URUBUSER

A quarta-feira amanhece e continuamos no Buzão. Ontem durante uma gravação lancei a marca da viagem que inventei junto com o meu primo Hélio: Urubuser.

Quando soube faria esta viagem maluca na companhia de rubro-negros o Helinho mandou na lata: “…então vai ser um Urubus !”. Não- completei de bate-pronto- vai ser Urubuser !

Pegou na veia o #urubuser.

Pois é, praticamente 48 horas de viagem e só paramos 4 vezes. São estirões de 12 horas direto. O problema maior é o banho. Brasileiro é obcecado por banho. Seja rico, seja pobre, jovem ou velho, gordo ou magro, LGBT, mulher ou homem, branco, azul ou cafuzo. Brasileiro quer tomar banho.

Fico matutando se essa obsessão não seria uma herança genético-cultural dos nossos índios. Na minha modesta opinião a grande vantagem de ser brasileiro é essa nossa mistureba, essa geléia geral, de tudo que é DNA e cultura que nos proporciona características tão variadas que fica difícil de identificar um brasileiro senão pelo idioma.

Você pode se deparar com um cara amarelo, de olho puxado, cabelo liso e jurar que é japonês mas se trocar duas palavras vai ver que é brazuca. Podem dizer que deve que não, que deve ser descendente de imigrante japonês. Vai no Programa do Ratinho, faz um DNA do “china” que tenho certeza que você vai encontrar tudo que é tipo de cromossoma no vivente. Eu por exemplo tenho até “finlandês”.

Voltando ao banho. Todo brasileiro tem um pouco de índio e índio toma muito banho, vários por dia. O banho nas culturas indígenas em geral, fora a questão da higiene, também é uma atividade social e recreativa.

Nas paradas dos ônibus a primeira pergunta é: tem banho? O problema é que somos muitos, todos chegando ao mesmo tempo. A infraestrutura sanitária não dá conta da demanda. Nas paradas argentinas só tem um chuveiro para cada gênero humano e pior, banho só em dinheiro vivo, ninguém aceita o nosso real, nem cartão de crédito. Banho só com peso argentino.

Vira um banzé. A galera fica revoltada alguns, mais injuriados, ameaçam barbarizar os sanitários. Primeiro barraco da viagem. Nosso segurança entra em ação e acalma os ânimos, mas o clima fica pesado. Nas conversas você pode tirar onda dizendo quantos banhos já tomou durante a jornada.

Agora, enquanto escrevo, no trecho entre a fronteira Argentina-Chile e a cidade de San Pedro de Atacama já completamos 55 horas ininterruptas de passeio. Tenho certeza que vocês querem saber quantos banhos já tomei. Vou dizer: zero. Zero banhos em todo o percurso. Prometo que na próxima parada vou pegar um chuveirão. Está previsto um descanso de uma hora e meia, tempo suficiente para banho e uma refeição decente. A primeira desde o almoço de segunda-feira. O problema é que também tenho outras prioridades, preciso enviar matérias e desde ontem nada de sinal de internet. Dá um desespero pois não tem nada o que se possa fazer. Preparei um plano para otimizar estes 90 minutos de parada. Enquanto mandamos matéria ( se existir sinal) vou revezar na transmissão com o Beto, o câmera, no banho. Depois o mesmo revezamento na refeição. Vamos ver se vai dar certo.

Agora estamos atravessando o altiplano andino. O ponto culminante da estrada fica a 4mil e 800 metros acima do nível do mar. O ar fica rarefeito e muita gente passa mal. O mal da montanha é traiçoeiro, não se pode facilitar. O sujeito pode estar muito bem e, de repente, é uma dor de cabeça forte, tonteira ou falta de ar. A primeira coisa é manter a calma, tentar relaxar e respirar mais fundo e mais lento. Alguns fazem uso do oxigênio que o Buser leva à bordo. O segredo é se movimentar o mínimo possível e devagar. Evitar qualquer esforço. Subir ou descer a escada já faz diferença.

O bacana é a solidariedade da moçada. Tudo é compartilhado. Do biscoito aos perrengues, ninguém fica só, já formamos uma irmandade. É a Nação Rubro-Negra.

Escurece e a quarta-feira vai passando, ao longo dia a paisagem fascina. Os Andes são muito bonitos, mas nada de neve. De ser o aquecimento global. A paisagem é pedregosa, desértica. As vezes é tão desolada que parece que estamos em outro planeta. Quilômetros e quilômetros sem enxergar uma viva-alma. Em compensação vimos as primeiras lhamas e guanacos.

