Atenção, contém spoiler…

Isso aí saiu na Folha Ilustrada, em 19 de abril de 2017…

Atenção para o spoiler: todo mundo morre no final. A coisa começa com uma imagem projetada na tela de um cinema. Na imagem, cinco bandidos apontam armas uns para os outros enquanto trocam frases ameaçadoras. A câmera vai para fora da sala de projeção. No hall do cinema, o vendedor de pipoca aponta uma pistola automática para um cliente e grita: “Salgada ou doce?”. O cliente está com um rifle AR-15 apontado para a cabeça do vendedor e responde: “Com sal, e muita manteiga!”. Perto dali, fora do cinema, no corredor do shopping, uma senhora aponta um revólver calibre 38 para um segurança de terno preto e pergunta: “Por favor, onde é o toalete feminino?”. O segurança saca uma pistola, encosta a arma no peito da senhora e grita: “É no fim do corredor, à direita, por quê?!”. Neste mesmo corredor, a câmera chega até a porta do escritório de uma agência de publicidade. A câmera entra e vai até uma sala de reunião. Na cabeceira de uma grande mesa está um senhor e em volta estão mais seis pessoas. O senhor aponta uma pistola semiautomática modelo James Bond, com silenciador, para as outras pessoas e pergunta: “E aí? Alguém teve uma ideia genial para essa campanha pelo desarmamento?”. As seis pessoas na mesa sacam armas de vários tamanhos e potências, mas todas muito modernas, e apontam para o senhor na cabeceira da mesa. Uma das pessoas responde gritando: “Estamos desenvolvendo o conceito da narrativa, mas precisamos de mais tempo e uma verba maior, porra!”. A câmera volta para o corredor do shopping e chega no elevador, onde um uma mulher entra, aponta para o ascensorista uma pistola cromada, com cabo de madrepérola. Ela pergunta:”Desce?”. O ascensorista aponta um revólver 38 para ela e responde: “Sobe.” A mulher encosta a pistola na cabeça do ascensorista e grita: “Não! Agora vai descer!”. O elevador desce, a câmera sai do elevador e vai para fora do shopping. Na rua, a câmera passa por um grupo de pessoas em volta de um pastor evangélico. O pastor está com uma das mãos na cabeça de um fiel e com a outra aponta uma pistola para ele. O pastor grita: “Sai, demônio! Sai desse corpo que não te pertence!”. O fiel aponta um revólver para o pastor e grita: “Aleluia!”. Perto dali, uma babá está passeando com um bebê num carrinho. O bebê está apontando para a babá uma dessas pequenas pistolas de bolso, que se ajusta perfeitamente na mãozinha da criança. O bebê grita: “Buááá!”. A babá tira da parte de trás do carrinho uma submetralhadora UZI, aponta para o bebê e fala: “Para de chorar, garoto!”. Ali ao lado, no ponto de ônibus, um motorista, com um cigarro apagado no canto da boca, aponta um 38 para um idoso que está na fila e pergunta: “O senhor tem fogo?”. O idoso tira do bolso uma pistola e responde: “Tenho!”. Neste momento, todos puxam os gatilhos.

O que você não ouve naquelas lutas

Você já deve ter visto muitas vezes aquelas apresentações de lutadores de boxe e MMA, aquele curioso ritual no qual os atletas ficam se encarando, se peitando e se provocando, trocando frases com alto teor de agressividade.

Infelizmente, nem sempre dá para ouvir tudo que eles dizem. Mas, às vezes, essas provocações continuam durante as lutas.

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A mosca azul

A mais recente reunião da AALCRF (Associação dos Amigos e Leitores da Coluna do Reinaldo Figueiredo) estava animada. A discussão foi em torno de um dos assuntos favoritos dos membros da entidade: a origem das palavras e de certas expressões. Alguém queria saber de onde vem a expressão “ser picado pela mosca azul”. Todos concordaram que essa é uma questão muito importante nesse momento em que a sociedade tem que tomar cuidado, não só com o mosquito da dengue, mas também com este outro perigoso inseto.

A luta continua

“Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.”Carlos Drummond de Andrade

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O poeta queria escrever um poema denso e intenso, que causasse uma forte impressão no leitor. Seguindo as orientações de Edgar Allan Poe, escolheu para cenário um local soturno e lúgubre, um beco escuro, perto de um cemitério. E a hora seria a madrugada, bem depois da meia-noite. Mas o poeta, como todo poeta, era meio desligado e não percebeu que o local era muito perigoso e pouco policiado. Enquanto ainda estava escolhendo cuidadosamente a métrica e as rimas que usaria no poema, o poeta viu, no fundo do beco escuro, duas palavras de aspecto ameaçador. Uma era BRUTAMONTES e a outra era FACÍNORA.

Aparentemente sem qualquer motivo, o brutamontes partiu para cima dele, furioso, com os punhos cerrados. O poeta, por instinto, se desviou e conseguiu evitar o golpe. Quando o brutamontes, ainda mais raivoso, voltou para uma segunda investida, o poeta deu-lhe um pontapé no saco, atingindo com toda a força o escroto. Quer dizer, o poeta ficou satisfeito por ter atingido o escroto com duplo sentido: o escroto, a bolsa escrotal, e também aquele cara escroto, no sentido de indivíduo sem escrúpulos e desprezível. Mas aí o poeta observou que estava tergiversando, que também é uma palavra perigosa. Não era prudente ficar se distraindo com o verbo tergiversar – que também significa virar de costas – porque atrás dele, o facínora se preparava para atacá-lo com uma barra de ferro.

Nesse momento, o poeta se lembrou de que tinha trazido um Dicionário Houaiss, com capa dura, um volume medindo 31 x 22 x 9 cm e pesando 3 quilos e 700 gramas. Antes que o facínora se aproximasse, o poeta arremessou o volume. Ele pensou na hora que poderia ter tacado, jogado ou lançado o dicionário. Mas preferiu arremessar. E fez bem, porque o tijolaço atingiu com violência um dos olhos do facínora, e o supercílio começou a sangrar imediatamente. Supercílio também é uma palavra traiçoeira, pensou o poeta. Será que é assim mesmo que se escreve? Ao mesmo tempo em que pensava isso, o poeta viu que o brutamontes e o facínora ainda estavam atordoados e aproveitou para fugir dali.

No dia seguinte, inspirado pelos acontecimentos daquela noite, o poeta se inscreveu num curso de MMA, já sonhando em entrar para a Academia Brasileira de Artes Marciais.

(Publicado na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 3 de maio de 2017.)