MVB: a gênese de uma logomarca

Um belo dia, o Mu Chebabi chegou e me pediu pra bolar uma marca para os seus novos EPs, que levam o título de Música Viralata Brasileira (MVB). Ele sugeriu que a gente fizesse alguma coisa em torno da famosa marca da RCA Victor, aquela que tem um cachorro ouvindo um gramofone, junto com a frase “His master’s voice”, ou seja , “A Voz do Dono”. A partir daí a ideia evoluiu para algo bem melhor: nosso cachorro teria voz própria, seria um cantor, ou um  “cãotor”, como bem definiu o líder desse novo e vitorioso movimento musical. Nosso cachorro não ficaria docilmente ouvindo a voz do dono, mas ficaria encarando um microfone para soltar a voz e os bichos. E assim nasceu esta marca que hoje está estampada em milhares de camisetas, espalhadas pelo mundo todo… Brasil acima de tudo e MVB acima de todos!

2084: o ano em que tudo deu certo

Um conto para quem está cansado de ficção distópica, sombria e apocalíptica

Waldyrsson e seu filho estavam saindo da monumental Sala de Concertos Hamilton de Holanda. No passado, aquela construção tinha sido o Estádio Nacional de Brasília, também conhecido como Estádio Mané Garrincha ou “O Elefante Branco”. Eles tinham acabado de assistir a um show multimídia de um jovem saxofonista chinês acompanhado pela OJB, Orquestra de Jazz Brasileiro, sob o comando do veterano maestro Carlos Malta, ainda em plena atividade com seus 124 anos de idade. E ali, caminhando no meio da multidão que saía calmamente da sala de concertos, o filho fez uma revelação que deixou Waldyrsson abalado.

“Eu não acredito no que você está falando!”, disse Waldyrsson, em estado de choque. “Tem certeza de que você quer ser professor do ensino fundamental?”

“Tenho certeza, pai. Já decidi.”

Waldyrsson ficou sem chão. Ele tinha criado aquele garoto para ser jogador de futebol e, se tudo desse certo, jogador da seleção brasileira. Mas no fundo ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, esse problema ia acabar acontecendo com seu filho. Todos os garotos da idade dele tinham o mesmo sonho. Eles passaram a vida toda vendo, em todas as mídias, reportagens, documentários e hologramas mostrando os professores nos seus carrões, vestindo roupas caríssimas e sempre cercados de lindas mulheres. Já na década de 2060, o salário médio de um professor do ensino fundamental era 800 milhões de Surreais Novos.

“Meu filho, eu pensei que você fosse mais idealista. Eu sempre ensinei que não se deve dar tanta importância aos valores materiais. Sei que o salário de jogador não é tão bom assim, mas você não acha que é uma coisa sublime poder defender as cores da nossa bandeira?”.

“Não adianta, pai”.

Waldyrsson teve que reconhecer que estava parado no tempo. A situação socioeconômica do país tinha mudado muito desde a Copa do Mundo de 2038, quando o Brasil perdeu de 13 a zero para a seleção da Coreia do Norte…Waldyrsson passou alguns segundos perdido nesses pensamentos, mas logo voltar a prestar atenção ao que o filho falava.

“Eu já tomei a minha decisão, pai. Pensei bem e sei que vou me realizar plenamente na educação. E, além do mais, é um trabalho muito mais bem pago. Não se preocupe. Logo, logo eu vou poder comprar um carro novo para você e para mamãe. Um para cada um. E também um apartamento para vocês, em Paris…Um para cada um!”

“Tudo bem, meu filho”, disse Waldyrsson, mais conformado, “mas não se esqueça de ajudar também o seu irmão mais velho. Aquele salário de Senador não dá pra nada, coitado…”

(texto publicado na Folha de S. Paulo em 6 de junho de 2018)

A literatura e eu

No último fim de semana fui convidado mais uma vez a participar de uma reunião da AALCRF, Associação dos Amigos e Leitores da Coluna do Reinaldo Figueiredo. Os membros da AALCRF, que adoram siglas e acrônimos, estavam animados com a próxima Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, e queriam saber quais eram as minhas relações com a literatura.

Expliquei que, felizmente, desde a mais tenra infância, fui exposto às grandes obras da literatura mundial. Em casa, tinha à minha disposição uma vasta biblioteca e, além das obras de Monteiro Lobato, que toda criança lia, eu tinha outros livros favoritos. Um deles era “A Náusea”, de Jean Paul Sartre. Gostava tanto do livro que, no carnaval de 1955, pedi à minha mãe uma fantasia de existencialista, como se pode ver nesta foto, feita pelo meu pai. Em outros anos, já tinha saído de índio, cowboy ou pirata, mas aquele foi o meu melhor carnaval. Eu estava me sentindo o próprio Jean Paul Sartre. E para completar, meus pais me ensinaram a cantar a marchinha existencialista “Chiquita Bacana”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, aquela que diz: “Chiquita bacana lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica. Não usa vestido, não usa calção, inverno pra ela é pleno verão. Existencialista com toda a razão, só faz o que manda o seu coração”. Lembrei que fiz o maior sucesso numa reunião de amigos e parentes lá em casa. Meus pais pediram que eu cantasse a marchinha de carnaval e depois recitasse um trechinho de “A Náusea”, que eu sabia de cor. O trecho era este: “E era verdade, sempre tinha percebido isso: eu não tinha o direito de existir. Eu apareci por acaso, eu existia como uma pedra, uma planta, um micróbio…”. Aplausos gerais e comentários do tipo “Que fofo!”.

Os membros da AALCRF ficaram satisfeitos com a minha explanação e as minhas lembranças, mas tinham só mais uma pergunta. Queriam saber qual era o meu gênero literário preferido. Respondi que, atualmente, estou me interessando muito pela autoficção.

(texto publicado na Folha de S. Paulo em 12 de julho de 2017)

 

A Banda do Capitão Pimenta

De repente, ele teve uma epifania, um insight e uma sacada, tudo ao mesmo tempo: percebeu que não tinha nascido para ser presidente e teve a nítida sensação de não saber o que estava fazendo ali. Viu que tinha que mudar os rumos do seu destino. Naquele momento, sentiu vontade de jogar tudo para o alto, formar uma banda de rock e cair na estrada.

Chamou os filhos e os colaboradores mais próximos e começou a fazer planos. A princípio, todos ficaram um pouco perplexos com a decisão, mas ele tranquilizou a galera: “Sei que vocês não cantam nem tocam porra nenhuma, mas para fazer rock bastam três acordes e uma atitude. E Deus está do nosso lado!”.

Depois de um primeiro momento de indecisão, o grupo concluiu que daria tempo de ensaiar um repertório para participar do próximo Rock in Rio. O fato de o lineup do festival já estar fechado não seria um problema. Eles poderiam pedir para alguns amigos eliminarem discretamente uma ou duas bandas menos conhecidas, para abrir espaço na programação. O mais urgente agora era bolar um nome para a banda e traçar uma estratégia de marketing bem agressiva.

Como sempre, as discussões do grupo foram muito acaloradas, mas surgiram várias boas ideias para o nome da banda. O mais óbvio, A Banda do Capitão Pimenta, foi logo deixado de lado. Outros nomes bem cotados foram Pathetic Monkeys, Guns N’ Roses N’ More Guns, The Milice, Os Paramilitares do Sucesso, Ideological Bias, Terraplanistas, Keiroz Abelha e os Laranjas Selvagens, Leftist Nazis e Ustra-Death.

Agora a coisa vai.

(texto publicado na Folha de S. Paulo em 10 de abril de 2019)