Animal curioso a lhama, só serve pela lã. Não é comestível, não dá leite, não puxa arado mas aguenta bem a altitude. Muito raramente passamos por um povoado de uma dezena de casas estilo andino feita de adobe. Tudo muito pobre.

Amanhã é quinta-feira, quarto dia de viagem. Em frente, para Lima. Sempre.

 

Marcelo Madureira

SOBRE ÔNIBUS E HAMBURGUER

Sete horas da noite em ponto. Portanto completamos sete horas e 50 minutos de viagem, estamos chegando nos arredores de São Paulo. Começo a sentir que a viagem vai ser longa imaginando que até sexta-feira estarei aqui no mesmo lugar e, paradoxalmente, me deslocando por quase 6 mil quilômetros até Lima no Peru.

O que não ainda não contei para vocês é que não vou ficar para assistir ao jogo. Estarei partindo do aeroporto de Lima no sábado às 17:30 para Santiago do Chile. O jogo é as 14h, pode isso Arnaldo? Na capital chilena aguardo 4 horas para embarcar de madrugada rumo ao Rio de Janeiro. Vida dura, mas divertida.

Vou dizer uma coisa para vocês: o Brasil está horrível, vivemos em crise fazem mais de 5 anos. O país engatou uma marcha à ré e saiu destrambelhado, ninguém sabe onde vamos parar. Mas tem duas coisas que melhoraram no Brasil, definitivamente. O ônibus e o hambúrguer.

Para quem nos anos 70 cansou de cruzar a BR-116, Rio- Curitiba- Rio nos ônibus da Penha ou viajava para o Nordeste, nas férias, pela Itapemirim, estes ônibus de hoje são mamão com açúcar. Apesar das estradas brasileiras estejam horríveis, com exceção da Dutra e das rodovias paulistas (São Paulo não é Brasil, é outro país), está tudo caindo aos pedaços , mas os ônibus made in Brasil batem um bolão.

Descobri que os gaúchos, além de dar a bunda, também são ótimos construtores de ônibus. São todos feitos em Caxias do Sul e Erechim e não sacodem mesmo com toda a buraqueira.  São espaçosos, confortáveis, silenciosos e tem filmes e wi-fi.  Hoje de manhã, antes de embarcar, vim de São Paulo, na ponte aérea, parecia que estava num galinheiro lotado. Sem falar que os aviões brasileiros têm mais anúncio que estádio de futebol. E tem aquele perrengue de passar no raio X, mostrar documento, esperar a mala na esteira. E a comida nos aeroportos? Além de caríssima é horrível. Avião só serve para quem tem pressa.

Cansado de ser explorado por tarifas escorchantes das empresas aéreas,  sempre que posso pego um busão para São Paulo. Vou trabalhando, dormindo , pensando na vida… Depois de 6 horas e meia cravadas de viagem , desço com  mochila , pego o metrô e em 20 minutos estou no centro da cidade trabalhando.

Pensar na vida! Taí!  Cada vez temos menos oportunidades de ficar parado, quieto,  pensando na vida. Este exercício fundamental da existência, que é o de colocar as coisas em seus devido lugar. Refletir e encontrar a verdadeira dimensão de nossos problemas.  Por isso mesmo gosto destas viagens longas. Mas esta até Lima no Peru é um pouco demais. Se fosse espírita tenho tempo suficiente para pensar não só nesta vida como em várias outras encarnações.

Agora os hambúrgueres. Comia-se no Brasil um pastiche de hambúrguer. Um prensado de soja misturado com carne sei lá de que animal e outros compostos não identificados. Aliás um prensado não , dois , alface , queijo , molho especial , cebola , picles num pão com gergelim. Chamavam isso de  hambúrguer.  Vamos por partes. Esse composto glutogênico não é queijo, é um produto da indústria petroquímica.  A alface, a cebola e o picles  estão ali só para constar ,  batem ponto e vão embora ,  são os funcionários públicos do sanduiche. O molho só serve para empurrar aquela gororoba toda goela abaixo. E por último, quem disse que eu gosto de pão com gergelim ?

Felizmente tudo isso mudou, e para melhor. Alguém teve a ideia genial de fazer um hambúrguer caseiro, com carne de boi, de espessura correta, suculento e consistente. A rapaziada foi ainda mais longe e começou a inventar   misturas com carne de diferentes cortes e teores de gordura, são os “blends”. Para acompanhar queijo de verdade, alface e tomate na quantidade certa. Sou ortodoxo em termos de hambúrguer, prefiro sem queijo e molho só mostarda Hemmer e um bom Catchup que por isso mesmo não pode ser Heinz. Hamburguer jamais pode ser cortado ao meio e tem que ser comido com as mãos.

