A Banda do Capitão Pimenta

De repente, ele teve uma epifania, um insight e uma sacada, tudo ao mesmo tempo: percebeu que não tinha nascido para ser presidente e teve a nítida sensação de não saber o que estava fazendo ali. Viu que tinha que mudar os rumos do seu destino. Naquele momento, sentiu vontade de jogar tudo para o alto, formar uma banda de rock e cair na estrada.

Chamou os filhos e os colaboradores mais próximos e começou a fazer planos. A princípio, todos ficaram um pouco perplexos com a decisão, mas ele tranquilizou a galera: “Sei que vocês não cantam nem tocam porra nenhuma, mas para fazer rock bastam três acordes e uma atitude. E Deus está do nosso lado!”.

Depois de um primeiro momento de indecisão, o grupo concluiu que daria tempo de ensaiar um repertório para participar do próximo Rock in Rio. O fato de o lineup do festival já estar fechado não seria um problema. Eles poderiam pedir para alguns amigos eliminarem discretamente uma ou duas bandas menos conhecidas, para abrir espaço na programação. O mais urgente agora era bolar um nome para a banda e traçar uma estratégia de marketing bem agressiva.

Como sempre, as discussões do grupo foram muito acaloradas, mas surgiram várias boas ideias para o nome da banda. O mais óbvio, A Banda do Capitão Pimenta, foi logo deixado de lado. Outros nomes bem cotados foram Pathetic Monkeys, Guns N’ Roses N’ More Guns, The Milice, Os Paramilitares do Sucesso, Ideological Bias, Terraplanistas, Keiroz Abelha e os Laranjas Selvagens, Leftist Nazis e Ustra-Death.

Agora a coisa vai.

(texto publicado na Folha de S. Paulo em 10 de abril de 2019)

Jázz, Jézz e Paôlo

Recentemente, aconteceu mais uma reunião da AALCRF (Associação dos Amigos e Leitores da Coluna do Reinaldo Figueiredo) e, depois da assembleia geral, alguns dos membros vieram bater um papo comigo. Passamos um tempo naquela inevitável e obrigatória conversa sobre a atual situação do país, falando sobre os nossos governantes que estão, digamos assim, limpando o cu com a merda. Mas logo resolvemos mudar de assunto e passar para temas mais amenos. E aí alguém quis saber por que, no meu programa de jazz na internet, eu pronuncio a palavra jazz com o A aberto e não com o sotaque inglês, que seria algo como “jézz”.

Expliquei que eu prefiro usar essa pronúncia “carioca” porque acho que tem mais a ver. Afinal, o programa fala dos vários tipos de jazz que existem pelo mundo afora, e cada país tem o seu sotaque, tanto na língua quanto na música. Por exemplo, em países de língua espanhola, o pessoal  fala “Jás” ou até “Yás”, com o sotaque lá deles. Sobre esse tipo de coisa, tem até um caso do escritor espanhol Miguel de Unamuno. Uma vez ele estava dando uma conferência sobre Shakespeare e pronunciava o nome do bardo com sotaque espanhol e não em inglês. Aí duas pessoas interromperam o conferencista para dizer que a pronúncia correta não era aquela. A partir daí, só pra sacanear, Unamuno continuou a palestra até o final, mas falando o texto todo num inglês perfeito.

Voltando ao nosso “jázz”, aqui no Brasil essa preferência não é só minha e nem é nova. Esse jeito de falar aparece até numa famosa canção do Djavan, “Sina”, onde ele rima jazz com a palavra mais: “Pai e mãe, ouro de mina / coração, desejo e sina / tudo mais / pura rotina, jazz”. E tem também a ocorrência do “ jázz” naquela composição de Carlos Lyra, “Influência do Jazz”, que rima jazz com “pra frente e pra trás”. E, mesmo mudando de gênero musical, se eu tiver que falar “rock’n roll”, acho que vou acabar pronunciando “roquenrôu”, como todo mundo faz.

Mas o pior é quando a gente quer falar italiano melhor do que os próprios italianos. Todos os italianos que se chamam Paolo, quando chegam no  Brasil, são chamados de Paôlo. Eles não entendem nada, porque lá na Itália não existe esse nome. Eu conheço um italiano que está morando aqui há 15 anos e já desistiu de explicar que o nome dele não é aquele. Não tem jeito: vai ficar sendo, para sempre, Paôlo.

(publicado na Folha de S.Paulo, em agosto de 2017)

O Chapeiro Careca (peça de teatro do absurdo, no estilo Ionesco)

O CHAPEIRO CARECA

 

Personagens: Sr. Messias, Sr. 03, Sr. Donald e o Mordomo Tião.

Cenário: um ambiente brasileiro de classe média, com móveis brasileiros e decoração brasileira. Paredes amarelas, portas verdes e móveis azuis. Numa poltrona está o Sr. Messias, que usa pijama verde com listras amarelas e escreve mensagens no seu celular. Ao seu lado, em outra poltrona, está o Sr. 03, usando terno azul e um boné vermelho, com a inscrição “Faça a Casa Grande de Novo”. Ele também escreve mensagens no seu celular. A peça começa com um longo silêncio. Apenas são ouvidos alguns ruídos produzidos pelos dois aparelhos.

Sr. Messias – Eu sabia! Agora vai todo mundo comemorar a tal chegada do homem na Lua! Tu acredita nisso, 03?

Sr. 03 – The book is on the table!

Sr. Messias – O quê?

Sr. 03 – Nada, não. Eu tô praticando o meu inglês.

Sr. Messias – Essa coisa do homem na Lua foi uma das maiores fake-news de todos os tempos! Foi aí que tudo começou! Depois falaram que tinha ditadura no Brasil. Depois disseram que tinha tortura no Brasil, que tinha racismo no Brasil, fome no Brasil, desmatamento no Brasil. Nada disso existe!

Sr. 03 – E a girafa?

Sr. Messias – Não existe!

Sr. 03 – E o clitóris?

Sr. Messias – Não existe!

Som de interfone. O Mordomo Tião (caracterizado como o comediante Tião Macalé, com roupa de mordomo) atende. Depois, tampa o bocal e sussurra para o Sr. Messias.

Mordomo Tião – É o Sr. Donald.

Sr. Messias – Tião, vai lá dentro, dá uma guaribada na maquiagem e volta para abrir a porta.

O Mordomo Tião sai de cena rapidamente, e volta com a cara pintada de branco. Abre a porta.

Mordomo Tião – Yes, Sir!!!

O Sr. Donald entra na sala. Nesse momento, ouve-se uma versão orquestral do hino dos Estados Unidos da América. O Sr. Messias e o Sr. 03 se levantam e fazem uma saudação com o braço direito esticado para o alto e, com a mão esquerda, coçam os respectivos sacos. O Sr. 03 conduz o Sr. Donald até a mesa de jantar. Enquanto eles se acomodam, o Mordomo Tião traz uma bandeja verde e amarela para a mesa.

Sr. 03 – The hamburger is on the table!

Todos olham ansiosamente para o Sr. Donald, enquanto ele prova um pedaço do alimento.

Sr. Donald – This hamburger is fried…is…frito! Not good! The real hamburger is grilled…is…grelhado! (Aponta para o Sr. 03) You’re fired!

FIM.

* Esta foi a última coluna da série que começou a ser publicada em 5 de abril de 2017, toda quarta-feira no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo.