulhas Negras, alma mater do presidente Bolsonauro. Chove lá fora.  Na nossa nave o clima é de tranquilidade. Os passageiros estão em silêncio. Alguns leem livros, quem diz que flamenguista não lê?

Daqui a pouco a gente volta.

Marcelo Madureira