Alguns já perceberam que vou “enchendo linguiça” alugando a paciência de vocês.  O ônibus está escuro e não dá para gravar matéria e é muito cedo para dormir. Aos poucos vamos conhecendo os nossos companheiros de aventura. Aqui no nosso buzão , além dos flamenguistas,  tem os jornalistas , o Marcelo de O Globo , alguém da Época, o pessoal da Band Sport , da Sport TV e o Caco Barcellos que vem atrás num carro da Globo.  E claro, eu Marcelo Madureira , o Pacato Cidadão. É o Urubuser.

Amanhã já marquei umas entrevistas. Tem muita gente interessante. Vários literalmente fugiram do serviço, o patrão nem sabe que estão aqui. Tem o Danilo, preocupado com o pai que está no hospital, tem o simpático casal, Francisco e Vânia,  que pagaram dez reais na  passagem, hospedagem e ingresso,  promoção da Buser. Tem o Lúcio que viu o Flamengo ser campeão da Libertadores em 81, em Santiago. Enfim um monte de gente interessante que irei apresentando a vocês ao longo da viagem.

Amanhã terça-feira vou tentar fazer uma participação na Resenha Tabajara e na live do Paparazzo Rubro Negro. Vão me acompanhando no YT, no FB , no Insta e no Twitter. Preciso de vocês!

Vida que segue.

 

Marcelo Madureira

 

Fica em casa, presidente!

Não faz o menor sentido a viagem do presidente Michel Temer a Portugal.  Temer foi assistir ao funeral do ex-Primeiro Ministro Português, Mário Soares, que faleceu aos 92 anos.

Temer não tem nenhuma reunião importante, ele só vai tirar onda de presidente. Neste momento e que o Brasil passa por uma crise, com desemprego, não pega bem um presidente gastar dinheiro público em uma viagem desnecessária.

DOZE DIAS SEM BRASIL

Por conta do casamento da filha, fiquei doze dias fora do país. Isolado em Dorset, no interior da Inglaterra, fiz questão absoluta de me desintoxicar da nossa melancólica realidade. Não tomei conhecimento do que se passava abaixo da linha do Equador. Mas foi em vão. Logo na segunda-feira o escândalo de corrupção na FIFA arrebenta nas manchetes dos jornais e, como não poderia deixar de ser, um brasileiro, o trêfego José Maria Marin, envolvido até o último fio de cabelo (aliás, convenientemente pintado como manda a estética dos pilantras), é devidamente enjaulado pelos agentes da lei. É o Brasil exportando tecnologia para o Primeiro Mundo. É nóis!!!!

Em seguida veio a imensa cara de pau e cinismo dos principais patrocinadores do Mundial de futebol: Visa, McDonald´s, Coca-Cola e Budweiser lançando notas oficiais entre indignadas e surpresas com as maracutaias descobertas na FIFA pelo FBI. Santa ingenuidade! Esses caras são uns cínicos e acham que nós somos idiotas. Convivendo anos e anos com a corja fifense, vai dizer que os sponsors oficiais nunca desconfiaram (quando não participaram) das jogadas mirabolantes que nada têm a ver com futebol. Fala sério… abusam de nossa paciência. Imaginem o que é que eles não misturam nos hambúrgueres do Big Mac? “Amo muito tudo isso!” – não é esse o slogan? Obra-prima de ato falho…

Mas prossigamos. Caminhava eu pelas plácidas ravinas do interior inglês, cercado de felpudas ovelhas e escutando o grasnar dos tordos, tudo é paz e quietude. Ter a oportunidade de escapar do seio da Mãe Gentil tem um efeito restaurador e até mesmo terapêutico. Mesmo assim, que inferno, minhas divagações me levam de volta aos problemas que me aguardam no Brasil. Fico pensando na conta que todos nós vamos ter que pagar por 12 anos de incompetência e desonestidade dos lulopetistas e seus comparsas. Vamos ter que liquidar essa conta imensa, esse buraco tremendo, e o pior, meus amiguinho(a)s, não tivemos nada a ver com isso. Muito ao contrário. Como dinheiro não desaparece no ar, tento quantificar a enorme transferência de renda proporcionada por mais de uma década de má gestão e roubalheira: “alguéns” ficou com essa grana toda, essa é que é a verdadeira Bolsa Famiglia.

A figura patética de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda evoca um São Jorge de puteiro. Enquanto finge dar alguma ordem nas contas públicas, é atacado pelo PT além de sabotado pelo próprio governo a que serve com constrangedora subserviência. Afinal, que governo pode ser sério com as suas finanças enfileirando 39 ministérios?

Como se pode consertar o país se não temos ainda a menor ideia dos esqueletos escondidos nos armários do BNDES, dos fundos de pensão, da Eletrobrás, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e onde mais houver um centavo de recurso público para ser esbulhado?

Joaquim Levy tentando “consertar” o Brasil é o mesmo que chamar um homeopata para socorrer um baleado por um AK-47. E continuam meus pensamentos enquanto caminho junto aos seculares muros de pedra que me separam das florestas onde 800 anos atrás caçava o rei João Sem Terra, aquele que assinou a Magna Carta em 1215 e que, até hoje, vale como Constituição do Reino Unido.

Comparo a qualidade de vida no Patropi com a velha Albion. Como é cara a vida no Brasil! Mesmo sendo um(a) sujeito(a) bem de vida, você gasta um dinheirão e, mesmo assim, tem uma vida miserável. Não tem estrada, não tem aeroporto, plano de saúde, escola decente, enfim, nada. Também não pode sair à rua sem um segurança, pois arrisca a levar uma facada. Se for pobre então… esquece, porque é muito pior.

No Brasil o Estado é o algoz do cidadão. Escorchando as pessoas de bem através de impostos dinamarqueses, devolve à sociedade uma vida de refugiado africano à deriva no Mediterrâneo. O Estado brasileiro, parasita, suga o cidadão trabalhador até a última gota e, pior, ainda o trata como bandido. Bem, cá estou de volta à nossa pocilga auriverde… Vida que segue.

E tenho dito.

A PONTE QUE PARTIU!

O INFERNO É AQUI !

Sexta-feira passada estava em São Paulo.  Concluídas todas as minhas tarefas, embiquei na direção do aeroporto na intenção de antecipar a minha volta. No balcão da TAM sou informado que, para trocar de voo, teria que pagar uma multa de 1.500 reais. Imagino que multa se paga quanto se comete uma infração. Não consigo admitir que o desejo de antecipar uma viagem seja considerado um malfeito. É o que dá ficar sujeito ao duopólio TAM-GOL, onde as duas empresas disputam acirradamente para ver quem é a pior.

Cobrar mil e quinhentos reais por um trecho Congonhas-Santos Dumont é um abuso, não tive outra alternativa que ficar horas mofando no mais movimentado aeroporto do Brasil. Na véspera de fim de semana os aeroportos ficam movimentados em qualquer lugar no mundo, e nesta sexta-feira em particular o tráfego aéreo estava congestionado por conta da tempestade no Rio de Janeiro. Mas nada disso justifica o principal aeroporto, da mais importante cidade do país, não oferecer as mínimas condições de conforto e higiene aos seus usuários que, aliás, pagam (caro) por isso.

Não havia lugar para sentar na sala de espera, passageiros atazanados corriam para cá e para lá, pois a toda hora, por conta de  insondáveis desígnios, muda-se o portão de embarque. Os avisos são em português, em inglês, quando são feitos, impossíveis de se compreender. Coitados dos turistas estrangeiros no Brasil. Se o passageiro tem fome, os preços são extorsivos, um sanduíche qualquer custa mais de vinte reais! E as garçonetes atendem a clientela como se vivessem em eterna TPM.

Desnecessário dizer que o meu voo atrasou. Mas não é só isso. Chegando ao Rio de Janeiro, no aeroporto do  Galeão, ficamos trancados, exatos vinte e sete minutos, aguardando uma singela escada para o desembarque. Depois de uma interminável viagem de ônibus até o terminal, fomos conduzidos por um labirinto de tabiques, compensados, andaimes e restos de obra até o que eles chamam de saguão.

No desembarque, taxistas piratas, bandalhas e quadrilheiros disputavam os passageiros aos tapas enquanto guardas municipais conversavam em animadas rodinhas. A única coisa que me fez suportar todo este tormento foi atravessá-lo submerso em minhas leituras.

Agora vamos aos números: a previsão atual de gastos  nas obras de mobilidade para a Copa é de R$ 25,6 bilhões. Destes,  R$ 3,8 bilhões são oriundos de recursos privados enquanto R$ 21,8 bilhões são de dinheiro público. Portanto, 85,1% dos gastos de mobilidade na Copa do Mundo vem do nosso bolso. Exatamente o contrário do que anunciou o governo quando o Brasil foi escolhido como sede do Mundial. Portanto, mais uma vez, fomos enganados.

Só mais um pequeno detalhe: 75% destas obras estão atrasadas.  Mais um detalhezinho de nada, o último, eu juro. Faltam cinco meses  para a Copa, e tem um Carnaval no meio.

Tenho dito.